TODOS ESTAMOS EM TAREFA DE REDENÇÃO - QUEDAS PLANETÁRIAS_

TODOS ESTAMOS EM TAREFA DE REDENÇÃO – QUEDAS PLANETÁRIAS

Transmigrações interplanetárias, quedas civilizatórias e recomeços evolutivos

A palavra redenção carrega um peso religioso considerável e, por isso mesmo, precisa ser recolocada em outro contexto quando trabalhamos pelo paradigma consciencial. Não estamos tratando de pecado original, salvação concedida por alguma autoridade divina ou sofrimento utilizado como moeda para pagamento de culpas. Redenção, aqui, possui sentido evolutivo: é o trabalho de recomposição, aprendizado e mudança realizado pela própria consciência diante das consequências de sua longa trajetória.

Essa trajetória não começa no nascimento atual e tampouco está limitada à Terra. A consciência atravessa sucessivas existências, participa de diferentes grupos, culturas e civilizações, podendo inclusive transmigrar entre planetas conforme as necessidades e condições de seu processo evolutivo. Assim, aquilo que somos hoje resulta de uma história muito maior do que conseguimos recordar através da memória cerebral.

Quando observamos a humanidade apenas pela história conhecida deste planeta, já encontramos enormes diferenças entre as pessoas. Algumas parecem trazer desde cedo grande facilidade intelectual, sensibilidade, liderança ou capacidade artística, outras manifestam tendências agressivas, autoritárias, excessivamente competitivas ou características difíceis de explicar apenas pela família e educação recebidas. Pelo paradigma consciencial, ninguém chega vazio. Cada consciência traz consigo o resultado daquilo que desenvolveu, aprendeu, deformou, fortaleceu ou ainda não conseguiu superar.

Isso também se aplica às experiências civilizatórias.

Uma consciência pode ter participado de sociedades muito diferentes da nossa, inclusive tecnologicamente superiores, sem ter desenvolvido na mesma proporção maturidade ética e responsabilidade coletiva. Esse aspecto é importante porque existe uma tendência humana de confundir desenvolvimento tecnológico com evolução. São coisas relacionadas apenas até certo ponto. Uma civilização pode dominar conhecimentos extraordinários sobre matéria, energia, biologia, comunicação ou deslocamento espacial e continuar utilizando tudo isso sob motivações bastante antigas: poder, domínio, competição, medo, orgulho, controle e interesse de grupos.

É justamente aí que surgem as quedas civilizatórias.

QUANDO A TECNOLOGIA AVANÇA MAIS DO QUE A CONSCIÊNCIA

Toda civilização aumenta gradualmente sua capacidade de interferir na realidade. No início, essa capacidade é pequena e seus erros possuem alcance mais limitado. Com o desenvolvimento científico e tecnológico, porém, cada decisão passa a produzir efeitos maiores. Uma disputa que anteriormente destruía uma aldeia pode, em outro nível tecnológico, destruir uma região inteira. Mais adiante, a mesma imaturidade pode colocar em risco um planeta.

Portanto, quanto maior o poder adquirido, maior precisa ser a maturidade daqueles que o administram. Quando essas duas linhas se afastam demais, a civilização entra numa região perigosa de sua evolução.

Não é difícil compreender o mecanismo. O conhecimento permite controlar forças cada vez maiores, porém continua sendo a consciência quem decide o que fazer com elas. Se os valores predominantes permanecem fortemente baseados em competição destrutiva, concentração de poder, dominação e vantagem imediata, a própria inteligência passa a aperfeiçoar os meios pelos quais esses comportamentos serão exercidos.

Nesse estágio, a crise civilizatória não começa com a destruição material. Ela começou antes, quando aquela sociedade adquiriu recursos superiores à sua capacidade de utilizá-los com equilíbrio.

Muitas quedas podem nascer exatamente dessa defasagem. Não necessariamente através de uma única guerra ou catástrofe espetacular, mas pelo acúmulo de decisões inadequadas, disputas, exploração de recursos, desigualdades, conflitos e tecnologias utilizadas sem suficiente avaliação das consequências. Às vezes o processo pode durar séculos. A civilização ainda parece poderosa externamente, enquanto internamente já desenvolveu mecanismos que trabalham contra sua própria continuidade.

Esse problema não pertence apenas a sociedades antigas ou extraterrestres. Basta observar nossa própria situação. Ampliamos enormemente a capacidade de manipular matéria, informação, genética, energia e ambiente, enquanto continuamos convivendo com impulsos humanos bastante primários. Não mudou apenas o ser humano, mudaram principalmente as ferramentas colocadas em suas mãos.

