Quando o corpo mental deixa de estudar a matéria e começa a investigar a consciência
Se admitimos que experiências extrafísicas possam participar da gênese de algumas descobertas sobre a realidade física (vide posts anteriores), é ainda mais razoável investigar se experiências semelhantes participaram da construção dos grandes sistemas espiritualistas e conscienciais.
No artigo anterior fizemos exatamente o primeiro exercício: imaginamos cientistas como Kepler, Newton, Faraday, Tesla, Einstein, Planck, Schrödinger, Heisenberg e outros percebendo, em experiências astrais ou mentais, diferentes escalas da Natureza, desde o movimento dos planetas até relações cada vez mais abstratas do universo quântico. Não afirmamos que isso aconteceu.
Criamos uma hipótese editorial transparente: suponha que tenha acontecido. A partir daí perguntamos que tipo de realidade cada consciência teria maior facilidade de perceber e, sobretudo, de traduzir posteriormente para a linguagem humana. Agora quero inverter a direção do telescópio. Em vez de uma consciência fora do corpo tentar compreender melhor a matéria, o espaço, o tempo, os campos ou o átomo, imagine a própria consciência usando seus veículos sutis para pesquisar a si mesma. Nesse caso, o observador, o instrumento e parte do objeto observado começam perigosamente a se misturar. E é justamente aí que o assunto fica muito mais difícil e muito mais interessante.
No paradigma cartesiano, a situação ideal parece relativamente simples: de um lado existe o pesquisador, do outro, o fenômeno pesquisado. Colocamos um planeta no campo do telescópio, uma célula no microscópio, uma corrente elétrica num circuito ou uma partícula num detector e procuramos reduzir ao máximo a interferência subjetiva do observador. É um método extraordinariamente eficiente para a matéria e seria absurdo diminuir o que ele construiu. O problema começa quando aquilo que queremos estudar é justamente a consciência. Não posso colocá-la sobre a mesa, cortar um pedaço e entregar ao laboratório.
Posso estudar o cérebro, correlatos neurais, comportamento, linguagem e fisiologia, mas a experiência íntima de existir permanece pertencendo ao sujeito. No paradigma consciencial o problema cresce mais ainda, porque partimos da hipótese de que a consciência não depende integralmente do corpo físico e pode manifestar-se através de outros veículos.
Então o laboratório muda de lugar. Parte dele continua do lado de fora, claro, mas outra parte passa para dentro do próprio pesquisador. O corpo, as bioenergias, o psicossoma, o corpo mental, a memória, a lucidez, os pensamentos, sentimentos, condicionamentos e capacidade de discernimento passam a funcionar simultaneamente como instrumentos e variáveis do experimento.
Podemos representar essa mudança de modo simples:
| Modelo de investigação | Quem observa | O que é observado | Instrumento predominante |
| Pesquisa física clássica | Consciência encarnada | Matéria e fenômenos físicos | Sentidos + instrumentos |
| Pesquisa parapsíquica | Consciência encarnada | Fenômenos além dos sentidos ordinários | Consciência + percepção ampliada + instrumentos quando possíveis |
| Pesquisa projetiva | Consciência parcialmente descoincidida | Ambientes, seres e fenômenos extrafísicos | Psicossoma + lucidez |
| Pesquisa mentalsomática | Consciência manifestando-se pelo corpo mental | Relações, estruturas conscienciais e princípios mais abstratos | Corpo mental + lucidez |
| Metapesquisa consciencial | Consciência | A própria consciência, seus veículos, sua evolução e sua relação com o Cosmos | Experiência direta + autopesquisa + comparação + razão |
A última linha é a mais estranha de todas. É como se o microscópio resolvesse investigar a si próprio enquanto continua observando a lâmina. No paradigma consciencial, porém, isso não é uma excentricidade, é inevitável.
Quem pesquisa projeção da consciência precisa pesquisar também a própria lucidez. Precisa pesquisar bioenergias e analisar seus condicionamentos emocionais. Quem pesquisa mediunidade precisa diferenciar o que vem de si do que eventualmente vem de outra consciência. Quem pesquisa corpo mental precisa perguntar até que ponto conseguiu perceber algo realmente além do psicossoma e até que ponto apenas criou uma interpretação posterior. A pesquisa consciencial possui, portanto, uma recursividade que a ciência física encontra em grau muito menor: o observador está investigando o objeto com um instrumento que também faz parte do próprio observador.
A pesquisa consciencial possui, portanto, uma recursividade que a investigação física encontra em grau muito menor: o observador está investigando o objeto por meio de instrumentos que pertencem ao próprio observador, e o principal desses instrumentos é a própria consciência. Quanto mais profundo o fenômeno, maior deveria ser a autocrítica, porque percepção ampliada não elimina interpretação, memória, expectativa, cultura, emoção ou ego.
