Depois da Revolução Cósmica do Quintal, Conscinho ficou com um problema sério: o quintal continuava exatamente igual. A mangueira continuava sendo mangueira, o muro mantinha aquela pequena rachadura que ninguém consertava, as formigas carregavam objetos muito maiores do que elas — demonstração diária de que tamanho e bom senso nem sempre andam juntos — e Pequeno Mini Little seguia patrulhando o território com a convicção de quem havia sido nomeado chefe de segurança de um pequeno país. Felino Cat Miau, por sua vez, continuava dedicado à sua principal atividade espiritual: dormir em lugares inconvenientes.
Só Conscinho havia mudado. Depois de pensar tanto sobre a vida, o Universo, os espíritos, o karma, os animais e aquela misteriosa tendência dos adultos de complicarem tudo o que poderia ser explicado em três frases, começara a desconfiar de uma coisa: talvez o quintal tivesse muito mais habitantes do que aparecia no censo oficial da família.
Numa terça-feira de manhã, enquanto observava uma fileira de formigas desaparecer sob uma pedra, colocou as mãos na cintura:
— Pequeno Mini Little, precisamos fazer uma reunião.
O cachorro levantou a cabeça. Não porque tivesse entendido; ouvira o próprio nome.
— E você também, Felino Cat Miau.
O gato abriu um olho, fechou novamente e permaneceu imóvel. Para Conscinho, aquilo significava consentimento. Afinal, em assuntos espirituais, às vezes era necessário interpretar sinais sutis. 🤔

A primeira providência foi organizar a Assembleia Geral Extraordinária Interespécies Interdimension… Conscinho parou no meio do nome. Lembrou que palavras compridas demais afastavam as pessoas.
— Assembleia Geral do Quintal.
Muito melhor.
Pegou quatro cadeiras de plástico: uma para ele, duas para eventuais espíritos e outra porque não fazia ideia de quantos espíritos poderiam aparecer. Para Pequeno Mini Little, colocou uma almofada. Para Felino Cat Miau, nada, porque sabia que o gato recusaria qualquer lugar preparado especialmente para ele e escolheria exatamente a cadeira reservada ao espírito mais importante.
Foi o que aconteceu.
— Você está ocupando o lugar do convidado invisível.
Felino Cat Miau bocejou.
— Isso foi uma provocação filosófica?
O gato começou a lamber a pata.
— Entendi. Você não trabalha com respostas objetivas.
Pequeno Mini Little estava muito mais interessado na reunião, principalmente porque Conscinho segurava um biscoito.
— Ordem do dia: primeiro, descobrir quem mora neste quintal; segundo, descobrir quem visita este quintal; terceiro, descobrir onde foi parar minha bolinha azul.
Pequeno Mini Little desviou o olhar.
— Depois conversamos.
Conscinho sentou e esperou. Nada aconteceu. Depois, uma folha caiu, um passarinho pousou no muro, uma formiga subiu pelo pé da cadeira e o vento mexeu a mangueira.
— Certo. A reunião começou.

Na cabeça de Conscinho, aquilo estava longe de ser uma reunião pequena. O passarinho representava o Departamento Aéreo; as formigas, o Ministério da Infraestrutura; Pequeno Mini Little era Segurança e Defesa; Felino Cat Miau, naturalmente, ficou com o Departamento de Assuntos Misteriosos, porque ninguém sabia exatamente o que ele fazia.
Uma borboleta passou.
— Relações Exteriores.
Uma lagartixa surgiu no muro.
— Inteligência.
A lagartixa correu.
— Inteligência sigilosa.
O Universo começava a revelar uma estrutura administrativa surpreendente. Só faltava alguém. Conscinho olhou para a cadeira vazia:
— Azulim?
Nada.
— Se estiver aí, pode aparecer.
Nada.
— Não precisa aparecer inteiro. Pode aparecer só um pouquinho.
Uma brisa atravessou o quintal e mexeu as folhas da mangueira.
Conscinho sorriu.
— Sabia.
É claro que ele não sabia. Estava apenas aprendendo uma das atividades preferidas dos seres humanos: transformar coincidências em confirmações.
Logo depois, porém, sentiu aquela impressão conhecida. Não era voz nem alguém falando dentro de sua cabeça; parecia mais a sensação de entrar num quarto e perceber que alguém estivera ali, embora não soubesse explicar como.
Conscinho ficou quieto. Pequeno Mini Little também. Até Felino Cat Miau interrompeu por dois segundos a importantíssima higienização da pata esquerda.
— Tem alguém aqui…
O cachorro olhou para o portão. O gato olhou para lugar nenhum — e, vindo de um gato, aquilo era quase uma declaração oficial.
Conscinho fechou os olhos. Não viu ninguém, mas lembrou-se daquela presença azulada que conhecia tão bem.
— Azulim?
O vento passou novamente.
— Se fizer isso uma terceira vez, vou considerar resposta.
Dessa vez, nada.
Conscinho abriu os olhos.
— Também não precisa exagerar no método científico.

