RAMATÍS: O MESTRE DA LUZ UNIVERSAL
Falar de Ramatís não é simples, porque em torno de sua figura existe uma soma bastante grande de relatos mediúnicos, tradições iniciáticas, referências históricas, interpretações espiritualistas e informações transmitidas por diferentes médiuns. Algumas dessas informações se completam, outras apresentam diferenças de cronologia e detalhes, o que é natural quando estamos tratando de dados que não nasceram de documentação histórica convencional. Por isso, o mais correto é apresentar esse conjunto como ele chegou até nós, separando, na medida do possível, o que pertence à tradição espiritualista daquilo que pode ser reconhecido pela história comum.
Segundo os relatos mais conhecidos, Ramatís teria vivido em regiões do Oriente, em ambiente cultural ligado à Índia, China e à antiga Indochina. Algumas narrativas o situam em períodos muito remotos, enquanto outras apresentam cronologias diferentes para sua passagem física. O ponto comum entre elas é a descrição de uma consciência fortemente ligada às tradições iniciáticas orientais e a uma proposta universalista de espiritualidade. Teria nascido da união de um hindu com uma chinesa, possuindo cabelos negros, pele de tonalidade acobreada e olhos castanho-escuros. Desde jovem demonstraria uma maturidade incomum, atribuída às experiências acumuladas em existências anteriores.
Ao longo dessas narrativas, Ramatís aparece associado a diferentes períodos da história humana. Algumas psicografias o relacionam a Pitágoras, Filon de Alexandria, Koot-Humi e ainda a experiências mais antigas ligadas à Atlântida e ao Egito. São informações provenientes do campo mediúnico e espiritualista e, portanto, não devem ser confundidas com biografias historicamente comprovadas. Dentro dessa tradição, porém, elas compõem uma trajetória coerente com a imagem de uma consciência dedicada ao conhecimento, à espiritualidade, à matemática, à astronomia, à filosofia e, principalmente, ao esforço de compreender as leis que regem a evolução da consciência.
Em sua passagem pela Grécia antiga, segundo essas mesmas fontes, já teria trabalhado com ideias relacionadas à imortalidade da alma, à reencarnação e à necessidade de espiritualização da vida. Seu interesse não estaria restrito ao campo religioso. Música, matemática e astronomia fariam parte de seus estudos, compondo uma visão na qual ciência, filosofia e espiritualidade não precisavam viver separadas. Essa característica ajuda a compreender por que sua obra posterior, transmitida mediunicamente, sempre procurou aproximar conhecimentos que normalmente são apresentados em compartimentos diferentes.
Há também relatos segundo os quais, em sua encarnação mais diretamente associada ao nome Ramatís, ele teria realizado estudos iniciáticos na China e posteriormente fundado um pequeno templo na Índia. Ali reuniu discípulos e transmitiu os conhecimentos que havia acumulado. Sua desencarnação teria ocorrido ainda relativamente jovem, depois de concluída a tarefa que lhe cabia naquele período.
O próprio nome Ramatís aparece revestido de simbolismo. Algumas tradições utilizam também a forma Rama Tys ou Swami Rama Tys. O termo Rama está ligado, dentro da tradição hindu, a uma manifestação do Divino e tornou-se também um importante mantra espiritual. Assim, o nome assumiu ao longo do tempo um sentido que ultrapassa a simples identificação de uma personalidade, sugerindo uma determinada filiação espiritual e iniciática.
OS DISCÍPULOS DE RAMATÍS
Um dos aspectos mais interessantes da tradição ligada a Ramatís é a diversidade de seus discípulos. Segundo os relatos, eles não pertenciam a uma única religião ou escola. Vinham do Egito, Índia, Grécia, China, Arábia e de outras culturas. Essa diversidade já revelava uma característica que se tornaria muito forte nas mensagens atribuídas a ele séculos depois: a ideia de que nenhuma tradição humana detém sozinha todo o conhecimento espiritual.
Em sua última existência física associada a esse grupo iniciático, Ramatís teria reunido setenta e dois discípulos. Depois de sua desencarnação, nem todos conseguiram conservar o mesmo padrão de disciplina espiritual. Apenas dezessete teriam atingido o grau simbolizado pela chamada “Túnica Azul”, relacionada ao domínio da vontade e à maturidade iniciática. Outros continuariam ligados ao grupo posteriormente, em diferentes condições e experiências reencarnatórias.
Dentro dessa tradição, vários desses discípulos teriam reencarnado no Brasil. Alguns nomes ficaram mais conhecidos devido à participação posterior em trabalhos mediúnicos e espiritualistas. Entre eles aparece Hercílio Maes, médium brasileiro responsável por uma das mais extensas coleções de obras atribuídas a Ramatís. Também são citados Atanagildo, Demétrius e o chamado dr. Atmos, ligado espiritualmente a grupos que trabalham sob a inspiração da Fraternidade da Cruz e do Triângulo.
