CRENÇAS, DÚVIDAS E NEGAÇÕES TODO MUNDO AS TEM

CRENÇAS, DÚVIDAS E NEGAÇÕES: TODO MUNDO AS TEM

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Crenças, dúvidas e negações: todo mundo as tem – como agiria o isento pesquisador consciencial?

Toda consciência, ao se posicionar diante da realidade, opera com crenças, dúvidas e negações. Esses três movimentos não constituem defeitos ocasionais do pensamento, nem pertencem apenas às pessoas religiosas, céticas ou intelectualmente inseguras. Eles integram o próprio funcionamento da consciência enquanto ser limitado, situado, histórico, multidimensional e ainda incapaz de apreender a totalidade do real.

A consciência conhece parcialmente, interpreta seletivamente e atribui sentido a partir de seu nível evolutivo, de suas experiências, condicionamentos, memórias, afetos, interesses, traumas, capacidades cognitivas e possibilidades parapsíquicas. Por isso, nenhum indivíduo observa a realidade a partir de um ponto absolutamente neutro. Toda percepção já chega acompanhada de seleção, organização e interpretação.

Crença, dúvida e negação são, nesse sentido, modos de relação com aquilo que a consciência considera verdadeiro, possível, improvável, falso ou ainda indeterminado.

O problema não está em possuí-los. A questão decisiva está em saber como se formaram, quais funções desempenham e em que medida refletem investigação autêntica, condicionamento coletivo, defesa emocional, experiência direta ou mera repetição cultural.

A crença como estrutura de orientação

A crença pode ser compreendida como uma adesão provisória ou estável a determinada representação da realidade. Ela permite que a consciência organize o mundo, antecipe acontecimentos, estabeleça valores, escolha caminhos e aja mesmo quando não dispõe de certeza plena.

Nenhuma existência prática seria possível caso toda ação dependesse de demonstração absoluta. Ao entrar num veículo, confiar numa pessoa, iniciar um tratamento, desenvolver uma pesquisa, escrever um livro ou estabelecer um projeto de vida, a consciência trabalha com probabilidades, expectativas e pressupostos. Em diferentes graus, ela acredita que determinadas relações continuarão funcionando, que certos efeitos decorrerão de certas causas e que suas interpretações possuem alguma correspondência com o real.

A crença, portanto, não se reduz à fé religiosa. Há crenças científicas provisórias, crenças filosóficas, crenças políticas, crenças afetivas, crenças identitárias, crenças morais e crenças sobre a própria capacidade pessoal. Mesmo quem declara rejeitar todas as crenças continua sustentando pressupostos sobre conhecimento, matéria, consciência, causalidade, verdade e realidade.

O materialista pode acreditar que a consciência seja inteiramente produzida pelo cérebro. O espiritualista pode acreditar que a consciência sobreviva à morte física. O agnóstico pode considerar que a questão permaneça insolúvel. Nenhuma dessas posições, por si só, corresponde ainda à demonstração integral do fenômeno. São graus diferentes de adesão, suspensão ou recusa.

Pelo paradigma consciencial, torna-se importante distinguir crença herdada, crença refletida e convicção experiencial.

A crença herdada é recebida da família, da religião, da cultura, da escola, da comunidade científica ou do grupo ideológico. A pessoa a incorpora antes de examiná-la profundamente.

A crença refletida já passou por algum grau de crítica, comparação e elaboração pessoal. Ela não foi simplesmente repetida, embora ainda possa permanecer incompleta.

A convicção experiencial nasce de uma vivência considerada direta, como uma experiência fora do corpo, uma percepção energética, uma ocorrência mediúnica ou uma experiência de quase morte. Ainda assim, a experiência direta não encerra automaticamente a questão, porque vivenciar um fenômeno e interpretá-lo são processos distintos.

Uma pessoa pode ter vivido algo real e compreendido de maneira parcial aquilo que viveu. A autenticidade da experiência não garante a perfeição da teoria construída sobre ela.

Esse ponto é essencial para a maturidade consciencial. A experiência pessoal pode superar a crença abstrata em força existencial, porém continua necessitando de análise, comparação, coerência e discernimento. O fato de alguém ter percebido uma presença extrafísica, por exemplo, não demonstra por si só a identidade, a intenção, a procedência ou o nível evolutivo daquela presença.

