Este texto faz parte de uma série. Há um texto anterior e alguns posteriores, que darão mais sentido ao estudo. – Dalton
No artigo anterior expliquei que nem toda experiência fora do corpo é igual.
https://consciencial.org/viagem-astral/tipos-de-saida-do-corpo-nem-toda-experiencia-e-igual/
Existe a simples descoincidência, existe o desdobramento ainda muito próximo da psicosfera física, existe a projeção astral propriamente dita, existem experiências extrafísicas mais amplas e existe uma condição muito mais rara, sofisticada e difícil de compreender: a projeção de corpo mental. É justamente nela que quero entrar agora, mas por um caminho um pouco diferente. Em vez de começar pelo parapsiquismo e depois tentar aproximá-lo da física, vamos inverter a ordem e imaginar Albert Einstein projetado em corpo mental, percebendo determinadas estruturas da realidade que, mais tarde, já novamente limitado pelo cérebro físico, precisariam ser traduzidas em conceitos de espaço, tempo, movimento, luz, gravidade e relatividade.
Não estou dizendo que Einstein saiu do corpo com um caderno debaixo do braço, encontrou fórmulas flutuando no extrafísico e voltou correndo para anotá-las. Isso seria infantilizar tanto Einstein quanto o fenômeno. A hipótese é muito mais interessante: a consciência, através do corpo mental observa, percebe, interpreta, volta ao corpo, o cérebro traduz. Existe uma distância imensa entre captar alguma estrutura profunda da realidade e conseguir transformá-la numa teoria física coerente. (1*)
Einstein possuía inteligência, imaginação, conhecimento, capacidade de abstração e domínio técnico suficientes para fazer essa ponte. Uma experiência não precisaria entregar-lhe a teoria pronta, bastaria alterar profundamente o ponto de vista a partir do qual ele passaria a pensar o problema.
Imagine então, por alguns instantes, Einstein fora do corpo físico, projatado em corpo mental, fora daquela anatomia extrafísica mais conhecida da projeção astral. Na projeção comum ainda existe uma espécie de corpo: o projetor sente cabeça, tronco, braços, pernas, pode caminhar, voar, olhar para determinado lado, aproximar-se de alguma coisa e sentir-se localizado em determinado ponto. No corpo mental isso perde o sentido. (2*)
A sensação poderia ser algo como: “Não estou olhando através de olhos, não estou deitado, não estou em pé, não estou flutuando, não tenho braços, pernas ou cabeça e nem percebo um ponto fixo de onde observo. Eu simplesmente percebo.” Talvez aí esteja uma das maiores dificuldades para explicar esse tipo de experiência, porque nossa linguagem inteira foi construída por consciências encarnadas dentro de corpos localizados no espaço. Perguntamos automaticamente: onde você estava? Mas o próprio conceito de “onde” pode começar a falhar quando desaparece a referência de um corpo ocupando determinada posição. O corpo mental transcende o tecido espaço-tempo.
Dentro do corpo físico, perguntar onde estamos parece muito simples. Estou no meu quarto, em Cabo Frio, no Brasil, a determinada altitude, latitude e longitude. Parece que resolvemos tudo. Só que a própria física moderna mostrou que posição e movimento só fazem sentido em relação a referenciais. Se estou sentado num trem, estou parado em relação ao banco, mas em movimento em relação à estação. A estação acompanha a rotação da Terra, a Terra gira ao redor do Sol, o Sol se desloca pela galáxia e a própria galáxia está em movimento. Então surge uma pergunta muito simples e, ao mesmo tempo, devastadora: parado em relação a quê? Nossa percepção cotidiana nos leva a imaginar intuitivamente um grande palco absoluto chamado espaço, dentro do qual todas as coisas estariam se movimentando, enquanto um segundo elemento chamado tempo correria uniformemente para todos. Foi justamente essa imagem que Einstein ajudou a desmontar. Nem estou ainda falando do fator tempo, o que complica ainda mais.
