O PESQUISADOR E O CONHECIMENTO

O PESQUISADOR E O CONHECIMENTO

Quando se trata de espiritualidade, há enfoques religiosos ou não religiosos (laicos), fundamentalistas ou ortodoxos, simpatizantes ou antagonistas de determinada corrente de pensamento. Dentre os grupos que se propõem a serem universalistas, há os práticos e os teóricos, com diversos desdobramentos. Raros são os verdadeiros universalistas – todos somos limitados e temos preconceitos e medos que não percebemos e outros que não admitimos.

Há o pesquisador limitado aos ramos da ciência mecanicista, com mentalidade tradicional, tridimensional, newtoniano-cartesiano. Por mais materialista e cético que seja, tem seus dogmas pessoais, suas crenças psicológicas, seus medos, suas hipóteses e suas especulações, nem que sejam secretas e inconfessáveis.

Há o pesquisador que, embora inserido no meio acadêmico, é espiritualista e separa espiritualidade de ciência, por condicionamento ou dever profissional de pesquisador. Há o pesquisador que realiza suas pesquisas amparado tanto na ciência, quanto na espiritualidade. Desenvolve, à luz da ciência, teorias relacionadas à espiritualidade. Como acadêmico, conhece a ciência, suas virtudes e deficiências, sua faceta progressista e ortodoxa, e tenta, da forma que pode efetuar pesquisas sobre temáticas espirituais compatíveis com o método científico.

É possível fazer ciência empírica (a exemplo de testes, pesquisas experimentais em laboratório e por meio de técnicas de Estatística) e ciência teórica desenvolvendo alguma espécie descritiva de pensamento (tal qual, analogia, paralelo e comparação). Uma monografia de pós-graduação, uma dissertação de mestrado ou uma tese de doutorado são exemplos de ciência teórica, mesmo também contendo prática.

A ciência é fundamentada em alicerces sólidos e indispensável à evolução material e moral da humanidade. Todavia, como todo ramo do conhecimento humano, possui sua dose de limitações. A espiritualidade, ampla e abrangente, não possui convergência ou consenso em nada – qualquer um pode falar e escrever o que quiser. Ao final, a validade de uma dada corrente de pensamento espiritualista vai depender da vivência e do discernimento de quem a pratica. E claro, como possível ciência, terá que ser baseada na universalidade do conhecimento.

Há místicos sérios e bem fundamentados. Há místicos surfando nas ondas exageradas da New Age (leia este artigo importante e correlato aqui). Há religiosos ortodoxos e limitados. Há religiosos flexíveis e de coração doce. Há espiritualistas de tudo quanto é tipo – a maioria seguindo A ou B, simpatizando com A ou B e, às vezes, até odiando C ou D (postura apaixonada, dogmática e anticientífica).

Não é preciso ser cientista para conhecer os procedimentos racionais, lógicos e inteligentes da ciência (explico isto aqui), mas o exercício da investigação científica exige certa bagagem técnica, certa destreza intelectual, certo discernimento e certa cultura geral. Ser pesquisador no rigor estrito da palavra realmente é difícil. O indivíduo precisa estar associado a alguma instituição de pesquisa (em regra, no Brasil, são universidades públicas).

Ser espiritualista ou religioso é fácil, mas ser um “não materialista” (todos que NÃO sejam materialistas) com perspectiva científica sobre seus estudos espirituais/espiritualistas é extremamente raro. Para citar alguns autores que conheço que se arriscaram nesta área:

Hernani Guimarães, José Lacerda de Azevedo, Fritjof Capra, Daniel Goleman, Leonardo Boff, Ken Wilber, Danah Zohar, Carl Gustav Jung, Amit Goswami, Pierre Weil, etc (procure na web para saber mais sobre eles). Foi o rumo que tentei tomar em meus dois livros: “O Karma e suas Leis” (2004) e “Estudos Espiritualistas – Ciência e Síntese Oriente Ocidente (2007). (Não estou me comparando àqueles grandes autores, apenas situando o leitor sobre o que enfoquei e busquei dar a meus livros e estudos.) Na definição de discernimento e de lógica, ambas extremamente subjetivas, poderemos dissertar bastante e viajar algures, (explico isto aqui).