A tecnologia potencializa a intenção de quem a utiliza. Por isso, determinadas conquistas exigem uma qualidade de consciência correspondente. Se essa maturidade não existe, o recurso que poderia resolver problemas também pode ampliá-los.

TRANSMIGRAÇÕES E REORGANIZAÇÃO EVOLUTIVA

As transmigrações interplanetárias fazem parte desse processo maior. Civilizações não evoluem indefinidamente no mesmo padrão, assim como as consciências que nelas vivem também não permanecem eternamente nas mesmas condições.

Planetas atravessam períodos distintos, modificam gradualmente suas características coletivas e passam a oferecer determinados tipos de experiência. Quando existe incompatibilidade significativa entre o padrão de uma consciência e o novo contexto que se estabelece, ela pode continuar sua trajetória em outro mundo mais adequado àquilo que ainda necessita vivenciar e aprender.

É uma redistribuição evolutiva.

O termo “exílio”, embora tradicionalmente utilizado em algumas linhas espiritualistas, pode induzir a uma interpretação punitiva e simplista. A consciência não é despachada para outro planeta apenas porque alguém resolveu castigá-la. Ela é encaminhada para condições compatíveis com aquilo que ainda é, com os vínculos que possui e com as experiências de que necessita para continuar seu desenvolvimento.

Isso também ajuda a compreender uma situação aparentemente estranha: consciências provenientes de uma civilização mais avançada podem renascer num planeta menos desenvolvido e apresentar capacidades intelectuais muito superiores à média local, embora ainda possuam problemas importantes no campo ético, emocional ou relacional.

Não existe obrigatoriedade de desenvolvimento uniforme. Podemos crescer muito numa área e pouco em outra. Na própria Terra encontramos pessoas brilhantes intelectualmente e difíceis na convivência, grandes administradores dominados pela vaidade, pesquisadores excepcionais com pouca maturidade emocional e indivíduos simples, sem grande formação intelectual, dotados de sensibilidade humana notável.

Nas transmigrações, essas diferenças podem ser muito mais acentuadas.

A consciência leva consigo aquilo que efetivamente incorporou. Não precisa lembrar cerebralmente de uma tecnologia utilizada há milhares ou milhões de anos para conservar determinadas estruturas de raciocínio, facilidades ou tendências desenvolvidas naquele ambiente. A memória consciente pode desaparecer, mas a experiência não retorna a zero a cada nascimento.

Assim, grupos transmigrados podem contribuir decisivamente para o desenvolvimento de uma civilização mais jovem. Trazem impulso científico, capacidade de organização, inquietação filosófica, conhecimentos intuitivos, criatividade e outras aquisições. Ao mesmo tempo, precisam trabalhar justamente os aspectos que impediram sua permanência no contexto anterior.

Há aí uma forma muito interessante de redenção: a consciência utiliza para construir aquilo que anteriormente utilizou mal, ou emprega em benefício coletivo uma capacidade que antes serviu predominantemente a interesses pessoais ou grupais.

O PROBLEMA VIAJA COM A CONSCIÊNCIA

A transmigração, evidentemente, não transforma ninguém por si mesma. A troca do ambiente cria novas circunstâncias, mas os conteúdos íntimos seguem com a consciência.

Esse ponto é essencial para não romantizarmos a origem extraterrestre ou qualquer suposta procedência de civilizações mais avançadas. Ter vivido num mundo tecnologicamente superior não torna automaticamente alguém superior aqui. Pode significar apenas que aquela consciência acumulou determinados conhecimentos e, apesar deles, ainda não resolveu problemas básicos de convivência, responsabilidade ou uso do poder.

Ela poderá reproduzir esses mesmos problemas em outro planeta.

Se carregava forte tendência ao autoritarismo, encontrará maneiras de exercê-lo. Se valorizava excessivamente posição e prestígio, procurará reconstruí-los. Se utilizava inteligência para manipular, poderá fazer o mesmo num ambiente mais simples. O palco muda, porém o ator continua levando consigo suas inclinações.

É justamente nesse ponto que a redenção deixa de ser uma ideia abstrata.

Redimir-se significa modificar aquilo que nos acompanha.

Não há grande utilidade em ter passado por dez planetas se a consciência continua repetindo os mesmos mecanismos. Da mesma maneira, pouco importa ter participado de uma sociedade extraordinariamente avançada se a experiência não produziu maturidade suficiente para lidar melhor com poder, diferenças, liberdade e responsabilidade.

A evolução não se mede pela quantidade de lugares por onde passamos, mas pelo que conseguimos incorporar consciencialmente durante esse percurso.