A reunião prosseguiu, e Conscinho resolveu abordar uma questão que o incomodava havia dias:
— Quero saber por que todo mundo acha que precisa ser extraordinário. O pessoal quer missão especial, experiência especial, poder especial, espírito especial, vida passada especial…
Pequeno Mini Little inclinou a cabeça. Felino Cat Miau pulou sobre a mesa.
— Você, por exemplo, não parece preocupado em ser especial.
O gato deitou exatamente sobre a folha onde Conscinho escrevera a pauta.
— Você só quer atrapalhar mesmo.
Conscinho ficou olhando para os dois. Felino Cat Miau não fazia cursos, não lia livros, não meditava, não usava palavras difíceis nem anunciava que estava evoluindo. Dormia, comia, brincava, perseguia insetos imaginários e, ocasionalmente, contemplava a parede durante quinze minutos como se recebesse instruções diretamente do centro administrativo da galáxia.
Pequeno Mini Little também não parecia sofrer nenhuma crise existencial. Tinha fome, comia. Cansava, dormia. Alguém chegava, corria até o portão. Recebia carinho, abanava o rabo. Quando ficava feliz, ficava feliz por inteiro.
Conscinho coçou o queixo.
— Vocês dois são muito pouco complicados.
Pequeno Mini Little abanou o rabo.
— Isso foi elogio.
Felino Cat Miau fechou os olhos.
— Para você também.
Foi então que Conscinho percebeu uma diferença importante: talvez o problema dos seres humanos não fosse pensar demais, mas acreditar demais em tudo o que pensavam.
Pensar era ótimo. Conscinho adorava pensar. Pensava andando, comendo, antes de dormir e, às vezes, pensava durante tanto tempo que esquecia o assunto e precisava começar novamente. Mas havia uma enorme diferença entre produzir pensamentos e obedecer a todos eles.
Ele olhou para Pequeno Mini Little:
— Você pensa?
O cachorro começou a coçar a orelha.
— Vou registrar como “sem comentários”.

De repente, veio um barulho do canto do quintal.
CRÉC.
Conscinho levantou. Pequeno Mini Little disparou na frente. Felino Cat Miau permaneceu imóvel, pois havia estabelecido uma política pessoal de não investigar acontecimentos que exigissem esforço físico.
Atrás de alguns vasos, uma pequena planta surgia por uma rachadura no cimento. Conscinho se abaixou. Não lembrava de ninguém ter plantado coisa alguma ali. A plantinha simplesmente nascera entre pedra, cimento e um restinho de terra.
— Olha isso, Pequeno.
O cachorro cheirou.
— Não come.
Pequeno Mini Little lançou-lhe a expressão típica de quem considerava ofensiva qualquer acusação sem provas.
Conscinho observou a planta. Ela não emitia luz, não flutuava, não transmitia mensagens espirituais e nenhum mestre apareceu atrás dela acompanhado de música celestial. Era apenas uma planta crescendo onde, teoricamente, não deveria crescer. Talvez justamente por isso fosse interessante.
— Você não pediu autorização para ninguém, né?
Silêncio vegetal.
— Não fez curso de prosperidade.
Silêncio.
— Não esperou Mercúrio sair de retrógrado.
Silêncio absoluto.
— Nem consultou sua missão de vida.
Pequeno Mini Little sentou ao lado dele.
Conscinho sorriu.
— Você simplesmente cresceu.
Por alguns segundos, ficou sério. Havia momentos em que suas próprias brincadeiras acabavam ensinando alguma coisa para ele. A vida tinha dessas inconveniências: a pessoa começava fazendo piada e terminava pensando.