Hercílio Maes ocupa uma posição especial nessa história. Apesar de ser discreto em relação à própria vinculação espiritual, deixou uma obra extensa, na qual Ramatís aborda assuntos que vão desde mediunidade e espiritualidade até saúde, alimentação, evolução planetária, vida extrafísica e questões iniciáticas. Há relatos segundo os quais a ligação entre Hercílio e Ramatís teria começado em existência remota no Egito, durante o período de Akhenaton. Em outra obra mediúnica, Akhenaton, psicografada por Roger Bottini Paranhos, aparece uma personagem chamada Meri-Rá associada ao sacerdócio daquele período e relacionada por algumas interpretações espiritualistas à figura de Ramatís.
Esses elementos não precisam ser transformados em dogmas. São informações que pertencem ao universo mediúnico e devem ser avaliadas dentro desse contexto. O mais importante, talvez, seja perceber que a tradição ramatisiana sempre procurou trabalhar com uma visão ampla, inter-religiosa e universalista. A vinculação a uma escola não deveria impedir o respeito às demais.
A FRATERNIDADE DA CRUZ E DO TRIÂNGULO
No plano extrafísico, Ramatís é apresentado como integrante e dirigente de trabalhos ligados à Fraternidade da Cruz e do Triângulo. O próprio nome já sintetiza dois grandes eixos simbólicos. A Cruz representa essencialmente a tradição cristã e os ensinamentos de Jesus. O Triângulo está associado às antigas tradições iniciáticas do Oriente. A proposta dessa fraternidade seria justamente construir uma ponte entre esses dois campos.
Segundo relatos espiritualistas, no final do século XIX teria ocorrido uma aproximação entre duas fraternidades extrafísicas: a Fraternidade da Cruz, vinculada à mensagem cristã, e a Fraternidade do Triângulo, relacionada ao pensamento iniciático oriental. Dessa união teria surgido a Fraternidade da Cruz e do Triângulo, reunindo trabalhadores interessados em uma espiritualidade menos sectária e mais universalista.
Seus membros são descritos utilizando vestimentas brancas, elementos em azul-esverdeado e um símbolo bastante conhecido entre os estudiosos de Ramatís: um triângulo luminoso contendo uma cruz. O símbolo resume bem a proposta. O triângulo representa a tradição iniciática oriental e a cruz simboliza a mensagem crística. Em vez de estabelecer uma disputa entre Oriente e Ocidente, procura-se reconhecer que ambos podem contribuir para a evolução da consciência.
Essa característica explica o motivo pelo qual a obra de Ramatís contém referências muito variadas. Jesus ocupa posição central, mas aparecem também ensinamentos ligados a Buda, Confúcio, Lao-Tsé, Hermes e outros instrutores. A espiritualidade é entendida como um patrimônio universal, que se manifesta através de culturas diferentes conforme o período histórico e as necessidades de cada povo.
Essa visão sempre me parece particularmente importante porque o sectarismo é uma das grandes dificuldades humanas. O homem encontra uma verdade parcial e rapidamente deseja transformá-la em verdade absoluta. Depois cria uma instituição, um conjunto de crenças, estabelece fronteiras e começa a defender aquilo como se o Universo tivesse obrigação de caber dentro de sua doutrina. A espiritualidade universalista segue no sentido contrário: procura estudar, comparar, aproveitar o que há de melhor em cada linha e descartar aquilo que não se sustenta pelo discernimento, pela experiência e pela cosmoética.
OS ENSINAMENTOS
As obras atribuídas a Ramatís possuem um campo temático muito amplo. Ele trata de evolução espiritual, reencarnação, karma, mediunidade, vida extrafísica, alimentação, saúde, energias, obsessão espiritual, magia, religiões, transição planetária e muitos outros temas. Em vários pontos encontramos paralelos com ensinamentos transmitidos por André Luiz e outros autores espirituais, embora a linguagem e a abordagem sejam diferentes.
Uma característica marcante é justamente sua liberdade para abordar assuntos que, durante muito tempo, foram considerados estranhos ao espiritismo tradicional. Ramatís aproxima conceitos orientais, ocultistas, esotéricos e mediúnicos, tentando construir uma interpretação mais abrangente da realidade espiritual. Essa postura gerou admiradores e também críticas, o que é perfeitamente compreensível. Toda proposta que ultrapassa os limites doutrinários estabelecidos acaba despertando resistências.
Entretanto, reduzir Ramatís a previsões, profecias ou temas exóticos seria perder a parte principal de sua mensagem. O núcleo de seu trabalho está ligado à reforma íntima, ao universalismo, à fraternidade e ao desenvolvimento espiritual. Não adianta estudar planos extrafísicos, chacras, energias, extraterrestres ou fenômenos mediúnicos se isso não produzir alguma melhora concreta na consciência.
Esse é um ponto que considero essencial em qualquer espiritualidade séria. Fenômeno não significa evolução. Clarividência não significa sabedoria. Mediunidade não significa maturidade. Projeção astral não transforma automaticamente ninguém em uma consciência melhor. Tudo isso são ferramentas e experiências. O resultado evolutivo depende de como a consciência utiliza aquilo que aprende.