Se examinarmos historicamente aquilo que hoje chamamos, de forma bastante ampla, de projeção astral – utilizando aqui a expressão como termo guarda-chuva para diferentes níveis de descoincidência, experiências fora do corpo, projeções pelo psicossoma e experiências mais sutis – percebemos que esse campo não nasceu pronto, com terminologia organizada e manual de instruções.
Ele foi sendo construído lentamente, quase artesanalmente, a partir de relatos dispersos. Durante séculos e provavelmente milênios, indivíduos tiveram experiências espontâneas que não sabiam nomear. Alguns acordavam com a sensação inequívoca de terem estado fora do corpo, outros relatavam flutuação, deslocamento, percepção do próprio corpo adormecido, encontros com pessoas falecidas, ambientes desconhecidos, vibrações intensas, ruídos intracranianos, sensação de queda, retorno brusco, catalepsia, expansão perceptiva ou experiências de extrema lucidez. Muitos guardavam tudo em silêncio por medo de parecerem loucos, heréticos, fantasiosos ou simplesmente ridículos. O sujeito vivia aquilo sozinho e imaginava tratar-se de uma aberração exclusivamente sua. Sem falar nos livros sagrados que citam passagens inequívocos de projeção astral.
A mudança começou quando algumas dessas pessoas passaram a falar ou escrever sobre suas experiências. Um relato publicado permitia que outro indivíduo, talvez vivendo a milhares de quilômetros de distância e sem qualquer contato anterior com o autor, reconhecesse detalhes surpreendentemente familiares: “isso também acontece comigo”. Então aparecia outro relato, depois outro, depois dezenas, centenas e milhares. Aos poucos, certos elementos começaram a se repetir com frequência suficiente para formar um vocabulário comum. A sensação de separação do corpo, a percepção de vibrações, a dificuldade inicial de movimento, a lucidez variável, a rememoração fragmentada, a possibilidade de perceber o corpo físico à distância, os encontros extrafísicos e o retorno repentino passaram a aparecer em narrativas produzidas por pessoas de culturas, religiões e níveis intelectuais muito diferentes.
Isso constitui, por si só, não prova, mas evidência científica, de que todas essas experiências correspondam a uma possível saída da consciência do corpo, pois, observa-se recorrência fenomenológica.
É aqui que podemos começar a compreender melhor alguns personagens históricos que tentaram construir mapas daquilo que chamavam de mundo oculto, suprassensível, espiritual, astral, mental ou simplesmente consciência. Não precisamos acreditar em todas as conclusões deles. Aliás, não devemos.
O valor deste exercício está justamente em separar duas coisas: o fato histórico de que determinados autores afirmaram pesquisar estados e realidades além dos sentidos comuns, e a interpretação consciencial que podemos fazer hoje sobre que tipo de experiência ou veículo poderia estar envolvido.
Não é necessário transformar Blavatsky, Steiner, Leadbeater, Ouspensky, Monroe, Waldo Vieira ou Wagner Borges em santos infalíveis. Pelo contrário. Se queremos falar em pesquisa, temos obrigação de aceitar erro, interpretação, condicionamento cultural, animismo, exagero, simbolismo e até contradições. O investigador extrafísico não deixa de ser humano porque saiu do corpo.
QUATRO DIREÇÕES DA PESQUISA CONSCIENCIAL
Antes de falar em nomes, proponho distinguir quatro direções. Isso evita misturarmos um pesquisador preocupado com autoconhecimento psicológico com outro interessado em planos extrafísicos, ou alguém dedicado à projeção consciente com um autor tentando formular leis gerais da evolução.
| Classe | Direção da pesquisa | Pergunta principal |
| Pesquisa intraconsciencial | Consciência → si mesma | Quem sou? Como funcionam atenção, ego, lucidez, vontade e autopercepção? |
| Pesquisa holossomática/projetiva | Consciência → seus veículos | Como a consciência se manifesta através do corpo físico, bioenergias, psicossoma e corpo mental? |
| Pesquisa extraconsciencial | Consciência → realidades extrafísicas | Que ambientes, seres, estruturas e fenômenos existem além do plano físico? |
| Pesquisa metaconsciencial | Consciência → leis gerais da consciência | Como consciência, karma, evolução, cosmoética, veículos, multidensidades e cosmos se integram? |
Essas quatro direções se misturam, claro. Waldo Vieira trabalhou intensamente com autopesquisa, projeção, bioenergias, estruturas extrafísicas e evolução. Robert Monroe começou pela experiência fora do corpo e acabou ampliando sua investigação para estados de consciência e realidades que considerava não físicas. Ouspensky concentrou enorme atenção na consciência de si, na autolembrança e na possibilidade de estados superiores.
Rudolf Steiner falava explicitamente em conhecimento suprassensível obtido pelo desenvolvimento de faculdades internas, procurando inclusive distinguir sua proposta de mera crença ou fantasia. Leadbeater afirmava utilizar clarividência para investigar planos, aura, formas-pensamento e estruturas sutis. Wagner Borges trabalha há décadas com projeção, bioenergias e espiritualismo universalista. São caminhos diferentes, mas todos possuem algo em comum: em algum momento, a consciência deixa de ser apenas quem olha pelo instrumento e passa a ser parte essencial do próprio instrumento.