A crença amadurece quando deixa de exigir proteção contra todo questionamento. Quanto mais frágil uma convicção, maior pode ser a necessidade de defendê-la agressivamente. A convicção examinada suporta perguntas, reconhece lacunas e admite revisão sem sentir que toda a identidade pessoal está ameaçada.

A dúvida como espaço de investigação

A dúvida surge quando a consciência reconhece a insuficiência de seu conhecimento ou percebe incompatibilidades entre suas crenças e os dados da experiência. Ela mantém aberta uma questão que ainda não encontrou resolução satisfatória.

Duvidar não corresponde a negar. A dúvida suspende, a negação conclui. Quem duvida afirma: “Ainda não possuo elementos suficientes.” Quem nega afirma: “Considero isso falso, impossível ou inexistente.”

Essa distinção possui grande importância epistemológica e consciencial. Muitos conflitos acontecem porque a suspensão do juízo é interpretada como oposição, enquanto negações antecipadas são apresentadas como prudência científica.

A dúvida legítima preserva o campo de investigação. Ela tolera a incerteza sem preenchê-la apressadamente com uma explicação conveniente. Nesse aspecto, exige maturidade emocional, pois a mente humana tende a preferir respostas incompletas a vazios prolongados.

O desconhecido provoca insegurança. A crença pode oferecer abrigo, a negação pode oferecer fechamento, a dúvida, contudo, obriga a consciência a conviver com a ausência temporária de conclusão.

Pelo paradigma consciencial, a dúvida pode exercer várias funções.

Ela questiona crenças herdadas, confronta interpretações pessoais, impede a sacralização de experiências parapsíquicas e protege contra a submissão a autoridades espirituais, médiuns, entidades, doutrinas ou grupos.

Também permite que a consciência diferencie fenômeno de interpretação, percepção de projeção psicológica, intuição de desejo, assistência de dependência, amparo de idealização e comunicação extrafísica de elaboração anímica.

A dúvida torna-se disciplina evolutiva quando se orienta para a investigação. Ela perde valor quando se transforma em identidade permanente, desculpa para não estudar ou estratégia para evitar qualquer conclusão que exija mudança pessoal.

Existe uma dúvida ativa e uma dúvida defensiva.

A dúvida ativa procura dados, testa hipóteses, compara fontes, observa recorrências e aceita modificar suas posições.

A dúvida defensiva apenas repete perguntas sem se comprometer com a busca. Ela pode aparentar sofisticação intelectual, mas funciona como mecanismo de adiamento. A pessoa exige provas infinitas, rejeita todo critério possível e transforma a impossibilidade de certeza absoluta em justificativa para permanecer imóvel.

Assim como a crença pode ser dogmática, a dúvida também pode cristalizar-se. O ceticismo metódico investiga, o ceticismo dogmático converte a dúvida em negação sistemática de tudo aquilo que contraria seu modelo de realidade.

A negação como limite, defesa e discernimento

A negação possui função mais complexa do que um simples fechamento mental. Negar pode representar discernimento, proteção, refutação ou defesa psicológica.

A consciência necessita negar determinadas ideias para estabelecer limites. Ela nega fraudes, abusos, incoerências, manipulações, interpretações insustentáveis e condutas incompatíveis com seus valores. Sem capacidade de negação, não haveria autonomia, resistência moral nem discriminação crítica.

Nesse sentido, negar também é escolher.

Toda afirmação delimita um campo e exclui outros. Quando alguém afirma que uma explicação é mais provável, implicitamente reduz a força das explicações concorrentes. O pensamento não avança apenas por acúmulo de confirmações, mas também pela eliminação de hipóteses inconsistentes.

Entretanto, a negação pode desempenhar função defensiva. A consciência rejeita uma possibilidade porque aceitá-la produziria desorganização interna, perda identitária, culpa, medo ou obrigação de mudança.

Uma pessoa pode negar a sobrevivência da consciência porque essa hipótese ameaça sua concepção materialista do mundo. Outra pode negar qualquer participação cerebral nas experiências espirituais porque teme que a dimensão neuropsicológica enfraqueça sua fé. Ambas podem estar menos interessadas na verdade do fenômeno do que na preservação de seus sistemas de segurança.

A negação defensiva costuma apresentar-se como certeza. Quanto mais ameaçadora for a possibilidade rejeitada, maior pode ser a rigidez da resposta.

