Sexo ainda é um dos assuntos em que a humanidade consegue ser contraditória com enorme facilidade. Durante séculos, boa parte das religiões tratou o desejo sexual como algo perigoso, inferior, pecaminoso ou, no mínimo, suspeito. Depois, numa reação quase previsível, parte da sociedade moderna caminhou para o outro extremo e transformou o sexo em mercadoria, espetáculo, instrumento de sedução, compulsão e consumo. Ficamos oscilando entre a culpa e a banalização, quando o problema deveria ser examinado de maneira muito mais simples e madura: sexualidade é uma característica natural da consciência quando encarnada num corpo sexuado e precisa ser vivida com lucidez, responsabilidade e cosmoética.
A energia sexual não é suja e não precisa ser espiritualizada artificialmente para adquirir valor. Ela já faz parte da natureza humana. Atua na reprodução, no prazer, no vínculo afetivo, na vitalidade, na criatividade e nas trocas bioenergéticas entre as pessoas. O chacra sexual, ou genésico, participa diretamente desse conjunto de forças e, como qualquer outro chacra, pode funcionar de maneira equilibrada, excessiva, bloqueada ou carente. Isso não significa, porém, que devamos cair naquele velho vício espiritualista de atribuir doenças, problemas hormonais ou distúrbios físicos diretamente ao comportamento sexual de alguém. O organismo humano é complexo, a medicina possui suas próprias causas e diagnósticos, e a trajetória consciencial é muito maior do que aquilo que conseguimos perceber numa existência. Fazer sentenças fáceis sobre a vida íntima dos outros costuma revelar mais arrogância do observador do que conhecimento real.
Somos consciências multimilenares. Não começamos nesta existência, portanto também não começamos sexualmente nela. Trazemos tendências, condicionamentos, facilidades, traumas, desejos, afetos, medos e padrões de relacionamento construídos ao longo de muitas experiências. Mudamos de corpos, sexos, culturas, famílias e circunstâncias. Uma consciência que hoje está encarnada num homem já utilizou corpos femininos em outras existências, e o contrário também ocorreu inúmeras vezes. Por isso, julgar o valor evolutivo de alguém por sua orientação sexual, identidade, intensidade de desejo ou forma de viver a afetividade é tentar avaliar uma trajetória multimilenar observando apenas alguns centímetros dela.
Também não vejo sentido em considerar o desejo sexual uma espécie de armadilha evolutiva. Não fomos colocados num corpo dotado de hormônios, órgãos sexuais, mecanismos de prazer e necessidade de vínculo para depois sermos avaliados pela capacidade de fingir que nada disso existe. O aprendizado está justamente no uso daquilo que recebemos. A consciência precisa aprender a conviver com seus impulsos sem se tornar escrava deles, mas isso é muito diferente de reprimi-los por medo, culpa ou imposição religiosa. Repressão não é necessariamente domínio. Em muitos casos é apenas desejo comprimido, esperando uma oportunidade para reaparecer sob outra forma.
A experiência humana mostra isso com bastante clareza. Há pessoas sexualmente ativas muito equilibradas e pessoas sexualmente reprimidas extremamente perturbadas. Há celibatários lúcidos e celibatários que passam a vida lutando contra fantasias, culpas e desejos que nunca conseguiram compreender. Há casamentos formalmente impecáveis por fora e profundamente violentos por dentro. Há também relações fora dos modelos tradicionais onde existe respeito, sinceridade, cuidado e responsabilidade. Portanto, aparência social, estado civil e frequência sexual dizem muito pouco sobre a qualidade consciencial de uma relação.
O ponto principal está na maneira como a consciência utiliza sua sexualidade. Sexo pode significar carinho, intimidade, prazer compartilhado, afeto e aproximação energética. Também pode servir à manipulação, mentira, exploração, violência, compulsão e egocentrismo. A energia sexual em si não possui culpa nenhuma. O problema começa quando o outro deixa de ser percebido como consciência e passa a ser tratado apenas como objeto de satisfação.