Ouspensky oferece um exemplo particularmente didático porque sua ênfase não está, em primeiro lugar, em viajar por mundos astrais. No sistema que estudou com Gurdjieff e posteriormente desenvolveu, tornou-se central a questão da autolembrança: observar alguma coisa sem perder a percepção de si mesmo como observador.
O próprio Ouspensky descreveu essa divisão da atenção – uma seta para o fenômeno e outra de volta para si – como uma experiência diferente da autoanálise comum. (Gurdjieff International Review)
Isso pode parecer muito distante de projeção de corpo mental, mas talvez seja exatamente o contrário. Antes de uma consciência conseguir estudar com lucidez qualquer realidade extrafísica, ela precisa resolver um problema elementar: permanecer consciente de que está consciente.
Parece óbvio até tentarmos. Na maior parte do dia pensamos, reagimos, desejamos, tememos e fazemos coisas automaticamente. Mesmo acordados, nossa autoconsciência oscila muito. Se essa lucidez já é difícil no corpo, imagine fora dele.
Por isso eu colocaria Gurdjieff e Ouspensky principalmente na pesquisa intraconsciencial. Eles ajudam a investigar a máquina humana, a automaticidade, a atenção, a presença e os níveis possíveis de consciência. Talvez não sejam os exemplos ideais de projeção astral ou mentalsomática deliberada, mas são importantes porque mostram uma etapa anterior: não adianta possuir um excelente veículo se o motorista está dormindo.
BLAVATSKY E A TENTATIVA DE CARTOGRAFAR O INVISÍVEL
Helena Petrovna Blavatsky pertence a outra linhagem. A Teosofia nasceu no século XIX com a pretensão de investigar leis ocultas da natureza, potencialidades humanas e relações entre religião, filosofia e ciência. Os próprios objetivos históricos da Sociedade Teosófica incluíam investigar leis inexplicadas da natureza e poderes latentes no ser humano. (Teosofia Mundial) Isso não prova qualquer afirmação paranormal atribuída a Blavatsky, obviamente, mas demonstra que a pesquisa do invisível fazia parte declarada e lúcida do projeto.
Na perspectiva que estamos construindo, Blavatsky representa uma fase importante: o esforço de produzir uma cosmologia consciencial ampla quando ainda praticamente não existia linguagem moderna para fazê-lo. Quando alguém tenta descrever planos, corpos sutis, evolução espiritual, ciclos de manifestação, hierarquias e realidades não físicas, inevitavelmente mistura experiência, tradição, simbolismo, cultura e interpretação.
É justamente aqui que devemos resistir à tentação de tratar mapas antigos como fotografias do cosmos. Talvez alguns elementos tenham nascido de percepção real, outros de ensinamentos tradicionais, outros de sínteses filosóficas, outros de linguagem simbólica e outros de equívocos.
Uma pesquisa consciencial madura não precisa jogar tudo no lixo nem aceitar tudo como escritura sagrada. Pode perguntar: qual experiência pode existir por trás desta linguagem?
Essa pergunta vale para quase todas as escolas exo /esotéricas e conscienciais. Quando duas tradições descrevem sete planos, isso não prova que existam exatamente sete compartimentos cósmicos. Pode simplesmente significar que seres humanos encontraram maneiras semelhantes de organizar uma gradação muito mais contínua. Minha própria proposta das multidensidades (obra Além das 11 dimensões) surgiu justamente da insatisfação com classificações excessivamente rígidas. A realidade talvez seja muito mais parecida com um gradiente infinito do que com um edifício de sete andares e placas numeradas.
LEADBEATER E A IDEIA DE CLARIVIDÊNCIA COMO INSTRUMENTO
Charles Webster Leadbeater merece atenção especial porque declarou explicitamente utilizar clarividência como ferramenta de investigação. Em seus próprios textos, definiu-a como capacidade de perceber aquilo que estaria oculto da visão física ordinária e apresentou suas descrições como resultado de estudo e experimentação dentro de sua visão teosófica. Sua produção incluiu obras sobre plano astral, plano devachânico, formas-pensamento e, com Annie Besant, trabalhos que tentavam descrever estruturas da matéria por investigação ocultista. (Teosofia Mundial)
Agora entramos num problema epistemológico maravilhoso. Se uma pessoa afirma “eu vi”, o que exatamente significa ver? Ver com olhos físicos? Ver uma imagem extrafísica? Receber uma construção simbólica na mente? Perceber uma estrutura e traduzi-la visualmente? Captar telepaticamente informação e transformá-la numa imagem? Essas alternativas não são equivalentes. O erro começa quando usamos a palavra “ver” como se ela tivesse apenas um significado.