À noite, Conscinho voltou ao quintal. Gostava daquele horário. Durante o dia, tudo parecia muito definido: casa era casa, árvore era árvore, muro era muro. À noite, as fronteiras ficavam menos rígidas; as sombras cresciam, os sons mudavam e o céu parecia mais próximo, embora continuasse exatamente à mesma distância.
Pequeno Mini Little deitou perto de seus pés. Felino Cat Miau apareceu silenciosamente e ocupou uma cadeira que ninguém lhe oferecera.
Conscinho olhou para as estrelas.
— Deve ter um monte de gente olhando para isso agora.
Pensou em crianças de outras cidades e países, em pessoas acordadas ou dormindo, felizes ou tristes, tentando descobrir o que fazer da vida. Gente procurando respostas enormes para problemas pequenos e respostas pequenas para problemas enormes.
Também imaginou quantas pessoas, naquele exato instante, poderiam estar olhando para o céu e perguntando:
— Tem alguém aí?
Conscinho achou graça.
— O Universo deve receber essa pergunta toda hora.
Imaginou uma central cósmica:
— Planeta Terra novamente.
— Qual setor?
— Humanos.
— O que querem?
— Uma prova.
— De quê?
— De que não estão sozinhos.
— Mas eles têm uns aos outros.
— Já explicamos.
— E?
— Não aceitaram.
Conscinho riu sozinho. Pequeno Mini Little levantou a cabeça.
— Foi uma piada cósmica interna.
O cachorro voltou a dormir. 🙂

Foi então que Conscinho pensou em algo ainda mais estranho: talvez encontrar vida em outros mundos fosse menos difícil do que aprender a enxergar a vida que já estava ao redor. A formiga, a planta, o cachorro, o gato, o passarinho, as pessoas — e aquelas presenças que, segundo suas experiências e intuições, talvez não terminassem exatamente onde terminavam os olhos.
Não precisava transformar tudo em mistério. Também não precisava transformar tudo em certeza.
Essa parte começava a compreender melhor.
Entre “não existe” e “tenho absoluta certeza de que existe” havia um território enorme chamado:
“Vou continuar observando.”
Conscinho gostou daquela ideia. Havia espaço para curiosidade, dúvida, experiência, erro e mudança de opinião.
— Acho que descobri uma coisa.
Pequeno Mini Little abriu um olho.
— Quanto mais eu descubro, mais coisas aparecem para descobrir.
O cachorro fechou o olho novamente.
— Exatamente. É desesperador.
Felino Cat Miau desceu da cadeira, esfregou-se na perna do menino e começou a caminhar em direção à casa.
— Você veio me consolar?
O gato continuou até a cozinha.
— Ah. Comida.
A espiritualidade felina tinha limites bastante concretos.
Conscinho levantou. A Assembleia Geral do Quintal estava encerrada. Nenhuma grande verdade fora revelada, nenhum segredo do Universo fora solucionado, nenhum portal se abrira e nenhum espírito entregara um pergaminho com as respostas definitivas da existência.
Mesmo assim, Conscinho estava contente. Talvez uma boa investigação não precisasse terminar com uma resposta; às vezes bastava terminar com uma pergunta melhor.
Entrou em casa acompanhado por Pequeno Mini Little. Felino Cat Miau já estava muito à frente, porque questões metafísicas podiam esperar, mas o pote de ração tinha horário.
Antes de fechar a porta, Conscinho olhou novamente para o quintal. A pequena planta continuava ali, as formigas trabalhavam, as folhas balançavam e, por alguns segundos, ele teve outra vez aquela impressão suave de que havia mais coisas acontecendo naquele pequeno pedaço do mundo do que qualquer reunião conseguiria registrar.
— Amanhã a gente continua.
Uma brisa leve atravessou o quintal. Dessa vez, Conscinho não tentou decidir se era Azulim.
— Pode ter sido só vento…
Pensou por um instante.
— Mas você escolheu uma hora muito suspeita para passar.
E entrou em casa.

