AS MASSAS IMPENSANTES E A VIAJADA NA MAIONESE ASTRAL

AS MASSAS IMPENSANTES E A VIAJADA NA MAIONESE ASTRAL

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Vivemos um dos grandes paradoxos da era das infovias. Nunca tivemos acesso tão rápido a tamanha quantidade de informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil confundir informação com conhecimento, opinião com argumento, convicção com evidência, popularidade com verdade e experiência subjetiva com revelação universal. Globalizamos quase tudo: o comércio, a política, a religião, a cultura, o entretenimento e, naturalmente, a ignorância. A comunicação tornou-se instantânea, o discernimento, porém, continua exigindo tempo, formação, comparação, silêncio interior e trabalho mental. A tecnologia acelerou a circulação das ideias, sem produzir, por si mesma, maturidade para avaliá-las.

É por isso que chamo nossa época de era do (des)conhecimento. O saber está disponível, porém fragmentado, descontextualizado e misturado a uma quantidade industrial de ruído. A mesma tela que oferece gratuitamente artigos científicos, bibliotecas, cursos, documentos históricos e obras clássicas também entrega, com aparência semelhante, falsificações grosseiras, montagens, pseudorrevelações e surtos interpretativos embalados como verdades proibidas. Para o usuário sem formação epistemológica, tudo chega pela mesma janela luminosa, com a mesma tipografia e o mesmo botão de compartilhar. O conteúdo perdeu sua hierarquia visível, cabe ao indivíduo reconstruí-la por meio do discernimento, justamente a competência que menos se exercita na navegação compulsiva.

Chamo de massa impensante um estado funcional da consciência, e não uma classe social, uma geração ou um grupo político específico. Há pessoas cultas que suspendem o raciocínio quando o assunto confirma seus desejos, assim como há indivíduos de pouca escolaridade formal dotados de prudência, percepção e inteligência prática. A massa começa quando a pessoa terceiriza o próprio juízo, adere ao comportamento do grupo e troca a investigação pelo reflexo condicionado de curtir, odiar, repetir e atacar. Nesse estado, ela já não examina uma ideia, apenas verifica se a ideia pertence à sua tribo.


Entre a credulidade delirante e o ceticismo automático

Na internet, publica-se praticamente qualquer coisa porque existe público para praticamente qualquer crença. De um lado, multiplicam-se teorias conspiratórias tão mirabolantes quanto impermeáveis à realidade: Terra plana, negação da ida do ser humano à Lua, líderes reptilianos, personalidades mortas e substituídas por clones, civilizações extraterrestres administrando eleições, vacinas contendo mecanismos de controle remoto e milhares de variações do delírio humano. De outro lado, instalou-se um ceticismo reflexo, agressivo e frequentemente ignorante, que trata como fraude tudo aquilo que ainda não cabe no paradigma materialista dominante. Um extremo acredita sem examinar, o outro rejeita sem investigar. Ambos economizam o trabalho de pensar.

Na web, tudo é postável e quase tudo se torna “crençável”, desde que encontre uma plateia emocionalmente preparada para aceitá-lo.

O verdadeiro debate sobre paradigmas exige uma competência que se tornou rara: sustentar hipóteses sem convertê-las prematuramente em certezas. Requer conhecer minimamente lógica, filosofia da ciência, história das ideias, metodologia de pesquisa, vieses cognitivos, limites instrumentais e diferentes graus de evidência. Também pede capacidade para distinguir ausência de comprovação, evidência contrária e impossibilidade ontológica. Essas três coisas estão longe de ser equivalentes. A falta atual de evidência para determinado fenômeno não demonstra, por si só, que ele seja impossível; ao mesmo tempo, uma experiência intensa, uma visão mediúnica ou uma intuição pessoal não estabelece uma verdade objetiva e universal.

Entre o crédulo e o negador existe o investigador. Ele não transforma dúvida em deboche, nem esperança em prova. Examina a procedência da afirmação, o método empregado, as alternativas explicativas, a coerência interna, a convergência de relatos independentes e a possibilidade de erro, fraude, autoengano ou interferência emocional. Esse centro não representa neutralidade frouxa ou indecisão crônica. Trata-se da posição mais trabalhosa, porque admite a complexidade do real sem renunciar aos critérios.