Não existe um grande relógio universal medindo tudo
Imagine agora Einstein percebendo a realidade fora das referências normais da materialidade e tendo uma impressão difícil de traduzir: não existe um grande relógio cósmico marcando um mesmo “agora” para todo o universo. Para nós isso parece estranho porque estamos profundamente condicionados à experiência cotidiana. Se são quatro horas, – são quatro horas, ponto final. Mas quatro horas segundo qual relógio? Esse relógio está onde? Está se movimentando a qual velocidade? Está submetido a qual campo gravitacional? Quando começamos a fazer essas perguntas, aquela certeza aparentemente óbvia começa a desmoronar. O tempo não existe isolado do restante da realidade, correndo da mesma maneira para todos os observadores. Espaço e tempo estão relacionados de tal forma que passamos a falar numa única estrutura: o espaço-tempo. Para localizar completamente um acontecimento não basta dizer onde ocorreu, precisamos também dizer QUANDO ocorreu. Um evento possui coordenadas espaciais e temporais, e essa ligação entre espaço e tempo é muito mais profunda do que nossa percepção cotidiana deixa transparecer.
Imagine toda a história do universo não como acontecimentos surgindo um depois do outro dentro de um grande palco vazio, mas como uma estrutura gigantesca de eventos e relações. Seu nascimento está nessa estrutura, o instante em que começou a ler este texto está nela, o momento em que terminará também estará. Uma estrela explodindo a bilhões de anos-luz representa outro evento, assim como a luz partindo dela e atravessando o espaço. Nosso cérebro organiza tudo numa sequência muito simples: primeiro aconteceu isso, depois aquilo, agora estamos aqui e o futuro ainda não chegou. Essa organização é extremamente útil e necessária para nossa vida física, mas não significa obrigatoriamente que corresponda à única maneira possível de perceber a realidade temporal. A relatividade mostrou algo que agride nossa intuição: dois acontecimentos considerados simultâneos por determinado observador não precisam ser simultâneos para outro observador em movimento diferente.
O exemplo clássico é simples. Imagine uma ferrovia muito longa e dois relâmpagos atingindo pontos diferentes da linha. Uma pessoa parada exatamente no meio recebe os dois clarões ao mesmo tempo e conclui que os relâmpagos foram simultâneos. Outra pessoa passa pelo local dentro de um trem em alta velocidade. Enquanto a luz viaja até ela, o passageiro se desloca em direção a um dos clarões e se afasta do outro. Só que a relatividade vai além da simples demora da luz para alcançar os observadores. Quando o problema é analisado corretamente, percebemos que a simultaneidade em si depende do referencial. Não existe obrigatoriamente um único presente universal compartilhado por todo o cosmos. Para uma consciência profundamente condicionada ao cérebro físico isso parece quase absurdo, para uma consciência em corpo mental, talvez essa relação pudesse ser percebida de maneira muito mais natural.
É aqui que a hipótese pelo paradigma consciencial nos estudos das EFC, fica particularmente interessante. Se o corpo mental não está submetido aos mesmos filtros perceptivos do cérebro e do psicossoma denso, talvez o tempo deixe de ser experimentado com aquela rigidez sequencial que conhecemos. Einstein poderia perceber algo que, depois, traduzido para a linguagem cerebral, assumisse uma forma aproximada como esta:
“Eu estava acostumado a pensar no espaço como uma coisa e no tempo como outra, mas essa separação parece produzida pela maneira humana de observar. Os acontecimentos formam relações, e o movimento altera a maneira pela qual essas relações aparecem como espaço e tempo.” – Não estou dizendo que essa frase, literalmente, tenha sido dita ou pensada por Einstein, estamos construindo editorialmente uma hipótese de percepção, mas qualquer um que tenha experiências fora do corpo espontâneas como eu, e goste de pesquisa profunda e intensa no tema, terá convicções semelhantes as minhas.
O importante é compreender o princípio. Quanto maior a velocidade relativa entre determinados observadores, mais diferentes podem se tornar suas medidas de espaço e tempo. Não é defeito de relógio, ilusão psicológica ou impressão subjetiva. É característica da própria estrutura física, atualmente já reconhecida e testada pela ciência cartesiana dura.
Pegue duas pessoas com relógios perfeitamente sincronizados. Uma permanece na Terra e a outra viaja numa nave a velocidade extremamente elevada, próxima à velocidade da luz, e depois retorna. Quando voltarem a se encontrar, os relógios podem registrar quantidades diferentes de tempo decorrido. Para o viajante terá transcorrido menos tempo próprio. É o fenômeno da dilatação temporal. O senso comum protesta imediatamente porque crescemos acreditando que o tempo deveria correr igualmente para todo mundo, mas essa é justamente uma das ideias abandonadas pela relatividade. Cada observador percorre sua própria trajetória através do espaço-tempo, aquilo que a física chama de linha de universo. E é importante insistir: não é simplesmente o relógio que funciona mais devagar. Se colocássemos um relógio mecânico, um relógio atômico e um organismo vivo dentro da nave, todos acompanhariam aquela duração. A diferença pertence à própria estrutura espaço-temporal entre os acontecimentos.