No corpo físico, a visão já não é uma câmera simples. O cérebro reconstrói continuamente aquilo que chamamos de imagem. No extrafísico, o problema pode aumentar brutalmente. A consciência talvez perceba diretamente e depois gere uma representação. Por isso, mesmo admitindo a clarividência como hipótese válida do paradigma consciencial, não devemos concluir que um desenho produzido por um clarividente seja uma fotografia literal da realidade. Pode ser uma interface perceptiva.
Este conceito será importante muitas vezes: talvez a mente faça com o extrafísico aquilo que uma tela de computador faz com dados binários. Ela apresenta ícones porque ninguém quer trabalhar olhando zeros e uns.
Leadbeater é interessante justamente por isso. Ele tentou transformar percepção não ordinária em descrição sistemática. O mérito metodológico está na tentativa. O resultado específico precisa continuar aberto à verificação.
RUDOLF STEINER E A “CIÊNCIA ESPIRITUAL”
Rudolf Steiner foi mais explícito ainda ao falar em conhecimento suprassensível. Em suas conferências e obras, sustentava que faculdades internas poderiam ser desenvolvidas de maneira que o pesquisador alcançasse percepção do mundo suprassensível mantendo clareza de consciência, e chamava sua abordagem de ciência espiritual. (Arquivo Rudolf Steiner)
É claro que utilizar a palavra ciência não torna automaticamente qualquer sistema ciência nos critérios acadêmicos atuais, mas o ponto que me interessa aqui é outro: Steiner compreendia que não bastava acreditar no espiritual. Era necessário propor um método de percepção.
Isso o coloca numa posição curiosa entre pesquisa intraconsciencial e extraconsciencial. Primeiro modifica-se o observador, depois o observador tenta perceber aquilo que antes estava fora de seu alcance. É quase o contrário do laboratório convencional. Quando um telescópio não possui resolução suficiente, aperfeiçoamos as lentes. Na pesquisa consciencial, se o pesquisador não possui lucidez, equilíbrio, atenção ou sensibilidade suficientes, a hipótese seria aperfeiçoar o próprio pesquisador.
Há um ponto profundo nisso. Talvez certos fenômenos não sejam inacessíveis porque estejam infinitamente distantes, mas porque o observador ainda não possui a estrutura adequada para percebê-los. Um morcego e um ser humano ocupam o mesmo espaço físico, mas constroem experiências sensoriais muito diferentes. Não precisamos invocar espiritualidade para entender esse princípio. Agora ampliemos a hipótese: se existirem veículos conscienciais mais sutis, diferentes estados de manifestação poderiam abrir faixas completamente distintas do real.
ROBERT MONROE: QUANDO A EXPERIÊNCIA VIRA PROGRAMA DE PESQUISA
Robert Monroe é talvez um dos casos modernos mais didáticos porque suas experiências fora do corpo começaram, segundo o histórico de seu instituto, de maneira espontânea em 1958, e posteriormente se transformaram num programa sistemático de exploração de estados expandidos de consciência. O Monroe Institute registra que essas experiências modificaram a direção de sua vida e levaram ao desenvolvimento de métodos e tecnologias sonoras destinados a facilitar estados alterados ou expandidos. (The Monroe Institute)
Aqui acontece uma passagem importante: a experiência deixa de ser acidente e vira objeto de investigação. Essa transformação separa o místico ocasional do pesquisador consciencial. Ter uma experiência extraordinária não é difícil no sentido estatístico absoluto, milhões de pessoas relatam projeções astrais semi-conscientes, paralisia do sono, experiências de quase morte, fenômenos hipnagógicos e experiências fora do corpo. O desafio é outro: repetir, manter lucidez, observar, comparar, registrar, eliminar interpretações precipitadas e construir algum método.
Monroe representa bem a pesquisa projetiva. Em vez de perguntar apenas “saí ou não saí do corpo?”, ele passou a perguntar “o que existe para ser explorado nesse estado?” O próprio instituto que criou continua trabalhando com exploração de estados expandidos e mantém o tema da experiência fora do corpo ligado à consciência. (The Monroe Institute)
Dentro de nossa hipótese, podemos pensar numa progressão metodológica:
Acontecimento → repetição → controle → exploração → comparação → modelo.
É exatamente a mesma lógica básica que procuramos em qualquer investigação, mesmo que aqui o objeto seja muito mais subjetivo e difícil de controlar.
WALDO VIEIRA: A CONSCIÊNCIA COMO OBJETO CENTRAL
Waldo Vieira entra nessa história de maneira particularmente forte porque fez da projeção consciente e da própria consciência o centro explícito de um sistema de pesquisa. O IIPC apresenta Vieira como propositor da Projeciologia e da Conscienciologia e registra suas experiências projetivas, sua pesquisa da consciência e a publicação de Projeciologia: Panorama das Experiências da Consciência Fora do Corpo Humano. (IIPC) A proposta da Projeciologia é justamente estudar a experiência de manifestação da consciência fora do corpo e seus fenômenos correlatos, enquanto a Conscienciologia procura ampliar o objeto para a consciência de modo geral. (IIPC)
Aqui o laboratório consciencial ganha outra escala. Não estamos apenas perguntando se existe projeção. Estamos perguntando: quais veículos a consciência utiliza? Como funciona a lucidez? O que acontece com as bioenergias? Como ocorre a rememoração? Existem ambientes extrafísicos? Como se dão as interações com outras consciências? Quais seriam as consequências evolutivas dessas experiências? Onde termina o fenômeno e começa a autopesquisa?