Os dois extremos da régua consciencial estão superlotados: de um lado, o crédulo delirante, de outro, o cético dogmático. O centro, onde se encontram estudo, pesquisa, prudência e pensamento crítico, permanece cada vez mais abandonado, justamente porque exige mais trabalho e oferece menos conforto psicológico.


Quando a rede recompensa o pior de nós

As plataformas digitais não foram estruturadas prioritariamente para elevar a consciência humana. Seu funcionamento econômico depende da captura e da permanência da atenção. Espanto, medo, indignação, escândalo e promessa extraordinária tendem a gerar mais reação do que prudência, contexto e nuance. Uma pesquisa publicada na revista Science, baseada em aproximadamente 126 mil histórias compartilhadas no Twitter por cerca de três milhões de pessoas, constatou que notícias falsas viajaram mais longe, mais depressa e de modo mais amplo do que as verdadeiras. A novidade e a carga emocional ajudaram a explicar essa vantagem de propagação. Não foi apenas uma invasão de robôs, o comportamento humano teve papel central no processo. Vosoughi, Roy e Aral, 2018.

Outro estudo, construído com observações de 7.331 usuários, análise de 12,7 milhões de publicações e experimentos comportamentais, mostrou que a recompensa social, na forma de curtidas e compartilhamentos, aumenta a probabilidade de futuras manifestações de indignação moral. A rede ensina o usuário a exagerar, porque o exagero rende atenção. Depois de algum tempo, a pessoa talvez já nem saiba onde termina sua convicção e começa sua atuação para a plateia. Brady e colaboradores, 2021.

Isso ajuda a compreender por que o feio, o grotesco, o humilhante e o intelectualmente miserável ganharam tanta visibilidade. A rede não criou a estupidez, porém forneceu a ela palco, iluminação, sistema de recompensa, métricas públicas e possibilidade de monetização. Antes, o ignorante convicto aborrecia algumas pessoas na mesa de um bar, agora pode montar um canal, fabricar autoridade, reunir centenas de milhares de seguidores e transformar a própria falta de critério em empreendimento.

O problema mais grave não é a ignorância reconhecida, porque ela ainda pode aprender. O perigo começa quando a ignorância se orgulha de si mesma, transforma limitação em identidade e reage ao conhecimento como se ele fosse uma agressão pessoal.

O chamado efeito Dunning-Kruger é frequentemente usado como xingamento, embora descreva algo mais específico e mais sério. Em determinadas tarefas, a baixa competência reduz também a capacidade de reconhecer a própria incompetência, produzindo avaliações excessivamente favoráveis do próprio desempenho. Isso não significa que toda pessoa pouco instruída se considere genial, nem autoriza diagnosticar desconhecidos pela internet. A advertência válida é outra: para perceber meus erros, muitas vezes preciso das mesmas competências que me faltaram ao cometê-los. Por essa razão, a autoconfiança jamais deveria valer como certificado de conhecimento. Kruger e Dunning, 1999.

Estudos sobre desinformação também indicam que a vulnerabilidade a notícias falsas se relaciona à insuficiência de raciocínio analítico, e não somente ao partidarismo. Quando a pessoa interrompe o automatismo intuitivo e efetivamente examina a afirmação, sua capacidade de distinguir conteúdos verdadeiros e falsos tende a melhorar. Em linguagem direta: pensar dá trabalho, e grande parte da desinformação prospera porque encontra pessoas dispostas a reagir antes de pensar. Pennycook e Rand, 2019.


A ciência, seus méritos e suas zonas de captura

A ciência avança, corrige erros, amplia instrumentos e produz conhecimento extraordinário, mas sua marcha nunca foi uma linha reta e imaculada. Ela também anda para os lados, como siri, recua, obedece a modas acadêmicas, protege reputações e sofre a influência de interesses econômicos e políticos. Convém, contudo, separar duas dimensões: a ciência como método crítico de investigação e a ciência como atividade humana institucionalizada. O método oferece mecanismos de controle, as instituições são compostas por seres humanos, financiadores, carreiras, vaidades, conflitos de interesse e estruturas de poder.