Talvez seja justamente nesse ponto que a cosmoética se torne indispensável. Quanto maior a capacidade de percepção, maior deveria ser também a responsabilidade. Quanto mais conhecimento alguém possui sobre as dimensões extrafísicas, mais deveria compreender que toda ação produz consequências e que nenhuma expansão de consciência possui grande valor se não vier acompanhada de lucidez, discernimento e fraternidade.
COMO RAMATÍS É DESCRITO
A imagem de Ramatís se tornou muito conhecida no espiritualismo brasileiro. Não existe, naturalmente, uma fotografia histórica que permita determinar sua aparência física. A representação que conhecemos nasceu principalmente das descrições fornecidas por médiuns e sensitivos que afirmaram percebê-lo extrafisicamente.
Ele costuma ser apresentado envolvido por intensa luminosidade, com uma aura predominantemente amarelo-clara e dourada, acompanhada por tonalidades azul-celeste e carmim. Suas vestimentas são claras, geralmente brancas, lembrando tecidos leves e luminosos. Usa uma espécie de capa ou túnica longa, além de outros elementos que remetem às antigas tradições iniciáticas orientais.
Na cabeça aparece o turbante branco com uma grande pedra verde, normalmente representada como uma esmeralda. De suas laterais descem pequenos cordões coloridos. Sobre o peito encontra-se o conhecido triângulo contendo uma cruz, símbolo da integração entre a tradição oriental e o cristianismo. Segundo as descrições mediúnicas, sua indumentária não corresponderia exatamente a uma única cultura histórica. Ela reuniria elementos orientais e ocidentais, numa composição iniciática própria.
É exatamente essa imagem que acabou se tornando praticamente um símbolo de Ramatís: o turbante, a esmeralda, os fios coloridos, a túnica branca e o triângulo com a cruz.
Mas convém lembrar que a aparência extrafísica também pode possuir um componente simbólico. Uma consciência desencarnada não depende das mesmas roupas, acessórios e convenções do corpo físico. A apresentação pode funcionar como identidade, linguagem ou recurso de comunicação com aqueles que a percebem. Assim, mais importante que discutir se cada detalhe da indumentária seria literalmente daquele modo é compreender o significado que esses símbolos procuram transmitir.
O UNIVERSALISMO DE RAMATÍS
Talvez uma das características mais importantes de Ramatís seja justamente sua postura não sectária. Suas mensagens procuram reconhecer valores existentes em diferentes religiões e escolas espiritualistas. Cristianismo, hinduísmo, budismo, tradições iniciáticas e outras correntes podem apresentar fragmentos importantes de uma realidade muito maior.
Essa ideia aparece também na própria simbologia da Fraternidade da Cruz e do Triângulo. A cruz e o triângulo não estão ali para disputar espaço. Eles foram reunidos.
O mesmo princípio pode ser aplicado à nossa busca espiritual. Não precisamos abandonar o discernimento e aceitar qualquer ideia apenas porque ela é espiritualista. Universalismo não é misturar tudo indiscriminadamente. É possuir abertura suficiente para estudar conhecimentos diferentes sem preconceito e, ao mesmo tempo, maturidade para analisar cada informação.
Ramatís aborda também temas tradicionalmente associados ao ocultismo e procura esclarecer práticas e conceitos que muitas vezes permaneceram cercados de mistério. Em várias obras aparecem ainda previsões e informações sobre transformações planetárias, assunto que se tornou uma das partes mais conhecidas — e também mais discutidas — de sua produção mediúnica.
Porém, acima dessas questões, permanece uma orientação constante: a necessidade de crescimento interior.
Não vejo grande utilidade em transformar um mestre espiritual em objeto de culto. O melhor modo de respeitar um instrutor é estudar suas ideias, analisar aquilo que faz sentido e, principalmente, tentar aplicar os princípios úteis à própria vida. O excesso de veneração costuma transformar ensinamento em religião e consciência em seguidor.
A proposta universalista atribuída a Ramatís segue outra direção. Ela busca ampliar horizontes, ultrapassar fronteiras religiosas e aproximar conhecimentos aparentemente diferentes. Dentro dessa visão, o cristianismo, as tradições orientais, a mediunidade, o parapsiquismo e o estudo das dimensões extrafísicas podem fazer parte de uma mesma investigação sobre a consciência e sua evolução.
Há décadas as mensagens de Ramatís circulam pelo Brasil e por outros países, despertando interesse, questionamentos, críticas e estudos. Isso é saudável. Nenhum ensinamento deveria temer investigação.
O que permanece, ao final, é uma mensagem simples, embora difícil de praticar: conhecer mais, compreender melhor, ampliar a consciência e usar esse conhecimento para produzir algum bem.
Se existe uma síntese possível da proposta de Ramatís, talvez esteja justamente aí. A espiritualidade não deveria nos separar do mundo nem das pessoas. Deveria aumentar nossa capacidade de compreender a vida, respeitar as diferenças e colaborar, dentro das nossas limitações, com a evolução de todos.
Dalton.