Concordo com muita coisa em Waldo Vieira e discordo de outras, mas isso é secundário para este artigo. O ponto histórico relevante é que ele tentou sistematizar um campo disperso de experiências e transformá-lo num programa coerente de investigação. Pode-se criticar terminologia, metodologia, conclusões ou pressupostos, e devemos fazê-lo quando necessário, mas há uma mudança epistemológica importante: experiência fora do corpo deixa de ser apenas narrativa religiosa e passa a ser apresentada como objeto sistemático de autopesquisa.
Dentro de nossa classificação, Vieira ocupa fortemente três áreas:
Pesquisa holossomática/projetiva,
Pesquisa extraconsciencial,
E pesquisa metaconsciencial.
Quando a investigação chega ao mentalsoma, o assunto fica ainda mais interessante. O psicossoma ainda possui forte componente emocional, forma e referências espaciais. O corpo mental, na hipótese consciencial, permitiria manifestação muito menos dependente dessas estruturas. Nesse caso, estudar a consciência pelo corpo mental seria quase tentar observar o software depois de desligar parte importante da interface gráfica.
WAGNER BORGES: EXPERIÊNCIA, UNIVERSALISMO E CORAÇÃO
Wagner Borges percorre uma linha diferente. Seu trabalho está explicitamente associado à projeção da consciência, bioenergias e espiritualismo universalista por meio do Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas. Em entrevistas e textos, ele descreve projeção astral como manifestação temporária da consciência fora do corpo e diferencia experiências físicas, astrais e mentais. (IPPB)
Mas há algo nele que considero metodologicamente muito importante para este artigo. Wagner insiste repetidamente que fenômeno sem maturidade, universalismo e sentimento não resolve muita coisa. Em um de seus textos, chega a dizer que, como professor, considera mais importante despertar uma consciência maior, universalismo e maturidade do que simplesmente produzir o fenômeno projetivo. (IPPB)
Isso é decisivo porque desmonta a ideia infantil de que a melhor pesquisa consciencial seria realizada necessariamente por quem “sai mais do corpo”. Talvez não. Um grande projetor pode ser péssimo intérprete. Pode possuir preconceitos, ego, desejos de confirmação e ansiedade para acreditar. Da mesma maneira, um excelente intelectual pode não possuir abertura perceptiva suficiente para captar fenômenos sutis. A pesquisa consciencial exige uma combinação incômoda: percepção + razão + equilíbrio + autocrítica + intelectualidade + cultura geral mínima + ética + cosmoética.
O corpo mental pode ampliar a percepção, supondo que nossa hipótese esteja correta, mas não produz automaticamente sabedoria. A consciência que utiliza o corpo mental continua sendo a mesma consciência, com aquilo que conseguiu desenvolver até então.
E O COMPONENTE ANÍMICO-MEDIÚNICO?
Aqui precisamos de outra precisão que considero essencial. Projeção, clarividência, telepatia e outros fenômenos perceptivos são, em sua base, fenômenos anímicos: capacidades ou manifestações da própria consciência. Isso não impede que exista condição mediúnica. Um projetor pode receber orientação e ajuda direta de um amparador. Um pesquisador pode captar telepaticamente uma informação de outra consciência. Uma experiência pode misturar percepção própria, conteúdo simbólico, memória, intuição e inspiração externa. O componente mediúnico pode existir, mas não é requisito.
Isso complica ainda mais a pesquisa e, ao mesmo tempo, torna o modelo mais realista. Nem toda ideia profunda surgiu de uma projeção. Nem toda inspiração precisa ser mediúnica. Nem todo sonho é viagem astral. Nem toda experiência astral é lembrada. Nem toda percepção de corpo mental retorna inteira ao cérebro. Às vezes a consciência volta apenas com uma certeza, uma imagem ou uma sensação intelectual difícil de explicar. Depois o cérebro trabalha.
Podemos imaginar uma sequência:
Percepção extrafísica → impressão consciencial → retorno → compressão cerebral → memória parcial → interpretação → linguagem → sistema teórico.
A cada seta existe possibilidade de distorção. Esse talvez seja o maior problema de toda pesquisa extrafísica.
O CORPO MENTAL PESQUISANDO O PARADIGMA CONSCIENCIAL
Chegamos finalmente ao ponto principal. No artigo anterior imaginamos o corpo mental auxiliando o cientista a perceber aspectos da realidade estudada pelo paradigma cartesiano: espaço, tempo, campos, matéria, átomos, probabilidades. Aqui o corpo mental passa a pesquisar o próprio paradigma consciencial. O objeto já não é apenas “lá fora”. Ele inclui a estrutura da experiência e do próprio observador.