O indivíduo não diz apenas “não encontrei evidências suficientes”, declara “isso não existe”, mesmo quando jamais estudou seriamente o assunto. O desconhecimento é convertido em inexistência. A ausência de experiência pessoal é tomada como prova universal. O limite do observador é projetado sobre a estrutura do real.

No campo espiritualista, a negação defensiva manifesta-se de várias formas. Pode rejeitar a possibilidade de autoengano, negar a interferência do animismo, recusar explicações psicológicas, ignorar fraudes mediúnicas ou atribuir toda crítica a assédio extrafísico.

No campo materialista, pode reduzir previamente toda experiência incomum a alucinação, erro de memória, superstição ou funcionamento cerebral, sem examinar o conjunto dos fenômenos e sem admitir que uma correlação neural não esgota necessariamente a natureza da consciência.

Em ambos os casos, o erro epistemológico é semelhante: a conclusão antecede a investigação.

A tríade na estrutura do paradigma consciencial

Crença, dúvida e negação não atuam como compartimentos isolados. Elas se combinam continuamente dentro da consciência e podem incidir, ao mesmo tempo, sobre diferentes dimensões de uma mesma questão.

Um pesquisador pode acreditar provisoriamente na sobrevivência da consciência, duvidar dos mecanismos pelos quais essa sobrevivência ocorre e negar determinada explicação religiosa ou mediúnica que considere incoerente.

Não há contradição nesse caso, pois os três posicionamentos não recaem sobre o mesmo conteúdo, no mesmo sentido e no mesmo nível.

A contradição apareceria caso a pessoa afirmasse e negasse a mesma proposição simultaneamente, mantendo idênticas as condições e o significado. O paradoxo, por sua vez, pode surgir quando duas afirmações aparentemente incompatíveis revelam complementaridade em níveis distintos.

Alguém pode possuir certeza existencial de que vivenciou uma experiência fora do corpo e, ao mesmo tempo, manter dúvida teórica sobre como interpretá-la. A certeza diz respeito à vivência, a dúvida incide sobre sua explicação.

Também é possível acreditar na continuidade da consciência sem afirmar que todas as descrições religiosas do pós-morte sejam verdadeiras. Pode-se admitir fenômenos mediúnicos e negar a infalibilidade dos médiuns. Pode-se reconhecer inteligências extrafísicas sem aceitar que toda comunicação atribuída a elas tenha origem realmente extrafísica.

O paradigma consciencial amadurece precisamente quando abandona a necessidade de respostas totais e permite graus de certeza.

Nem todo conhecimento precisa ser dividido entre certeza absoluta e ignorância completa. Existem indícios, probabilidades, convergências, evidências parciais, experiências repetidas, modelos explicativos e hipóteses com diferentes níveis de sustentação.

A consciência imatura tende a transformar esse campo gradual em posições rígidas. Ou acredita integralmente ou rejeita integralmente. Ou sacraliza o fenômeno ou o reduz a ilusão. Ou aceita a entidade ou acusa fraude. Esse pensamento binário simplifica a realidade, mas empobrece a investigação.

A maturidade reconhece que fenômenos complexos podem reunir componentes autênticos, interpretações equivocadas, interferências emocionais, condicionamentos culturais, processos cerebrais e influências extrafísicas simultaneamente.

Uma experiência mediúnica, por exemplo, pode conter percepção extrafísica, contribuição anímica do médium, símbolos culturais, limitações linguísticas e expectativas do grupo. A presença de um componente psicológico não elimina necessariamente o extrafísico, a hipótese extrafísica tampouco dispensa a análise psicológica.

O papel dos condicionamentos multidimensionais

Pelo viés consciencial, crenças, dúvidas e negações não se formam apenas durante a vida atual. Elas podem refletir tendências profundas da consciência, experiências anteriores, vínculos grupais, traumas, compromissos evolutivos e condicionamentos acumulados ao longo de sua trajetória.

Uma aversão intensa a determinada doutrina talvez decorra de experiências presentes, mas também pode estar relacionada a vivências anteriores de abuso, perseguição, fanatismo ou submissão religiosa. Da mesma maneira, uma atração espontânea por certos temas espirituais pode nascer de familiaridade consciencial anterior, afinidade energética ou continuidade de interesses evolutivos.

Essas possibilidades precisam ser tratadas como hipóteses, não como explicações automáticas. Atribuir toda preferência, sofrimento ou conflito a vidas passadas pode produzir uma narrativa cômoda e impossível de verificar.

