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Pronto para ouvir.
Kruai, o Kryon mineiro, desce à Terra e arrepende na metade do caminho
Uai, antes de mais nada deixa eu me apresentar direito, porque o povo daqui gosta dum currículo espiritual. Meu nome é Kruai, Kruai do Serviço Magnético de Minas Gerais. Kryon é meu primo internacional, desses que canaliza em auditório, viaja o mundo, fala bonito sobre campo quântico, consciência multidimensional, mudança planetária e um tanto de trem que deixa o povo de boca aberta. Eu não tenho essa elegância toda, não. Sou do interior e minha especialidade é explicar evolução espiritual pra quem já ouviu a explicação três vez e continua fazendo a mesma cagada.
Eu também venho do outro lado do véu, mas prefiro entrar pela cozinha, porque na sala sempre aparece alguém querendo saber quem foi na encarnação passada. Ô raça interessada em passado, sô. O sujeito mal consegue administrar a encarnação atual, deve condomínio, briga com a cunhada, tem dezenove mil e oitocentos e quarenta e três e-mails não lidos e quer descobrir se foi sacerdote atlante. Foi, uai. Todo mundo foi. Pelo tanto de sacerdote reencarnado que aparece hoje, Atlântida devia ter mais sacerdote que população. Pedreiro ninguém foi, agricultor ninguém foi, limpador de estrebaria também não. Nunca aparece um cidadão saindo emocionado duma regressão dizendo: “Meu Deus, finalmente descobri, eu era servente de obra na Lemúria!” Num tem glamour, né? Todo mundo era sacerdote, faraó, princesa, comandante estelar ou conselheiro espiritual de alguma civilização que, por coincidência muito conveniente, não deixou cartório.
Eu fico só olhando, porque sou entidade evoluída e tenho postura. Se não fosse, eu ria.
Meu primo Kryon costuma dizer que vocês são profundamente amados, e eu concordo inteiramente. Só acrescento uma informação que geralmente fica de fora da canalização: ocês são profundamente amados, mas dão um trabalho desgraçado. Uma coisa não elimina a outra. O amor cósmico pode ser infinito e a paciência do departamento responsável pela Terra talvez não seja, porque a humanidade desenvolveu uma ideia muito curiosa de evolução espiritual. O cidadão quer ascender dimensionalmente, ativar DNA, despertar consciência cósmica e entrar na quinta dimensão, mas basta alguém estacionar na vaga dele que ele desce três dimensão em onze segundo e retorna diretamente ao paleolítico. A frequência vibratória some tão depressa que parece que foi rebocada junto com o carro.
Outro trem que me diverte é essa obsessão moderna por frequência. Amor tem frequência, prosperidade tem frequência, abundância tem frequência, raiva tem frequência e, desse jeito, daqui a pouco descobrem que torresmo também vibra em 528 Hz. Aí aparece um iluminado vendendo o curso “Ativação quântica do torresmo consciencial”, com certificado, grupo exclusivo e doze parcela sem juros. E vende, claro, porque se tem uma coisa que terrestre gosta mais que iluminação é iluminação parcelada no cartão.
Volta e meia alguém pergunta: “Kruai, como faço para elevar minha vibração?” Eu respondo que pode começar parando de ser um mala. A resposta geralmente decepciona, porque a pessoa esperava uma técnica tibetana secreta encontrada numa caverna do Himalaia e transmitida exclusivamente para quarenta e sete escolhidos. Só que melhorar a energia da casa talvez comece por parar de berrar dentro dela; melhorar a energia do relacionamento pode envolver parar de manipular o parceiro; melhorar o campo consciencial passa por diminuir a fofoca; abrir o chacra cardíaco talvez exija pedir desculpa pra alguém. Aí complica, porque mexer no comportamento dá trabalho. Comprar cristal é mais fácil. Cê põe o cristal na estante e continua insuportável. O cristal que lute.
Também existe uma mania danada de atribuir qualquer coisa ao mundo espiritual. O sujeito acordou cansado, foi ataque extrafísico; perdeu a chave, foi obsessor; a internet caiu, é transição planetária; o cartão foi recusado, bloqueio ancestral de prosperidade; comeu três prato de feijoada, acordou passando mal e anuncia que está atravessando uma limpeza energética profunda. Num é limpeza energética, filho, foi a linguiça. A linguiça também participa da realidade multidimensional, mas nem por isso precisa responsabilizar o umbral.
Outro dia um cidadão me perguntou mentalmente se aquela presença estranha que ele sentia no quarto às três da manhã poderia ser espiritual. Perguntei quanto café ele tinha tomado e ele respondeu que umas cinco xícara. Falei pra exorcizar primeiro a cafeteira e depois a gente conversava sobre espírito. Nem tudo é fenômeno extrafísico, às vez é cafeína, ansiedade, sono ruim, cano estalando, vizinho arrastando cadeira ou o gato derrubando alguma coisa. Isso devia estar escrito na entrada de todo centro espiritualista: “Antes de culpar o astral, confira o café.”