Podemos criar uma primeira escala de faixas de investigação:
| Faixa | Nome | Objeto predominante |
| C1 | Autoconsciencial | Atenção, ego, pensamentos, emoções, vontade, lucidez |
| C2 | Holossomática | Soma, bioenergias, chacras, psicossoma, cordão de prata e corpo mental |
| C3 | Projetiva | Descoincidência, projeção, rememoração, ambientes extrafísicos |
| C4 | Interconsciencial | Amparadores, assediadores, comunicação e relações entre consciências |
| C5 | Multidensional | Planos, multidensidades, subdensidades, campos e estruturas extrafísicas |
| C6 | Evolutiva | Reencarnação, karma, dharma, aprendizagem e níveis de consciência ou leis evolutivas |
| C7 | Cosmoética | Leis evolutivas (também), responsabilidade, mérito, intenção e assistência |
| C8 | Mentalsomática | Percepção direta, síntese, relações abstratas, redução de forma e temporalidade |
| C9 | Cosmoconsciencial | Relação consciência-cosmos, unidade, integração e consciência cósmica |
| C10 | Metaconsciencial | Tentativa de integrar todos os níveis num modelo geral da realidade consciencial |
Novamente, C10 não significa “melhor” ou “mais evoluído”. Significa apenas maior abrangência do objeto. Uma pessoa pode formular uma teoria metaconsciencial ruim. Outra pode produzir uma observação extremamente precisa em C2 ou C3. Amplitude não garante verdade.
É justamente isso que precisamos preservar: o pesquisador consciencial pode errar em qualquer faixa.
ALGUNS NOMES E SUAS ÊNFASES
A tabela seguinte não pretende determinar o “nível” de ninguém. Ela apenas organiza didaticamente que tipo de investigação aparece associado a diferentes autores ou sistemas.
| Pesquisador | Ênfase principal | Instrumento ou método declarado/hipotético | Faixas aproximadas |
| Blavatsky | Cosmologia esotérica, constituição sutil, evolução | Ocultismo, mediunidade e tradições iniciáticas | C4-C6-C9 |
| Leadbeater | Clarividência, planos, aura, formas-pensamento | Clarividência reivindicada | C2-C5 |
| Annie Besant | Teosofia, constituição humana e evolução | Investigação ocultista teosófica | C2-C6 |
| Rudolf Steiner | Conhecimento suprassensível e evolução espiritual | Treinamento interno e percepção suprassensível reivindicada | C1-C5-C6 |
| Gurdjieff | Automatismo e despertamento | Auto-observação, presença e trabalho sobre si | C1 |
| Ouspensky | Autoconsciência e estados superiores | Autolembrança, atenção dividida e investigação psicológica | C1-C8 |
| Robert Monroe | Experiência fora do corpo e estados expandidos | Exploração sistemática da EFC | C3-C5 |
| Waldo Vieira | Projeciologia e Conscienciologia | Autopesquisa, projeção e parapsiquismo | C1-C8 |
| Wagner Borges | Projeção, bioenergias, comportamento e universalismo | Experiência projetiva, parapsiquismo e estudo | C2-C7-C8 |
| Dalton Campos Roque | Tentativa de integração consciencial | Autopesquisa, experiência projetiva, estudo e sistematização com estruturação epistemológica | C5-C7-C10 |
Preciso fazer uma observação pessoal sobre a última linha porque seria ridículo eu me colocar numa tabela como esta sem explicação.
Incluo meu próprio nome com algum constrangimento e exclusivamente por coerência metodológica. Não estou me equiparando historicamente, intelectualmente ou parapsiquicamente a Blavatsky, Steiner, Monroe, Waldo Vieira, Wagner Borges ou qualquer outro nome citado. Seria uma pretensão que não tenho, reconheço meu lugar. Entro porque também venho tentando investigar essas questões e porque o objeto deste texto é justamente mapear linhas de pesquisa. Se escrevo sobre karma, dharma, projeção, bioenergias, cosmoética, corpo mental, multidensidades e evolução, seria artificial retirar meu próprio ponto de observação da tabela para parecer humilde. A verdadeira humildade, pelo menos como a compreendo, não consiste em fingir que não fazemos aquilo que fazemos. Consiste em reconhecer claramente o tamanho provisório daquilo que fazemos.
Minha pesquisa se situaria principalmente numa tentativa de metapesquisa consciencial. Não porque eu possua qualquer acesso especial às grandes verdades do cosmos, mas porque minhas perguntas acabaram caminhando nessa direção: como reunir num modelo minimamente coerente karma, dharma, cosmoética, veículos de manifestação, projeção, evolução da consciência, planos e multidensidades? Como evitar a confusão secular entre dimensões físicas e planos extrafísicos? Como construir modelos sem transformar hipótese em dogma? Como aproveitar ciência sem fazer cientificismo e espiritualidade sem cair em misticismo fácil? Continuo tentando. Se algum valor houver nisso, o tempo, a experiência e outros pesquisadores poderão decidir.