Entram na capacidade discernidora das pessoas sua condição paragenética (sinônimos: bagagem multimilenar, multiexistencial, espiritualidade, capacidade do paracérebro, condição de paraneossinapses e neossinapses). Desenvolvi esse assunto com profundidade no livro Estudos Espiritualistas já citado – Relação Paragenética x Neossinapses.

Costumo brincar que “achismo” não é ciência: todo mundo acha alguma coisa e ainda acha que está certo (“achismo ao quadrado”). Parece que Allan Kardec ainda está falando sozinho, embora suas linhas ecoem no século XXI. Ele, sim, foi um pesquisador, usou estatística empírica e intuitiva em suas pesquisas e ainda falou algo mais sobre o comportamento do pesquisador. Mas há uns poucos que só entendem alguns pedaços do pensamento kardequiano.

Quando alguém se apaixona pelo autor A, pela linha B, pelo instituo C, pelo médium D, pela doutrina E, jamais terá comportamento científico, jamais será pesquisador de mente e coração abertos de verdade. Será uma mera caricatura de pesquisador espiritualista, sujeito a ficar zangado quando se defronta com alguém que pensa sem medo, que pensa diferente, alguém que é livre e independente, que refuta as coisas.

Pesquisadores debatem em nível de ideias e sem emoção. Trabalham na argumentação pura e na lógica simples. Debate não é combate: ninguém ganha e ninguém perde; quem tem de ser privilegiado é a verdade relativa daquele momento evolutivo. Quem ama demais uma ideia, quando é refutado, reage como se tivesse levado uma puxada de tapete e se desestrutura. O pesquisador sério, ele mesmo se desconstrói a todo momento e está aberto a viradas práticas e/ou teóricas radicais de 180 graus.

Há muitos pesquisadores dentro da ciência convencional apaixonados por suas ideias e teorias e as defendem até as últimas consequências, dentro do paradigma convencional. A maioria esmagadora de “não- materialistas” age assim também: querem vencer o debate, ou melhor, o combate a todo o custo; não estão preparados para a possibilidade de, eventualmente, repensar sua visão de mundo e aperfeiçoar seu conhecimento. Seguir algo, alguém ou algum grupo é fácil (teremos alguém que endossa nossas ideias e até as defendem para nós), mas ser um livre pensador independente, endossado e/ou atacado, é para quem tem despojamento. Ser universalista não é fácil: é preciso coragem para ser minoria, é preciso ter persistência para trabalhar firme e não desistir.

Um ser de mente aberta não é indeciso, mas aberto a novas propostas, teorias, hipóteses e conhecimentos; pode refutar e contrariar a si mesmo no dia de amanhã, procurando a verdade e não uma postura rígida e inflexível. A principal característica limitadora de “não materialistas” é a limitação de sua leitura e de seus cursos. Limitar-se a Allan Kardec e a Chico Xavier ou a Hercílio Maes e Ramatis é insuficiente para desenvolver discernimento científico, plural e universalista. É preciso ler o que se gosta e o que não se gosta, estudar a fundo as posições favoráveis e contrárias às suas opiniões. Um pesquisador inteligente gosta de ouvir os argumentos mais desconstrutores de sua ideia, a fim de amadurecer o seu posicionamento, nem que tenha de reciclá-lo ou modificá-lo em sua essência.

Pesquisador propriamente dito não aceita uma ideia apenas porque admira quem a criou ou se identifica com quem a professa. É importante pensar nela, ruminá-la, adormecer e acordar com ela, ler outros autores e fazer sua própria estatística teórica (por meio de livros) e prática (de acordo com suas próprias vivências e de outros indivíduos, inclusive médiuns e projetores). No fim desenvolve a sua síntese, a sua conclusão, nem que ela seja contrária a tudo que já se conhece. Não se prende a doutrinas, autores ou grupos: segue seu coração livre.