O espaço também entra nessa história. Um objeto movendo-se a altíssima velocidade em relação a determinado observador terá seu comprimento, na direção do movimento, medido de forma diferente daquela obtida por alguém que acompanha o próprio objeto. É a contração do comprimento. Novamente, não estamos falando de uma ilusão óptica comum, mas das relações matemáticas do espaço-tempo. Agora imagine uma consciência projetada em corpo mental, no caso, Einstein, percebendo essas relações sem precisar representá-las como uma régua ficando menor ou um relógio andando mais devagar. Talvez ela percebesse diretamente uma única estrutura geométrica e relacional que nós, confinados à percepção física, precisamos decompor em vários fenômenos separados. Depois, ao regressar ao corpo, surgiria o verdadeiro problema: como transformar aquilo em palavras, conceitos e matemática?
A luz muda tudo
Chegamos então à luz, um dos grandes problemas que ocuparam Einstein. Imagine um carro passando por você a cem quilômetros por hora. Se começar a correr atrás dele, a velocidade relativa entre vocês diminui. Isso é perfeitamente intuitivo. Agora tente aplicar a mesma lógica à luz. Se fosse possível viajar quase à velocidade da luz perseguindo um feixe luminoso, pareceria natural esperar que ele se afastasse de você mais lentamente. Só que não é isso que a relatividade apresenta. A velocidade da luz no vácuo mantém o mesmo valor para observadores inerciais, independentemente daquele raciocínio clássico de simplesmente somar ou subtrair velocidades. E essa constância obriga nossas medidas de espaço e tempo a se reorganizarem. Nós intuitivamente pensamos que a velocidade deveria mudar. A Natureza parece responder: não, suas medidas de espaço e tempo é que terão de mudar.
Velocidade é distância dividida pelo tempo. Se a velocidade da luz precisa continuar a mesma para diferentes observadores inerciais, então distância e tempo não podem permanecer absolutos. É daí que surgem, de maneira relacionada, a dilatação temporal, a contração dos comprimentos e a relatividade da simultaneidade. Não são três fenômenos independentes empilhados artificialmente numa teoria, são manifestações diferentes de uma mesma estrutura. É justamente por isso que a hipótese do corpo mental se torna tão instigante. Talvez aquilo que nosso cérebro precisa analisar separadamente pudesse ser captado como unidade. No cérebro físico enxergamos vários efeitos, fazemos experiências, construímos equações e comparamos resultados. Numa percepção mais ampla, talvez tudo aparecesse como uma única geometria viva de relações.
Também precisamos evitar certas simplificações populares. Costuma-se dizer: “Imagine o universo visto por um fóton.” A frase é intuitivamente interessante, mas fisicamente problemática, porque não existe um referencial de repouso válido para o fóton. Não podemos colocar uma câmera imaginária em cima da luz e perguntar o que ela vê como faríamos com um astronauta. Podemos, entretanto, estudar sua trajetória no espaço-tempo, e ela possui uma característica extraordinária: o intervalo próprio ao longo de uma trajetória luminosa é nulo. Para nossa discussão consciencial isso importa porque deixa claro que as noções de duração e distância que parecem universais para nós estão profundamente relacionadas à forma material pela qual existimos.
Outro conceito particularmente interessante é o cone de luz. Imagine que você acenda uma lanterna agora. A luz começa a se espalhar e podemos representar no espaço-tempo as regiões que poderão ser alcançadas por ela. Surge um cone voltado para o futuro, representando acontecimentos que poderão ser influenciados pelo evento atual, e outro relacionado ao passado, representando acontecimentos que poderiam ter influenciado o momento presente. Existem ainda regiões com as quais não pode haver conexão causal imediata, pois nenhuma informação poderia chegar até elas ultrapassando a velocidade da luz. Isso significa que a luz não é apenas mais uma coisa correndo pelo universo. Ela participa da própria definição da causalidade física, ajudando a estabelecer aquilo que pode influenciar aquilo.

Agora imagine Einstein projetado em corpo mental percebendo essa estrutura diretamente. Talvez não visse “objetos” como estamos acostumados a vê-los, mas relações entre campos abstratos. Um acontecimento ligado a outro, possibilidades causais, estruturas temporais e espaciais formando um conjunto. Aquilo que chamamos de passado, presente e futuro talvez não aparecesse como três gavetas completamente separadas. Não significa conhecer automaticamente todo o futuro ou virar onisciente, isso seria outra afirmação, muito mais forte e que não decorre daqui. Significa apenas admitir, dentro do paradigma consciencial, que a realidade temporal talvez seja muito maior do que aquela pequena janela sequencial captada pelo cérebro.