Mas também existe o extremo contrário, aquele sujeito que não acredita em nada. Se um espírito materializar na cozinha dele, lavar a louça, assinar declaração em cartório e deixar impressão digital, ele vai concluir que deve ter ocorrido alguma flutuação estatística. Pode aparecer Nossa Senhora montada num disco voador acompanhada de Krishna e três extraterrestre tocando viola que ele olha, coça o queixo e sentencia: “Pareidolia.” Eu respeito, porque coerência é uma virtude. Teimosia também deve ser, dependendo do departamento onde o sujeito trabalha.
Agora, se o materialista radical dá trabalho, o espiritualista que acredita em tudo consegue competir de igual pra igual. Basta alguém colocar “quântico”, “frequência”, “vibracional” ou “multidimensional” no nome que ele já abre a carteira. O problema não está em admitir que existam fenômenos ainda desconhecidos, porque o universo é grande demais para caber nas certezas de qualquer época; a encrenca começa quando mistério vira licença para acreditar em qualquer trem. Mistério sem discernimento vira superstição numa velocidade que nem eu acompanho, e olha que sou do Serviço Magnético.
Tem ainda o povo esperando a Nova Terra. Faz décadas que perguntam quando ela chega, como se fosse ônibus atrasado. “Kruai, quando a humanidade entra na quinta dimensão?” Eu pergunto se a pessoa lavou a louça, e ela acha que estou mudando de assunto. Num tô, não. O sujeito quer construir a Nova Terra, mas deixa copo sujo na pia; quer fraternidade universal, mas não conversa com o vizinho; ama profundamente toda a humanidade, desde que a humanidade permaneça a uma distância razoável, principalmente dentro do elevador. Quer consciência cósmica sem consciência doméstica, e aí fica difícil até pro departamento magnético.
E os trabalhador da luz, então? Ô nome perigoso. Quando alguém se apresenta como trabalhador da luz, eu já confiro onde deixei minha carteira. Trabalhador da luz de verdade normalmente tá ocupado trabalhando e não teve tempo de fazer crachá. Só que o ego espiritual gosta dum uniforme e adora uma missão especial. “Eu vim à Terra com uma missão.” Claro que veio. Todo mundo veio fazer alguma coisa, até a minhoca participa do funcionamento do planeta e nem por isso abriu canal no YouTube anunciando que foi escolhida pela Confederação Intergaláctica.
Outra confusão boa é o merecimento. Tem gente imaginando que o universo funciona como programa de fidelidade: fez três caridade, ganhou quinze ponto kármico; meditou vinte minuto, desbloqueou prosperidade; perdoou a sogra, ganhou upgrade pra quinta dimensão. Karma num é programa de milhagem, porque, se fosse, o mundo espiritual estava cheio de guru tentando entrar na sala VIP. A vida parece muito mais uma rede gigantesca de causas, escolhas, circunstâncias, encontros, consequências e possibilidades do que uma maquininha cósmica em que você enfia bondade dum lado e recebe prosperidade do outro. Às vez cê faz tudo direito e vem problema mesmo assim; então reclama, esperneia, pergunta o que fez para merecer aquilo e, talvez muito depois, percebe alguma coisa que antes não enxergava. Quando percebe.
Tem também os portal. Onze e onze, vinte e dois e vinte e dois, três e trinta e três. O sujeito olha pro relógio e quase cai da cadeira: “Meu Deus, 11:11!” Calma, criatura, pode ser apenas onze e onze. O universo também sabe ver hora e não precisa transformar todo relógio digital em telegrama de Andrômeda. Isso não significa negar sincronicidade, intuição ou experiências espirituais; significa apenas que, se toda coincidência for mensagem cósmica, o cosmos vai precisar abrir uma central de atendimento.
O problema de vocês nunca foi falta de informação espiritual. Tem Bíblia, Vedas, Upanishads, Tao, budismo, espiritismo, Yoga, Cabala, mística, filosofia, psicologia, neurociência, projeciologia e livro suficiente pra calçar a Terra se ela ficar manca. A humanidade acumulou milhares de anos de ensinamentos dizendo para desenvolver compaixão, autoconhecimento, discernimento, fraternidade e responsabilidade, portanto informação não parece ser exatamente o gargalo.
O verdadeiro fenômeno paranormal é outro: vocês sabem um tanto de coisa que não praticam.
O cidadão termina de ler que somos todos um, fecha o livro, entra na internet e chama o primeiro desconhecido que discorda dele de imbecil. Dois minuto depois já esqueceu a unidade cósmica e está desejando sofrimento kármico ao adversário. Aí, passada a briga, pergunta por que a humanidade ainda não ascendeu. Porque num dá tempo, uai. Toda vez que começa a subir aparece uma discussão no Facebook e volta todo mundo.