QUEDAS CIVILIZATÓRIAS E REENCONTROS

Quando uma civilização entra em decadência ou desaparece, suas consciências não desaparecem com ela. Os vínculos construídos durante aquele período também não se desfazem simplesmente porque terminou determinada organização social.

Grupos podem reencontrar-se em outros contextos, inclusive em outros planetas. Antigos colaboradores voltam a trabalhar juntos, adversários reaparecem sob novas relações, consciências anteriormente ligadas pelo poder, dependência, exploração ou cooperação podem voltar a conviver em circunstâncias completamente diferentes.

Esses reencontros possuem enorme valor evolutivo porque permitem observar uma mesma questão por posições novas.

Quem exerceu poder excessivamente pode experimentar condições em que sua autonomia seja menor. Quem permaneceu indiferente diante do sofrimento alheio pode conhecer mais diretamente essa realidade. Quem utilizou determinada capacidade de maneira destrutiva pode reencontrar a oportunidade de utilizá-la de outra forma.

Não precisamos transformar isso numa contabilidade simplória de causa e efeito, como se cada ato exigisse uma reprodução equivalente no futuro. Os mecanismos evolutivos são muito mais complexos. O que importa é que a consciência precisa ampliar compreensão, e determinadas experiências oferecem aquilo que ainda faltava para essa ampliação.

Também não significa que todo sofrimento atual seja consequência direta de algum erro antigo. Essa interpretação seria grosseira e injusta. A vida individual e coletiva resulta de inúmeras variáveis, encontros, escolhas, condições físicas e interações entre consciências. O paradigma consciencial amplia a causalidade, não a reduz a uma fórmula automática.

As quedas civilizatórias, entretanto, deixam marcas profundas nos grupos que delas participaram. Uma geração pode esquecer historicamente o que ocorreu, mas as consciências envolvidas continuam levando consigo o resultado dessas experiências. Em novo ambiente, poderão repetir antigos padrões ou desenvolver uma resistência íntima justamente àquilo que já vivenciaram de forma traumática.

Talvez uma parte significativa do progresso humano venha desse processo. Certos indivíduos parecem compreender cedo demais algumas questões porque, na verdade, não estão começando a compreendê-las agora.

NOSSA TAREFA DE REDENÇÃO

A Terra apresenta condições particularmente intensas para esse trabalho. Aqui convivem consciências com níveis muito distintos de maturidade, experiências anteriores diversas e necessidades evolutivas diferentes. Essa heterogeneidade explica parte de nossas contradições coletivas e também cria um ambiente extraordinariamente rico para reencontros, conflitos, cooperação e recomposição.

Não precisamos saber exatamente de qual planeta viemos, em que civilização vivemos ou qual papel desempenhamos nela. Essa curiosidade pode até ser legítima, mas não é indispensável ao trabalho atual. O que ainda carregamos aparece de alguma forma no presente, através de nossas tendências, facilidades, dificuldades, reações, relações e escolhas.

Se existe autoritarismo, ele está disponível para ser observado agora. Se existe necessidade exagerada de reconhecimento, ela também está aqui. Se trazemos inteligência e capacidade de liderança, o modo como as utilizamos hoje já mostra a direção que estamos dando a esses recursos.

É nesse sentido que todos estamos em tarefa de redenção.

Não porque todos sejamos culpados de alguma grande catástrofe anterior, mas porque nenhuma consciência em evolução está completamente resolvida. Todos possuímos alguma coisa a compreender melhor, algum padrão a modificar, alguma capacidade a utilizar com maior equilíbrio e consequências pelas quais precisamos assumir responsabilidade.

Para alguns, essa tarefa pode envolver questões recentes. Para outros, pode estar ligada a histórias muito antigas, atravessando civilizações e mundos.

A grande questão não é descobrir quantas vezes já fracassamos, mas verificar o que estamos fazendo agora com toda essa experiência acumulada.

Uma civilização não cai apenas quando perde suas cidades, sua tecnologia ou sua organização social. Ela fracassa principalmente quando suas consciências demonstram que ainda não conseguem administrar o poder que construíram.

Talvez a tarefa mais importante de uma consciência transmigrada seja exatamente esta: chegar a um novo mundo trazendo experiências antigas e, diante de problemas semelhantes, finalmente escolher diferente.

Se conseguirmos fazer isso individual e coletivamente, a redenção deixa de ser uma ideia religiosa e assume seu verdadeiro sentido evolutivo: transformar a experiência acumulada em maturidade suficiente para que não precisemos reconstruir, indefinidamente, os mesmos erros em mundos diferentes.

Dalton

 

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