Quando a gravidade também mexe no tempo
Até aqui estivemos principalmente no terreno da relatividade especial. Depois Einstein enfrentaria outro problema gigantesco: a gravidade. Newton havia criado uma descrição extremamente eficiente, na qual massas exercem forças umas sobre as outras. A Terra atrai a Lua, o Sol atrai os planetas e os movimentos podem ser calculados com enorme precisão. Einstein não jogou Newton fora, avançou para uma descrição mais profunda, na qual a gravidade pode ser compreendida não apenas como uma força puxando objetos através do espaço, mas como consequência da geometria do próprio espaço-tempo.
Imagine uma região sem grandes concentrações de matéria e depois coloque ali uma estrela extremamente massiva. Sua presença altera a geometria do espaço-tempo ao redor. Outros corpos atravessando essa região seguem trajetórias determinadas por essa geometria. Para nossa percepção comum parece que existe uma força invisível puxando o planeta em direção à estrela, na descrição relativística, ele está seguindo um caminho natural naquela geometria curva. A famosa imagem de uma bola pesada afundando um tecido elástico ajuda um pouco, embora seja imperfeita, porque aquele tecido da analogia já está curvando dentro de outro espaço. O espaço-tempo real não precisa se curvar “para fora” dentro de alguma coisa. A curvatura é uma propriedade da própria geometria.
Numa experiência projetiva de corpo mental, talvez a percepção pudesse ser semelhante a algo como: “Eu não vejo uma força invisível puxando o planeta. Vejo a estrela alterando as relações ao redor e o planeta seguindo o caminho possível dentro dessa geometria.” Isso se aproxima do conceito de geodésica (3*), que podemos entender grosseiramente como a trajetória natural dentro de determinada geometria. Na superfície terrestre, por exemplo, grandes rotas podem parecer curvas num mapa plano e, ao mesmo tempo, serem caminhos naturais sobre uma esfera. No espaço-tempo o princípio é muito mais complexo, mas a analogia ajuda.
A gravidade também interfere na passagem do tempo. Um relógio situado num campo gravitacional mais intenso acumula tempo de maneira diferente de outro localizado num campo mais fraco. Dois relógios atômicos extremamente precisos, um ao nível do mar e outro em altitude maior, não permanecerão perfeitamente sincronizados indefinidamente. A diferença é minúscula nas condições comuns da Terra, mas mensurável. Próximo de uma estrela extremamente densa o efeito cresce e, perto de um buraco negro, torna-se extremo. Mais uma vez desaparece aquela ideia de um único relógio cósmico funcionando indiferente a tudo. Espaço, tempo, movimento, matéria e energia estão interligados numa estrutura muito mais complexa do que nossa experiência sensorial cotidiana sugere.
E isso nos leva diretamente ao ponto consciencial. Nosso cérebro não evoluiu para perceber intuitivamente espaço-tempo curvo, relatividade da simultaneidade ou geometrias quadridimensionais. Evoluiu para resolver problemas concretos da sobrevivência: aquilo está perto ou longe, veio antes ou depois, está se aproximando ou afastando, posso alcançar, devo fugir, consigo atravessar, onde está minha comida, onde está meu abrigo. Para esse tipo de existência, três dimensões espaciais e uma sequência temporal aparentemente absoluta funcionam maravilhosamente bem. Não precisamos olhar para uma pedra e perceber sua linha de universo. Seria inútil e provavelmente enlouquecedor.
O corpo mental, porém, dentro do paradigma consciencial, não estaria necessariamente preso ao mesmo filtro. A percepção poderia ocorrer mais por conjuntos e relações do que pelo deslocamento entre pontos. A consciência não precisaria necessariamente “ir” de A até B para perceber simultaneamente relações entre A, B e outras estruturas. Não precisaria esperar uma sequência física inteira desenrolar-se para compreender determinadas relações que a constituem. Isso não significa abolir causalidade, espaço ou tempo, mas perceber essas categorias por outro ângulo, captar de pronto.