Há evidência concreta para essa cautela. Uma revisão sistemática da Cochrane concluiu que estudos de medicamentos e dispositivos patrocinados pela indústria apresentavam resultados e conclusões favoráveis ao produto do patrocinador com maior frequência do que estudos sem esse patrocínio. Isso demonstra risco de viés institucional, não demonstra que toda ciência esteja comprada, que todo cientista seja corrupto ou que qualquer palpite alternativo se torne verdadeiro. Usar as falhas da ciência para legitimar qualquer fantasia corresponde ao mesmo erro lógico de usar os êxitos científicos para declarar impossível tudo o que ela ainda não investigou adequadamente. Lundh e colaboradores, 2017.

Minha posição, portanto, não cabe na dicotomia infantil entre ajoelhar-se diante da ciência institucional e desprezá-la. Eu respeito o método, examino os resultados, observo quem financiou, verifico a qualidade do desenho de pesquisa e reconheço limites. Na área consciencial, adoto a mesma prudência: valorizo experiências, relatos, tradições, parapsiquismo e fenomenologia, porém separo cuidadosamente o fenômeno percebido da interpretação dada a ele. A experiência pode ser autêntica e a interpretação estar errada. Um médium pode captar algo real, misturá-lo ao próprio psiquismo e construir, de boa-fé, uma narrativa fantasiosa. Entre fraude e verdade integral existe uma vasta zona de animismo, simbolização, memória, expectativa, contaminação cultural e elaboração inconsciente.


O enfraquecimento da leitura profunda

O déficit contemporâneo não é apenas informacional, é arquitetônico. Falta estrutura mental para concatenar ideias, sustentar abstrações, perceber diferentes camadas de lógica, compreender as nuances da retórica e interpretar um texto para além das palavras isoladas.

Também vivemos uma crise de leitura e concatenação mental. Ler palavras não equivale a compreender um texto. Compreensão exige acompanhar premissas, reconhecer implicações, perceber ironia, distinguir exemplo de tese, identificar mudanças de nível lógico e conservar na memória o que foi dito páginas antes. Quando essas capacidades enfraquecem, a pessoa reage a uma frase isolada e perde o sistema conceitual do qual ela faz parte.

Há dados preocupantes, embora devam ser apresentados sem alarmismo geracional. Uma grande pesquisa com conscritos noruegueses encontrou reversão do chamado efeito Flynn, isto é, queda em pontuações de testes cognitivos em coortes mais recentes, e indicou que fatores ambientais tinham papel importante. Esse resultado não prova uma redução universal da inteligência humana, tampouco permite responsabilizar exclusivamente telas ou jovens. Ele mostra que ganhos cognitivos históricos podem estagnar ou recuar conforme mudam as condições culturais e educacionais. Bratsberg e Rogeberg, 2018.

Os dados do PISA 2022 acrescentam sinais relevantes. Em média, nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, cerca de 30% dos estudantes relataram distração pelo próprio uso de aparelhos digitais na maioria ou em todas as aulas de matemática, aproximadamente 25% disseram distrair-se pelo uso feito pelos colegas. Depois do controle do perfil socioeconômico, a distração provocada por outros estudantes esteve associada a desempenho 15 pontos menor em matemática. São associações, não uma sentença causal simplista contra a tecnologia. A própria pesquisa mostra que uso moderado e uso excessivo produzem padrões diferentes. OCDE, PISA 2022, volume II.

No volume dedicado às competências digitais, apenas 51% dos estudantes declararam conseguir avaliar com facilidade a qualidade da informação encontrada na internet, entre os estudantes de baixo desempenho, 60% não conseguiam fazê-lo com facilidade. O problema contemporâneo, portanto, não é falta de acesso. É falta de critérios para transformar acesso em conhecimento. OCDE, PISA 2022, volume V.