O GRANDE PROBLEMA: COMO VERIFICAR?
Agora chegamos à parte que ninguém deveria evitar. Se o pesquisador físico afirma que uma substância possui determinada propriedade, outro laboratório pode repetir o experimento. Se um projetor afirma que encontrou uma comunidade extrafísica, como verificar? Se um clarividente descreve determinado corpo sutil, como diferenciar percepção de interpretação? Se dez médiuns descrevem coisas diferentes, qual deles está certo? Se dez descrevem a mesma coisa, isso prova alguma coisa ou apenas demonstra influência cultural comum?
Essas questões não desqualificam automaticamente o paradigma consciencial. Elas apenas mostram que precisamos de critérios adequados.
Eu utilizaria pelo menos sete:
- Repetibilidade pessoal, quando o próprio pesquisador consegue acessar novamente determinado fenômeno,
- Convergência intersubjetiva, quando diferentes pesquisadores independentes relatam estruturas semelhantes,
- Informação inesperada, quando surgem dados que não estavam previamente disponíveis ao pesquisador,
- Coerência interna, quando o modelo não se contradiz continuamente,
- Capacidade explicativa, quando o sistema organiza fenômenos anteriormente dispersos,
- Frutificação prática, quando a hipótese permite novos testes ou experiências,
- Autocrítica, talvez o critério mais importante, porque sem ela todos os demais podem ser manipulados pelo ego.
Nenhum deles sozinho resolve o problema. Juntos, começam a criar metodologia.
A pesquisa consciencial não pode ter como regra: “eu senti, portanto, é verdade”. Isso seria apenas narcisismo epistemológico.
CORPO MENTAL NÃO É PASSAPORTE PARA A VERDADE
Há uma armadilha particularmente sofisticada aqui. Suponhamos que alguém realmente consiga projetar-se pelo corpo mental. Isso provaria que tudo aquilo que ele percebeu está correto? Evidentemente não. Ter acesso a uma faixa mais ampla de realidade não elimina automaticamente interpretação.
Um astronauta vai ao espaço e continua podendo compreender alguma coisa errada. Um físico utiliza um acelerador de partículas e pode interpretar dados incorretamente. Um projetor astral também.
Quanto mais extraordinário o fenômeno, maior precisa ser a autocrítica, porque aumenta a sedução do próprio ego. “Eu fui ao plano mental, portanto sei.” Não, meu amigo. Talvez você tenha ido. Talvez tenha percebido alguma coisa. Agora começa o trabalho.
É justamente por isso que considero cosmoética e maturidade inseparáveis da pesquisa consciencial avançada. Não porque a natureza impeça um sujeito anticosmoético de ter percepção. Sabemos que isso não é tão simples. Mas porque o ego interfere na interpretação, na seleção de informações e na maneira como o pesquisador transforma experiência em sistema.
Quanto mais a pessoa deseja ser mestre, escolhido, iniciado, avatar, canal exclusivo ou grande autoridade, maior o risco de ela transformar qualquer experiência legítima em monumento à própria personalidade.
Um corpo mental extraordinariamente desenvolvido carregado por um ego ainda hipertrofiado produziria um paradoxo interessante: alta capacidade de percepção e baixa qualidade de utilização.
A CONSCIÊNCIA COMO LABORATÓRIO
Talvez o paradigma consciencial exija uma redefinição da palavra laboratório. Não no sentido de abandonar laboratório físico, mas de ampliá-lo.
| Paradigma | Conceito de laboratório | Exemplos de laboratório |
| Cartesiano | Laboratório = Lugar | Ambiente físico, instrumentos, equipamentos, amostras e condições controladas |
| Consciencial | Laboratório = Lugar + Fenômeno + Pesquisador | O próprio pesquisador passa a integrar diretamente o campo investigado |
| Consciencial | Pensamento | Meu pensamento é laboratório |
| Consciencial | Emoções | Meu emocional é laboratório |
| Consciencial | Corpo e bioenergias | Meu corpo e duplo etérico é laboratório |
| Consciencial | Sono | Meu sono é laboratório |
| Consciencial | Projeção | Minha projeção é laboratório |
| Consciencial | Relações | Minha relação com outras pessoas é laboratório |
| Consciencial | Ética | Minha ética é laboratório |
| Consciencial | Ego | Meu ego também é laboratório |
E talvez este último seja o experimento mais desagradável.
Porque é muito mais fácil discutir quantos planos astrais existem do que perceber que ainda fico profundamente irritado quando alguém discorda de mim. É muito mais confortável estudar chacras do que reconhecer inveja. É mais interessante falar de corpo mental do que admitir vaidade. O verdadeiro pesquisador da consciência não pode pesquisar apenas o que acontece quando sai do corpo, precisa pesquisar também quem está saindo dele.