A experiência não entrega a teoria pronta
Depois vem o retorno ao corpo, e talvez aí comece o verdadeiro trabalho. O cérebro volta ao comando e expressa todas as limitações da dimensão física. Os sentidos físicos reaparecem, o torpor, a memória precisa ser traduzida e uma experiência possivelmente multidimensional precisa ser comprimida para uma estrutura neurológica acostumada a metros, segundos, objetos, posições e sequências lineares. Talvez reste uma lembrança clara, talvez apenas uma imagem. Aquele problema intelectual que parecia insolúvel subitamente passe a parecer abordável. Há o observador tentando intelectualizar a experiência, na frente uma espessa cortina de “fumaça branca”, atrás dela a questão em foco. O desenvolvimento de todo o trabalho, de rascunhar, de tentar, de errar, vai “escavando” na “fumaça” um caminho árduo para a solução. Vai colhendo fragmentos da memória distorcida até remontar um mapa tosco que vai clareando aos poucos para a solução.
O cientista então começa a trabalhar: se a velocidade da luz permanece constante, alguma outra coisa precisa variar, se espaço e tempo não forem absolutos, o que acontece? Se dois acontecimentos simultâneos para mim não precisarem ser simultâneos para outro observador, como representar isso matematicamente? E se a gravidade não for apenas uma força? E se massa e energia estiverem profundamente relacionadas?
A experiência, portanto, não daria a teoria pronta, ela ampliaria a percepção, o cientista faria / fará o restante. Isso é fundamental porque evita aquela visão ingênua de que grandes descobertas científicas teriam sido simplesmente “ditadas” no extrafísico. Mesmo supondo uma experiência de corpo mental, Einstein ainda precisaria dominar a física existente, perceber os problemas, construir hipóteses, fazer cálculos, errar, corrigir, escrever artigos, enfrentar críticas e produzir previsões verificáveis. O mérito intelectual continuaria sendo dele. Nenhuma mediunidade possível substitui o intelecto do encarnado.
A equação E = mc², por exemplo, expressa uma relação profunda entre massa e energia. A massa corresponde a um conteúdo energético, e o fator (c²), a velocidade da luz ao quadrado, mostra por que uma pequena quantidade de massa corresponde a uma quantidade enorme de energia. A antiga separação intuitiva entre “matéria” e “energia” torna-se menos rígida. Mais uma vez aparece uma característica recorrente na física associada a Einstein: coisas que pareciam absolutamente separadas revelam-se profundamente relacionadas. Espaço e tempo formam uma estrutura conjunta, massa e energia estão relacionadas, gravidade pode ser descrita geometricamente e as condições de movimento do observador fazem parte da descrição física.
Aqui é preciso fazer também uma correção importante a certas apropriações espiritualistas da relatividade. Relatividade não significa que “cada um cria sua própria realidade”, não significa que tudo seja subjetivo e muito menos que cada pessoa possa acreditar no que quiser porque “tudo é relativo”. Isso é relativismo (ouro dos tolos), não relatividade. Dois observadores podem medir durações, distâncias e simultaneidades de maneiras diferentes, mas existe uma estrutura matemática extremamente rigorosa relacionando essas medidas. Não é bagunça subjetiva. A realidade não desaparece porque o observador entrou na equação.
O que Einstein poderia ter percebido?
Dentro do paradigma consciencial podemos então construir uma hipótese editorial transparente. Se Einstein teve experiências de corpo mental, ele poderia ter percebido estados nos quais espaço e tempo não aparecessem com a mesma rigidez característica da percepção encarnada. Poderia ter intuído a inexistência de um presente universal absoluto, a ligação profunda entre espaço, tempo e movimento, a posição especial da luz, a alteração das medidas temporais e espaciais conforme o referencial e a possibilidade de que aquilo que chamamos de gravidade estivesse relacionado à estrutura geométrica do próprio espaço-tempo. Poderia ainda perceber, de maneira mais geral, que o universo captado pelos sentidos físicos representa apenas uma leitura parcial de uma estrutura muito mais profunda.
Não estou afirmando que exista registro de Einstein dizendo que formulou a relatividade depois de uma projeção de corpo mental, ele nem sabia que isso existia. O que estou examinando é outra coisa: se experiências desse tipo existem e se uma consciência de excepcional capacidade intelectual as vivenciar, quais aspectos da realidade poderiam aparecer para ela de maneira muito diferente daquela oferecida pela percepção física comum? A pergunta é legítima dentro do paradigma consciencial e pode ser explorada sem falsificar a história.