Uma metanálise sobre compreensão leitora também identificou uma vantagem média do papel em relação às telas, especialmente sob pressão de tempo e em textos informativos. Isso não condena a leitura digital, que faz parte de meu próprio trabalho cotidiano, apenas mostra que mudar o suporte pode alterar o modo de leitura e que velocidade não equivale a assimilação. Delgado e colaboradores, 2018.

Não responsabilizo uma única geração por esse cenário. Muitos adultos e idosos tornaram-se presas fáceis de correntes, vídeos adulterados e charlatães digitais. O problema atravessa idades porque resulta da combinação entre baixa formação, ansiedade, ressentimento, necessidade de pertencimento, preguiça cognitiva, arquitetura das plataformas e crise geral de confiança. A criança criada por telas merece educação e limites; o adulto que acredita em tudo o que chega pelo aplicativo também precisa reaprender a verificar, comparar e reconhecer a própria ignorância.


A prostituição mercenária do campo espiritualista

O campo espiritualista, que deveria oferecer algum antídoto à superficialidade, frequentemente se torna seu principal adubo. Em vez de estimular autoconhecimento, responsabilidade e ampliação da consciência, fornece uma linguagem mística com a qual a mesma ignorância pode fantasiar-se de sabedoria.

Se essa degradação já é grave na política, na saúde e na comunicação, no campo espiritualista ela alcança proporções grotescas. A área consciencial, mediúnica e sensitiva tornou-se um território especialmente fértil para a exploração materialista do anseio humano pelo mistério. Como os objetos tratados frequentemente escapam à verificação direta, o fraudador dispõe de uma vantagem: pode inventar quase tudo e atribuir qualquer inconsistência à vibração do consulente, ao karma, ao plano espiritual, a uma mudança de linha temporal ou a alguma entidade invisível que jamais comparecerá para contestá-lo.

Pessoas sem leituras básicas, sem história do espiritualismo, sem filosofia, sem psicologia, sem parapsicologia, sem metodologia, sem vivência ética e sem conhecimento das próprias tradições assumem posições de autoridade porque aprenderam a operar uma câmera, construir uma personagem e falar com convicção. O que décadas atrás provocaria constrangimento hoje é apresentado com cenografia, música atmosférica e programa de monetização. O cinismo adquiriu iluminação profissional.

A banalização do sagrado virou produto de consumo. A imbecilidade tornou-se estética, a vacuidade, identidade espiritual.

Surgem canalizações de Sírius, das Plêiades, de Arcturus, de Vênus, de Marte, de Saturno, de Sananda, de arcanjos, de deuses e do próprio Criador, numa produtividade editorial capaz de deixar boquiaberto qualquer gênio. As entidades falam muito, confirmam quase todos os desejos da plateia, raramente oferecem conhecimento verificável e parecem extraordinariamente atualizadas sobre as tendências de conteúdo. Mudam-se os sistemas solares, mas o vocabulário continua sendo o do influenciador da semana.

Ao lado das canalizações interplanetárias, proliferam incorporações coreografadas como novelas baratas, nas quais a alteração calculada da voz, o gestual teatral e a cenografia emocional substituem o conteúdo, a coerência e a autenticidade do fenômeno.

Os mestres da maionese astral parecem dispor de acesso direto a todos os planetas, dimensões, conselhos galácticos e gabinetes administrativos do universo, embora raramente tragam uma única informação objetiva que possa ser examinada.

O mecanismo comercial é engenhoso. Primeiro, fabrica-se uma crise cósmica invisível. Depois, anuncia-se que poucos despertos conhecem a verdade. Em seguida, oferece-se ao seguidor a identidade lisonjeira de escolhido, semente estelar, trabalhador da luz ou integrante de uma missão planetária. Por fim, vende-se a iniciação, o curso, a ativação, o atendimento, a frequência ou a proteção energética capaz de resolver o perigo que o próprio vendedor apresentou. O medo abre a porta, a vaidade espiritual conduz o cliente para dentro e a monetização fecha o circuito.