Apesar dessa bagunça, eu ainda tenho esperança, porque por baixo desse circo consciencial tem gente tentando de verdade. Tem gente errando, percebendo, corrigindo, aprendendo, caindo, levantando e começando outra vez. Talvez consciência cresça mais desse jeito do que através das grandes proclamações espirituais. Evolução num parece uma escada rolante pro céu; parece mais estrada de terra mineira depois da chuva. Cê atola, escorrega, xinga, empurra o carro, volta um pedaço, pega outro caminho e continua.
Uma hora chega.
Nós aqui em Minas chamamos isso de “vai indo”.
E vai mesmo, devagarzinho, porque o universo tem bilhões de anos e só ocês tão com pressa. Então cuida da consciência, dos pensamento e principalmente do jeito que cê trata os outro; desconfia um pouco das própria certeza, aprende a rir de si mesmo e deixa algum espaço para o mistério sem transformar qualquer bobagem em revelação intergaláctica.
E quando aparecer alguém dizendo que recebeu uma mensagem urgentíssima da Confederação Galáctica informando que a Terra vai entrar definitivamente na quinta dimensão na próxima terça-feira, às quatro da tarde, antes de vender a casa, abandonar o emprego e preparar a nave, faça uma pergunta simples:
“Horário de Brasília?”
Porque organização também é evolução espiritual.
Kruai, do Serviço Magnético de Minas Gerais.
Uai.
Kryon e Kruai: o canalizado e o mineiro
- Kryon: A consciência humana participa de um campo maior de inteligência.
Kruai: Cê pensa sozinho nada. Tá tudo embolado no mesmo balaio cósmico. - Kryon: O ser humano possui uma dimensão espiritual além do corpo físico.
Kruai: Ocê é mais que esse trem de carne aí, uai. - Kryon: A humanidade atravessa um processo de transformação da consciência.
Kruai: O povo tá mudano, mas devagar igual fila de banco em cidade pequena. - Kryon: O medo reduz a capacidade humana de perceber novas possibilidades.
Kruai: Com medo, ocê não enxerga nem a porteira aberta na sua frente. - Kryon: O amor possui papel fundamental na evolução da consciência.
Kruai: Sem amor, fio, ocê vira só um jumento alfabetizado. - Kryon: A realidade pode conter dimensões ainda desconhecidas pela ciência.
Kruai: Só porque ocê num mede o trem, não quer dizer que o trem num tá lá. - Kryon: A ciência ainda descobrirá propriedades da consciência hoje consideradas incomuns.
Kruai: A ciência ainda vai achar uns trem e depois fingir que sempre soube. - Kryon: A intuição pode funcionar como acesso a informações além do raciocínio linear.
Kruai: Às vez a cabeça num sabe, mas o trem cá dentro já sacou faz tempo. - Kryon: A consciência coletiva influencia o desenvolvimento da humanidade.
Kruai: Se todo mundo pensa merda junto, vira mutirão. - Kryon: A separação entre os seres é menor do que aparenta.
Kruai: Ocê acha que tá separado porque num tá prestano atenção. - Kryon: O passado não precisa determinar permanentemente o futuro.
Kruai: Só porque ocê fez cagada ontem num precisa fazer assinatura mensal. - Kryon: Velhos padrões podem ser transformados pela consciência.
Kruai: Costume ruim num é patrimônio histórico, não. Larga esse trem. - Kryon: A compaixão modifica profundamente as relações humanas.
Kruai: Antes de chamar o outro de besta, confere se ocê num tá pastano também. - Kryon: O ser humano carrega potenciais ainda pouco compreendidos.
Kruai: Tem um tanto de ferramenta aí dentro e ocê usando só o martelo. - Kryon: A percepção espiritual exige abertura para aquilo que ainda não compreendemos.
Kruai: Se ocê só aceita o que já sabe, vai morrer sabendo a mesma mixaria. - Kryon: A consciência pode transcender limitações estabelecidas por crenças antigas.
Kruai: Tem gente presa numa gaiola e ainda defendendo a qualidade da grade. - Kryon: A humanidade precisa superar ciclos repetitivos de conflito.
Kruai: Briga, guerra, vingança, briga de novo. Trem mais criativo, viu. - Kryon: A paz começa pela transformação interior.
Kruai: Quer arrumar o planeta? Começa parando de infernizar quem mora na sua casa. - Kryon: Cada ser humano participa da construção da realidade coletiva.
Kruai: Num adianta reclamar da sopa se ocê também jogou cebola podre no panelão. - Kryon: Reconhecer a unidade da vida modifica nossa relação com o mundo.
Kruai: No fim das conta, tá todo mundo no mesmo ônibus cósmico. E tem uns passageiro dando trabalho pra desgraça.