É aí que entra a cosmoética. Consentimento é fundamental, mas não encerra toda a questão. Duas pessoas adultas podem consentir com algo e ainda assim agir de forma irresponsável, desonesta ou destrutiva. Quem mantém um compromisso afetivo e trai deliberadamente não pode transformar deslealdade em liberdade consciencial apenas porque encontrou alguma teoria espiritualista conveniente. Da mesma forma, ninguém deveria permanecer submetido a abuso, violência ou humilhação acreditando que precisa suportar aquilo por causa de karma. Karma não é condenação ao sofrimento nem desculpa para o comportamento de quem agride. As relações produzem consequências, e responsabilidade afetiva também faz parte do processo evolutivo.
Nas relações sexuais existe ainda uma interação bioenergética intensa. Os corpos físicos se aproximam, mas os campos energéticos também. Pensamentos, emoções, desejos e padrões conscienciais entram em contato, e essa troca pode ser agradável, neutra, perturbadora ou profundamente desgastante, dependendo das pessoas envolvidas. Isso não torna qualquer relação ocasional negativa nem garante que uma relação estável seja energeticamente sadia. Conheço a velha tendência espiritualista de imaginar que casamento protege energeticamente e sexo fora dele contamina. A realidade consciencial não funciona segundo documentos de cartório.
Também existem repercussões extrafísicas. Pensamentos e comportamentos repetitivos criam afinidades, e afinidades atraem companhias. Uma pessoa dominada por compulsões sexuais pode estabelecer sintonia com consciências extrafísicas igualmente desequilibradas, da mesma forma que isso acontece com violência, álcool, drogas, fanatismo religioso, poder, dinheiro e muitas outras áreas da vida. Entretanto, transformar qualquer desejo sexual em assédio extrafísico é outro exagero. Nem toda fantasia é influência espiritual, nem todo impulso vem de fora e nem precisamos inventar um obsessor para explicar aquilo que pertence à nossa própria fisiologia, psicologia ou história consciencial.
A maturidade sexual exige autoconhecimento. Precisamos saber o que desejamos, perceber quando existe afeto e quando existe apenas carência, reconhecer compulsões, compreender nossas fantasias e aprender a estabelecer limites. Também precisamos respeitar os limites alheios. Quem não consegue receber um “não” ainda tem muito a aprender sobre sexualidade, independentemente da idade que possua ou de quantos discursos espirituais conheça.
Outro ponto que considero importante é a velha ideia de que abstinência sexual representa automaticamente evolução. Não representa. Uma pessoa pode viver sem sexo por escolha pessoal, por circunstâncias, por disciplina ou simplesmente porque não sente necessidade, e não há problema algum nisso. Mas transformar ausência de atividade sexual em certificado de superioridade espiritual é infantil. Evolução consciencial não se mede pela quantidade de orgasmos que alguém teve ou deixou de ter.
O mesmo vale para o outro extremo. Liberdade sexual não significa agir sem responsabilidade. A pessoa pode defender todas as formas de liberdade e continuar sendo egoísta, manipuladora e irresponsável nos relacionamentos. A consciência evolui quando amplia lucidez, respeito, empatia, discernimento e responsabilidade pelas consequências de seus atos. A sexualidade entra nisso como qualquer outra área da existência.
Durante muito tempo procuramos pecado no sexo. Depois começamos a procurar apenas prazer. Talvez seja hora de procurar consciência.
Sexo pode ser reprodução, prazer, afeto, carência, fuga, encontro, compulsão, amor, violência ou simples expressão da natureza biológica. Depende das consciências envolvidas e do que elas fazem com essa força.
A evolução não exige que deixemos de ter sexualidade. Exige que aprendamos a vivê-la sem culpa infantil, sem fanatismo, sem exploração e sem sermos comandados cegamente pelos próprios impulsos.
É muito mais difícil do que obedecer a uma lista de proibições.
Mas também é muito mais evolutivo.