O paradigma consciencial sério amplia o campo causal sem eliminar as causas psicológicas, sociais, históricas e biológicas. A multidimensionalidade agrega dimensões, não deveria funcionar como desculpa para ignorar aquilo que pertence à vida concreta.

Crenças também podem ser reforçadas coletivamente por campos psíquicos, formas-pensamento, egrégoras e pressões grupais. Quanto maior a carga emocional de uma comunidade, mais difícil pode ser distinguir percepção pessoal de assimilação do ambiente.

Um grupo espiritualista pode produzir intensa sensação de verdade por meio da repetição, do entusiasmo coletivo, da autoridade carismática e da sintonia energética. A experiência subjetiva de confirmação pode ser real enquanto sensação, mas sua causa permanece aberta à análise.

Da mesma forma, ambientes acadêmicos ou científicos podem gerar pressões de conformidade. A consciência teme perder reconhecimento, pertencimento ou legitimidade e passa a evitar hipóteses que poderiam ameaçar sua posição institucional.

A influência grupal não ocorre apenas na religião. Toda comunidade humana forma zonas de aceitação, silêncio e rejeição.

Autocrítica e heterocrítica

A investigação consciencial exige a combinação de autocrítica e heterocrítica.

A autocrítica examina os próprios motivos, medos, desejos, identificações, interesses e pontos cegos. Pergunta por que determinada ideia produz atração ou repulsa, que necessidades emocionais ela satisfaz e que mudanças seriam exigidas caso fosse verdadeira.

A heterocrítica avalia ideias, relatos, métodos, instituições e comportamentos externos. Analisa coerência, qualidade das evidências, repetibilidade, convergência entre fontes e consequências práticas.

Quando há heterocrítica sem autocrítica, a pessoa percebe os erros alheios, mas permanece cega aos próprios condicionamentos. Quando há autocrítica sem heterocrítica, pode cair em relativismo, culpa excessiva ou incapacidade de reconhecer manipulações externas.

O equilíbrio entre ambas permite examinar o objeto e o observador.

No estudo dos fenômenos conscienciais, essa dupla análise é indispensável. A consciência investiga aquilo que ocorreu e também as condições internas pelas quais interpretou o ocorrido.

A experiência pessoal e seus limites

A experiência pessoal ocupa posição central no paradigma consciencial, pois muitos fenômenos não podem ser compreendidos apenas por descrição externa. O estudo da projeção da consciência, das bioenergias e do parapsiquismo envolve prática, observação subjetiva e comparação de vivências.

Entretanto, a valorização da experiência não significa transformá-la em autoridade absoluta.

A consciência pode confundir sonho, imaginação, memória, expectativa, simbolismo e percepção extrafísica. Pode recordar seletivamente, reinterpretar acontecimentos, preencher lacunas narrativas e ajustar a experiência a crenças anteriores.

Essas limitações não invalidam toda vivência subjetiva. Elas indicam a necessidade de método.

O pesquisador consciencial registra as experiências, compara padrões, verifica informações quando possível, observa os efeitos produzidos, considera hipóteses alternativas e evita conclusões grandiosas baseadas em episódios isolados.

A experiência torna-se mais confiável quando apresenta recorrência, coerência, dados verificáveis, independência em relação ao desejo pessoal e convergência com outras observações.

Mesmo assim, permanece saudável conservar uma margem de dúvida. A humildade epistemológica não diminui a experiência, protege sua interpretação contra o excesso de certeza.

Crenças como matrizes de sintonia

No paradigma consciencial, as crenças não permanecem apenas no plano abstrato. Elas influenciam emoções, comportamentos, escolhas, energias e faixas de sintonia.

Aquilo que a consciência acredita modifica o modo como ela percebe e responde ao mundo. Uma crença de perseguição pode ampliar estados de vigilância, medo e hostilidade. Uma crença de superioridade espiritual pode gerar vaidade, fechamento e dependência de confirmação. Uma crença de incapacidade pode reduzir iniciativa e consolidar padrões de passividade.

As crenças produzem efeitos mesmo quando seu conteúdo não corresponde plenamente à realidade.

Isso acontece porque a consciência organiza sua energia e sua atenção conforme os significados que atribui às experiências. Ela seleciona aquilo que confirma suas expectativas, ignora sinais discordantes e reforça circuitos emocionais compatíveis com sua visão de mundo.

No campo multidimensional, esse processo pode favorecer aproximações por afinidade. Padrões mentais e emocionais sustentados ao longo do tempo contribuem para determinadas sintonias, vínculos e influências.