Exemplo: estudar Apometria sem ter lido nada ou não ter feito nenhum curso de Experiências Fora do Corpo (Viagem Astral). É ficar sem ler os principais autores dessa área, como Wagner Borges, Waldo Vieira e Marco Antônio Coutinho. É querer se limitar em José Lacerda de Azevedo sem estudar J. S. Godinho ou vice-versa. Tem gente que adora Viagem Astral, mas lê apenas Waldo Vieira ou lê apenas Samael Aun Weor, sem ler outros. Estão limitados! Ninguém sabe tudo sozinho. É necessário ter visão de conjunto, para criar uma síntese.

Gosto de Ramatís e assino textos intuídos por ele. No entanto, não me considero “ramatisiano” ou “ramatista” e estou disposto a questionar algum item que ache necessário nas obras de Hercílio Maes (principal médium de Ramatís, já falecido).

Há um certo espírita que odeia tanto Ramatís que escreveu um livro contra ele, atacando de forma fundamentalista Hercílio e Wagner Borges. Comprei o livro, para lê-lo, pois me interessa compreender a opinião de quem pensa diferente de mim. Os apaixonados por Ramatís, ao lerem o livro, talvez queiram ofender o autor (conduta tão errada quanto esses ataques gratuitos a Ramatís e seus médiuns).

Há muita gente que odeia Waldo Vieira e não admite nem chegar perto de seus livros: uma postura apaixonada e radical. Um pesquisador não deve fazer assim. Muitas pessoas não querem aprender, querem apenas “ensinar”, empurrando aos outros suas crenças garganta abaixo (não tendo coragem para abrir o coração e a mente, querem abrir o coração e a mente alheia a fórceps).

Aprendi que a gente consegue aprender com quem menos simpatiza e com gente que sabe muito menos que nós. Eu sou um “fominha” de conhecimento, “sedento” da verdade em meu nível. Não estou falando de sabedoria, ainda estou longe disso, estou falando de conhecimento, embora com coragem, de mente e coração abertos.

A prática de minha vida (experiência minha, que serve apenas para mim) revelou que as pessoas têm dificuldade para novos conhecimentos (neofobia), ainda mais se for sobre espiritualidade. Assim tenho trabalhado, fazendo o que me dá na cabeça, com meu jeito meio sem jeito, que uns poucos criticam muito sem fazer melhor, que alguns criticam um pouco (com alguma razão – não sou perfeito) e que alguns adoram, ainda bem. Mas coragem eu tenho e algum discernimento também, e sou espiritualista brasileiro e não desisto nunca!

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Sobre o(a) autor(a)

Dalton Campos Roque - auto intitulado como "Tio Dalton" de forma irreverente, sempre bem humorado e brincalhão. Formado em Engenharia Civil, pós-graduado em Estudos da Consciência com ênfase em Parapsicologia e em Educação em Valores Humanos. Manifestou eventos paranormais e mediúnicos desde o berço e foi criado neste meio, pois seu pai e dois irmãos também manifestavam fenômenos parapsíquicos ostensivos. Começou a aprender com o pai (que é médico e Parapsicólogo) Parapsicologia e Hipnose a partir dos 14 anos de idade. ----- Professor de Informática, espiritualista universalista, médium intuitivo, curioso e espontâneo em desconstruir falácias religiosas, espiritualistas e "New Age's". ----- Curte Rock Progressivo, Rock pesado, música New Age e músicas mais espirituais em geral, adora filmes de ficção científica e ação. Curte eletrônica, áudio, física e matemática. ----- É simples, irreverente, se denomina "caipira" e "sente muitas saudades de seu planeta". ----- O que mais aprecia é escrever, aprender, criar "coisas" novas e originais e organizar conhecimento com tendências mais científicas. Detesta o misticismo da New Age, o que considera uma viagem na maionese quântica e por ironia se declara ativista quântico.

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