DO CARTESIANO AO CONSCIENCIAL
Para quem leu os 2 posts anteriores, podemos resumir a diferença entre os dois artigos desta forma:
| 1° artigo – projeção astral e mental dos cientistas | Deste artigo |
| Consciência observa matéria | Consciência observa consciência |
| Cientistas físicos | Pesquisadores conscienciais |
| Planetas, campos, espaço-tempo, átomos | Veículos, lucidez, planos, evolução |
| Resultado: hipótese / teoria física | Resultado: hipótese / teoria consciencial |
| Verificação externa predominante | Verificação interna + intersubjetiva |
| Instrumentos físicos fundamentais | Consciência torna-se instrumento central |
| Erro experimental | Erro experimental + erro interpretativo do próprio pesquisador |
| Pergunta: “Como funciona a natureza?” | Pergunta: “Quem percebe a natureza e o que é essa consciência?” |
Mas talvez essa oposição seja temporária. Em determinado nível, não sei se ainda fará sentido separar tão rigidamente consciência e Natureza. O paradigma cartesiano construiu sua extraordinária eficácia separando sujeito e objeto. O paradigma consciencial começa justamente quando ousamos investigar se essa separação é apenas parcial.
Por isso existe uma terceira etapa possível.
- No primeiro artigo: o corpo mental pesquisa o Universo.
- Neste: o corpo mental pesquisa a consciência.
- Num terceiro: o corpo mental pesquisa a relação entre consciência e Universo.
E então entram questões muito maiores: karma, cosmoética, interconexão, consciência cósmica, evolução, tempo, causalidade, multidensidades, informação e aquilo que talvez sejam leis gerais da realidade consciencial.
Pode ser que nossas classificações atuais sejam grotescamente primitivas. Provavelmente são. Talvez daqui a alguns séculos nossos descendentes olhem para “plano astral”, “plano mental” e até para nossas propostas de multidensidades com a mesma simpatia com que olhamos antigos mapas-múndi cheios de monstros desenhados nas bordas. Eles erravam muito, mas estavam navegando. É isso que importa.
O PESQUISADOR NÃO PRECISA SER UM PROFETA
Talvez seja hora de retirarmos um peso desnecessário de quem estuda consciência. O pesquisador consciencial não precisa falar como profeta. Não precisa terminar cada frase com certeza absoluta. Não precisa declarar que “foi revelado”. Não precisa afirmar que sabe porque “viu”.
Ele pode simplesmente dizer:
- “Foi isso que percebi.”
- “Esta é minha interpretação.”
- “Posso estar errado.”
- “Outro pesquisador poderá perceber diferente.”
- “Vamos comparar.”
Esse tipo de frase parece menos impressionante numa palestra, mas para mim é muito mais evoluído intelectualmente. A consciência que realmente cresce provavelmente não necessita de tantas certezas.
QUANDO O OBSERVADOR SE TORNA O EXPERIMENTO
Existe uma imagem que resume todo este artigo. Imagine um cientista diante de um grande telescópio. Ele aponta o instrumento para o céu e procura conhecer o universo. Depois imagine que, lentamente, o telescópio gira até apontar para o próprio observador. No paradigma consciencial, essa situação aparentemente absurda é exatamente aquilo que precisamos fazer.
- O pesquisador precisa olhar para o Cosmos.
- Depois para o extrafísico.
- Depois para seus veículos.
- Depois para sua mente.
- Depois para seu ego.
- Depois para aquele que está observando tudo isso.
Quem é o observador?
Quando a pergunta chega nesse ponto, já não estamos muito longe do velho “conhece-te a ti mesmo”, mas com uma diferença: agora tentamos transformá-lo também em método de pesquisa.
Talvez o corpo mental seja um dos instrumentos mais sofisticados de que dispomos, supondo correto o paradigma que adotamos. Mas o instrumento sozinho não basta. Precisamos de lucidez para utilizá-lo, inteligência para interpretar o que percebe, cultura para encontrar linguagem, humildade para admitir erro e cosmoética para decidir o que fazer com aquilo que aprendemos.
Blavatsky tentou cartografar o oculto. Leadbeater declarou investigar pela clarividência. Steiner falou em conhecimento suprassensível. Gurdjieff e Ouspensky insistiram na necessidade de despertar a própria consciência. Monroe transformou experiências fora do corpo em um programa de exploração. Waldo Vieira sistematizou projeção e autopesquisa consciencial. Wagner Borges enfatizou a integração entre experiência projetiva, universalismo e maturidade. Outros vieram antes, outros depois e virão muitos mais. Não precisamos escolher um mestre definitivo e ajoelhar intelectualmente diante dele. Podemos fazer algo mais útil: estudar todos, experimentar aquilo que for possível, comparar, criticar, aproveitar o melhor e continuar.
Incluo-me modestamente nessa fila não como autoridade, mas como alguém carregando mais algumas perguntas. Talvez este seja, afinal, o ponto mais bonito do paradigma consciencial: o universo não é apenas alguma coisa que a consciência observa. A consciência também faz parte do mistério observado. E quando ela começa a investigar a si própria, o laboratório deixa de terminar na porta da universidade.
Ele continua dentro de nós.