Isso não significa que toda ocorrência negativa tenha sido atraída pela vítima, interpretação moralmente simplista e frequentemente injusta. A realidade envolve múltiplas consciências, causas, circunstâncias e relações kármicas. A sintonia constitui um fator entre vários, não uma fórmula universal de culpabilização.

A importância evolutiva das crenças reside em seu poder de organizar a manifestação da consciência. Por isso, revisá-las pode produzir mudanças cognitivas, emocionais, energéticas e comportamentais.

Dúvida e lucidez parapsíquica

No desenvolvimento parapsíquico, a dúvida possui valor protetivo. Sem ela, qualquer imagem mental pode ser considerada clarividência, qualquer pensamento pode ser atribuído a um amparador e qualquer emoção incomum pode ser interpretada como sinal extrafísico.

A dúvida impede que a imaginação seja promovida apressadamente à condição de fenômeno.

Ao mesmo tempo, a dúvida excessiva pode bloquear o registro e a análise de percepções sutis. A pessoa rejeita toda impressão antes de examiná-la, porque teme parecer ingênua ou irracional.

O desafio consiste em registrar sem acreditar imediatamente, observar sem negar antecipadamente e analisar sem deformar a experiência para ajustá-la a uma conclusão desejada.

Esse equilíbrio pode ser resumido em uma postura: acolher o dado, suspender a interpretação e investigar a recorrência.

A percepção inicial deve ser tratada como informação bruta. A interpretação vem depois, com prudência. A conclusão permanece proporcional à qualidade das evidências.

Negação e sombra consciencial

A negação psicológica frequentemente protege conteúdos que a consciência ainda não consegue integrar. Ela pode recusar fragilidades, ressentimentos, invejas, culpas, desejos de poder, dependências e contradições internas.

No meio espiritualista, essa negação pode adquirir linguagem elevada. A pessoa fala em missão, amparo, fraternidade e evolução enquanto evita examinar sua necessidade de reconhecimento, controle ou superioridade.

Quanto mais idealizada for a autoimagem espiritual, mais difícil pode ser admitir conteúdos incompatíveis com ela.

A sombra consciencial não corresponde apenas ao mal deliberado. Ela inclui aspectos não reconhecidos, qualidades reprimidas, impulsos temidos, feridas ocultas e potenciais ainda não integrados.

Negar a sombra não a elimina. Ela continua influenciando decisões, relações, interpretações e sintonias energéticas.

A autopesquisa exige disposição para reconhecer que a consciência pode defender valores nobres e, simultaneamente, agir por necessidades menos nobres. Essa constatação não destrói o valor do ideal, torna seu exercício mais honesto.

Cosmoética e responsabilidade epistemológica

A cosmoética não se restringe ao comportamento externo. Ela também envolve a maneira pela qual a consciência forma, sustenta e divulga suas convicções.

Afirmar como certeza aquilo que se conhece apenas como hipótese pode induzir outras pessoas ao erro. Negar publicamente uma experiência sem tê-la investigado pode produzir injustiça. Espalhar interpretações alarmistas sobre obsessores, karma, doenças, destinos espirituais ou supostas missões pode gerar medo, dependência e manipulação.

Existe, portanto, uma ética do conhecimento.

Essa ética exige que a linguagem corresponda ao grau real de certeza disponível. Hipóteses devem ser apresentadas como hipóteses. Experiências pessoais devem ser relatadas como experiências pessoais. Inferências precisam ser diferenciadas de fatos observáveis.

A honestidade epistemológica constitui expressão da cosmoética porque respeita a autonomia mental do outro.

O comunicador responsável não utiliza sua autoridade, mediunidade, conhecimento ou experiência para transformar interpretações particulares em verdades obrigatórias. Ele oferece elementos para reflexão, explicita limites e permite que o interlocutor desenvolva discernimento próprio.

O direito de acreditar, duvidar e negar

Toda consciência possui o direito de acreditar, duvidar e negar. A liberdade consciencial inclui a possibilidade de formar convicções, revisá-las, abandoná-las ou permanecer em suspensão.

Esse direito, contudo, convive com a responsabilidade pelas consequências das ideias sustentadas e divulgadas.

Uma crença privada pode orientar a vida de alguém sem produzir dano coletivo. Quando convertida em imposição, discriminação ou manipulação, passa a exigir avaliação ética.