Não afirmo que toda canalização seja falsa, que todo médium esteja enganado ou que todo trabalho remunerado seja mercenário. Eu sou médium e conheço, pela experiência, a complexidade do fenômeno. Justamente por conhecer essa complexidade, desconfio de certezas fáceis, entidades prolixas e revelações que elevam o canalizador ao centro do universo. O trabalho sério admite interferência anímica, limitações de linguagem, falhas de interpretação e necessidade de confronto ético. A remuneração digna de um trabalho também pode ser legítima, o problema começa quando o fenômeno espiritual vira instrumento de manipulação, dependência, narcisismo e enriquecimento sustentado por promessas impossíveis.

Enquanto isso, pesquisadores conscienciais sérios, autores dedicados e médiuns discretos são empurrados para as margens. Obras densas, que exigem leitura, comparação e reflexão, permanecem desconhecidas ou guardadas nas gavetas dos próprios autores. Uma mentira colorida cabe em trinta segundos, uma ideia consistente pode exigir trinta anos de estudo. O mercado da atenção prefere a primeira porque ela circula depressa, não porque contenha verdade.

Por que ler, estudar e comparar durante anos, se o delírio digital entrega tudo mastigado em alguns minutos, acompanhado de música cósmica, imagens luminosas e certezas absolutas?


Uma higiene epistemológica para o campo consciencial

Se desejamos tratar a espiritualidade com dignidade intelectual, precisamos adotar critérios mínimos. Não para reduzir a consciência ao materialismo, mas para impedir que o mistério seja usado como licença para a fraude. Diante de qualquer afirmação extraordinária, procuro fazer algumas perguntas:

  1. Qual é a natureza da afirmação: experiência pessoal, interpretação, hipótese, metáfora, doutrina ou fato alegadamente objetivo?
  2. Que evidências a sustentam e quais outras explicações poderiam produzir o mesmo relato?
  3. Existem testemunhos independentes ou todos derivam da mesma fonte, escola ou influência cultural?
  4. A proposição possui coerência interna e compatibilidade mínima com conhecimentos bem estabelecidos?
  5. Há algum dado concebível que levaria o proponente a corrigir ou abandonar sua crença?
  6. Quem ganha poder, dinheiro, prestígio ou controle quando essa narrativa é aceita?
  7. Quais frutos éticos ela produz: autonomia, lucidez e responsabilidade, ou medo, dependência e culto à personalidade?

Nenhuma dessas perguntas resolve sozinha o problema da verdade, porém seu conjunto cria um filtro. Uma espiritualidade que foge de toda pergunta transforma-se em dogma; uma espiritualidade que despreza todo conhecimento transforma-se em superstição, uma espiritualidade que usa o invisível para dominar o vulnerável transforma-se em exploração.

Tentar estabelecer um diálogo civilizado com quem rejeita todos esses critérios costuma equivaler a dar murro em ponta de faca. Não existe debate quando um lado apresenta perguntas e o outro responde com revelações infalsificáveis, ataques pessoais ou mudanças permanentes das regras.


O umbral reencarnou?

Formulo, uma tese: talvez os umbrais tenham passado por uma grande limpeza e seus antigos habitantes, submetidos a reencarnações compulsórias, tenham vindo em massa para a crosta. O plano extrafísico ficou mais limpo e a internet física virou o novo umbral. Aguardo outros médiuns e projetores astrais confirmarem essa hipótese estatística demográfica do além. Ela serve para descrever a sensação de observar consciências encarnadas reproduzindo, em alta definição, os mesmos padrões de vaidade, mentira, avidez, fanatismo e manipulação que a literatura espiritualista atribui às regiões densas.

Sócrates, Platão, Allan Kardec, Chico Xavier e Hercílio Maes não se reviram no túmulo porque, segundo a perspectiva que professo, não estão ali. Talvez revirem os olhos em dimensões mais lúcidas ao constatarem o que fizemos com o conhecimento. Séculos de filosofia, pesquisa, ética e experiência espiritual reduzidos a vídeos nos quais alguém fecha os olhos, altera a voz e anuncia a agenda interplanetária da semana.