Depois da percepção vem a matemática, depois vêm os artigos, as previsões, os testes e as comprovações experimentais. Uma coisa não substitui a outra. A origem subjetiva de uma ideia e sua validação científica são problemas completamente diferentes. Uma descoberta pode surgir durante um sonho, numa caminhada, no banho, lavando a louça, numa intuição, diante de uma imagem mental ou, dentro de nossa proposta, numa experiência fora do corpo. Nada disso dá validade científica automática à ideia. Ela continuará precisando enfrentar cálculo, observação e experiência.
Por isso ciência e experiência consciencial não precisam competir. Não estou propondo substituir a física por parapsiquismo, porque isso seria um erro grosseiro. A física possui método, modelos, equações, previsões e testes. Uma teoria precisa funcionar e resistir à realidade. O ponto é apenas reconhecer que o processo humano de descoberta é muito mais amplo do que a etapa final de demonstração. Antes da equação há uma ideia, antes da ideia pode existir uma intuição, antes da intuição pode ter havido uma percepção que o próprio cérebro não consegue reconstruir integralmente.
Nesse sentido, uma projeção de corpo mental não seria uma aula de física ministrada no extrafísico por algum professor desencarnado. Nem precisaríamos introduzir obrigatoriamente qualquer componente mediúnico. Estamos falando de um fenômeno essencialmente anímico, uma expansão da própria consciência utilizando outro veículo de manifestação. A consciência percebe, retorna, pensa, compara, calcula, erra, corrige, organiza e transforma aquela percepção em conhecimento. Se houver participação de amparadores em determinado caso, isso seria outra possibilidade admissível, mas não é necessária para explicar a hipótese principal.
Talvez uma das maiores limitações da consciência encarnada nem seja simplesmente estar dentro do corpo físico, mas estar presa às categorias que surgem da própria experiência corporal. Pensamos continuamente em perto e longe, antes e depois, aqui e lá, grande e pequeno, rápido e lento, matéria e energia, espaço e tempo. Essas divisões são úteis e verdadeiras dentro de determinados contextos, mas talvez não são as categorias últimas da realidade. Conforme a consciência muda seu veículo de manifestação, também muda sua maneira de perceber, e relações que o cérebro precisa alcançar através da matemática poderiam eventualmente aparecer de forma intuitiva numa experiência mais ampla.
A física moderna chegou a estruturas profundamente contraintuitivas usando matemática, experimentos e raciocínio. A experiência de corpo mental, se real e suficientemente lúcida, poderia chegar a algumas dessas mesmas estruturas pelo caminho da percepção direta. São métodos diferentes, com finalidades e critérios completamente diferentes. Um não substitui o outro, um não prova automaticamente o outro e não há necessidade de forçar equivalências. Mas nada impede que ambos toquem aspectos da mesma realidade.
Talvez seja justamente isso que torna Einstein tão interessante para essa reflexão. Por alguns momentos, hipoteticamente, ele poderia ter deixado de observar o universo apenas como um homem localizado dentro do espaço-tempo quadridimensional cotidiano e expandido as percepções e parapsercepçãos através de várias projeções de corpo mental. Poderia ter percebido relações a partir de uma condição muito mais ampla de consciência. Depois voltou ao cérebro, às palavras, aos símbolos e às equações. E aí começou a parte difícil: transformar uma percepção que talvez fosse integrada e instantânea em algo que outros seres humanos, presos às mesmas categorias físicas de sempre, pudessem compreender, calcular, testar e finalmente chamar de ciência.
Dalton Campos Roque – consciencial.org
NOTAS
1* – Tentei fazer isso nas obras O Karma e suas Leis, O Dharma e suas Leis, Akash – o conhecimento perdido, entre outras, euqcionando minhas vivências extrafísicas e intermissivas (curso intermissivo).
2* – Não existe um limite exato entre a projeção astral sutil e a projeção de corpo mental concreto (supondo corpo mental concreto e abstrato). Em muitas experiências de corpo astral sutis, as percepções do corpo mental já vão se ampliando.
3* – Geodésica: é o caminho “mais natural” ou de menor extensão possível dentro de uma determinada geometria. Numa superfície plana, uma geodésica é uma linha reta; numa superfície curva, como a Terra, pode ser um arco de grande círculo. Na relatividade geral, planetas, estrelas e até a luz seguem geodésicas do espaço-tempo curvo produzido pela matéria e pela energia. Assim, aquilo que percebemos como gravidade pode ser descrito como o movimento dos corpos ao longo dessas trajetórias naturais do espaço-tempo.