Da mesma forma, a negação de determinada hipótese pertence à liberdade individual. Porém, quando se transforma em perseguição, censura, desqualificação pessoal ou impedimento arbitrário da investigação, ultrapassa o campo da opinião.

O paradigma consciencial universalista não busca substituir um dogma por outro. Sua tarefa mais coerente consiste em ampliar possibilidades de pesquisa, integrar diferentes fontes de conhecimento e preservar a autonomia da consciência.

A maturidade consciencial diante da tríade

A maturidade não elimina crenças, dúvidas ou negações. Ela qualifica o uso de cada uma.

A crença madura orienta sem aprisionar.

A dúvida madura investiga sem paralisar.

A negação madura delimita sem fechar prematuramente o campo do possível.

A consciência evolutivamente lúcida aprende a reconhecer o estado real de seu conhecimento. Ela sabe quando possui experiência, quando dispõe apenas de indícios, quando trabalha com hipótese e quando está simplesmente reagindo a um desconforto.

Essa lucidez exige vigilância contínua, porque o ego possui grande habilidade para transformar preferência em verdade, medo em prudência, apego em fidelidade e recusa em racionalidade.

Uma pergunta fundamental da autopesquisa seria: “O que, em mim, está acreditando, duvidando ou negando neste momento?”

A resposta pode revelar que a posição aparentemente intelectual está sendo conduzida por medo, vaidade, necessidade de pertencimento, trauma, lealdade grupal ou desejo de segurança.

Outra pergunta igualmente importante seria: “Que evidência seria capaz de modificar minha posição?”

Quando a resposta é “nenhuma”, a pessoa já não está investigando. Está protegendo uma conclusão.

O ciclo evolutivo do conhecimento

Crença, dúvida e negação podem formar um ciclo evolutivo, desde que permaneçam abertas ao aprendizado.

A consciência formula uma crença provisória, encontra dados que geram dúvida, nega aspectos que se revelam inconsistentes e reorganiza sua compreensão numa nova síntese. Essa síntese, por sua vez, torna-se uma crença mais elaborada, novamente sujeita a exame.

O processo não ocorre como linha reta nem como fórmula mecânica. Há avanços, regressões, resistências, intuições, rupturas e longos períodos de maturação.

Conhecer significa revisar continuamente a relação entre experiência e interpretação.

A evolução consciencial amplia a capacidade de sustentar complexidade. A pessoa deixa de exigir respostas instantâneas, tolera ambiguidades, reconhece verdades parciais e distingue aquilo que sabe daquilo que apenas supõe.

Essa postura não conduz ao relativismo absoluto. Algumas explicações são mais consistentes, algumas evidências são mais fortes e certas afirmações podem ser objetivamente falsas. A abertura intelectual não obriga a tratar todas as ideias como equivalentes.

O discernimento amadurecido mantém abertura sem perder critério.

Síntese consciencial

Todo mundo tem crenças porque nenhuma consciência encarnada conhece tudo.

Todo mundo tem dúvidas porque a realidade excede nossos modelos.

Todo mundo tem negações porque pensar também exige distinguir, selecionar e estabelecer limites.

A diferença evolutiva não está na presença ou ausência desses mecanismos, mas na lucidez com que são empregados.

A crença pode ser ponte ou prisão.

A dúvida pode ser método ou fuga.

A negação pode ser discernimento ou defesa.

O paradigma consciencial acrescenta a essa tríade uma quarta dimensão: a autopesquisa. É ela que permite à consciência observar não apenas aquilo que acredita, duvida ou nega, mas também as forças internas e externas que sustentam cada posição.

Sem autopesquisa, a consciência é conduzida por seus mecanismos enquanto imagina estar escolhendo livremente.

Com autopesquisa, começa a reconhecer condicionamentos, revisar automatismos, ampliar o discernimento e assumir responsabilidade pelo próprio modo de conhecer.

A evolução intelectual e espiritual não consiste em alcançar uma condição na qual nunca mais se acredita, duvida ou nega. Consiste em desenvolver suficiente lucidez para acreditar sem fanatismo, duvidar sem esterilidade e negar sem cegueira.

Quando essa tríade se submete à experiência, à razão, à ética, à autocrítica e à abertura consciencial, deixa de ser apenas um mecanismo psicológico de sobrevivência e torna-se instrumento de evolução.

Dalton Campos Roque – pesquisador consciencial – consciencial.org

 


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