Confesso que, diante desse espetáculo, experimento uma ambivalência de riso e náusea. Riso porque certas encenações ultrapassam o limite da caricatura, náusea porque pessoas vulneráveis são devoradas pela desinformação. Não considero arrogância afirmar que estudo, leio, comparo e trabalho com seriedade. Arrogância seria julgar-me infalível por causa disso. Reconhecer uma competência construída ao longo de décadas corresponde à honestidade, manter essa competência aberta à revisão corresponde à humildade.

Tolo é quem acredita saber tudo e oferece opinião definitiva sobre qualquer assunto. Sábio é quem compreende que a sabedoria não representa um estado alcançado, um título ou um endereço espiritual. Ela é um caminho permanente de ampliação da consciência, correção de erros e refinamento do discernimento. Quanto mais aprendo, mais percebo o tamanho do que ignoro.


Minha escolha: trabalhar na contramão

Sei que não sei, e isso não corresponde a falsa modéstia. É consciência metodológica. Reconhecer meus limites não enfraquece o conhecimento que construí, impede apenas que eu o transforme em dogma.

Hiperfoco é meu nome. Meu hiperfoco é minha trincheira contra a fragmentação mental, a superficialidade e o ruído produzido em escala industrial. Baixo a cabeça e trabalho. Há dias em que não abro notícias nem redes sociais, porque prefiro pensar, pesquisar, escrever, organizar conceitos e explorar camadas de lógica abstrata que o coletivo parece ter abandonado. Não quero viver intelectualmente condicionado pelo escândalo da hora, pelo algoritmo da vez ou pela obrigação de opinar sobre tudo.

Continuarei andando na contramão das massas impensantes, construindo obras que respeitem a inteligência do leitor. Talvez o público capaz de valorizar conhecimento denso seja menor, porém ele existe. Escrevo para pessoas que ainda cultivam pesquisa, discernimento consciencial, independência interior e coragem para rever as próprias certezas. Pessoas interessadas no conteúdo, e não apenas no brilho da embalagem.

Não escrevo para servir embalagens coloridas ao algoritmo. Escrevo para oferecer conteúdo capaz de nutrir a consciência.

Estamos, sim, na época das viajadas na maionese astral. O absurdo ganhou palco, figurino, microfone e sistema de pagamento. Isso não me obriga a acompanhá-lo. Enquanto houver alguns leitores dispostos a pensar, continuarei oferecendo o que considero essencial: qualidade, qualidade e qualidade.

Dalton Campos Roque


Referências

  • Brady, W. J. e colaboradores. How social learning amplifies moral outrage expression in online social networks. Science Advances, 2021.
  • Bratsberg, B.; Rogeberg, O. Flynn effect and its reversal are both environmentally caused. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2018.
  • Delgado, P.; Vargas, C.; Ackerman, R.; Salmerón, L. Don’t throw away your printed books: A meta-analysis on the effects of reading media on reading comprehension. Educational Research Review, 2018.
  • Kruger, J.; Dunning, D. Unskilled and unaware of it: How difficulties in recognizing one’s own incompetence lead to inflated self-assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 1999.
  • Lundh, A. e colaboradores. Industry sponsorship and research outcome. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2017.
  • OCDE. PISA 2022 Results, Volume II: Learning During, and From, Disruption. Paris: OECD Publishing, 2023.
  • OCDE. PISA 2022 Results, Volume V: Learning Strategies and Attitudes for Life. Paris: OECD Publishing, 2024.
  • Pennycook, G.; Rand, D. G. Lazy, not biased: Susceptibility to partisan fake news is better explained by lack of reasoning than by motivated reasoning. Cognition, 2019.
  • Vosoughi, S.; Roy, D.; Aral, S. The spread of true and false news online. Science, 2018.

PROVAS CONTUNDENTES DAS VIAJADAS NA MAIONESE ASTRAL

INCORPORAÇÃO DE CHICO XAVIER POR UMA MÉDIUM:
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VOCÊ CONHECE AS MADBEDS?
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LIVRO DOS ESPÍRITOS 2:
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DISCERNIMENTO:
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