O MORALISTA QUE JULGOU O IMORAL E SE TORNOU AMORAL E IMORAL

O MORALISTA QUE JULGOU O IMORAL E SE TORNOU AMORAL E IMORAL

Gilberto frequentava o Centro Espírita “Luz no Vale” há quinze anos. Era orador, passista, evangelizador das crianças. Sua voz era calma, suas mãos, firmes ao aplicar o passe. Todos o tinham como exemplo de conduta.

Havia, porém, um homem que Gilberto não suportava.

Chamava-se Maurício. Chegara ao centro há dois anos, depois de uma separação conturbada. Era simpático, dedicava-se às campanhas de arrecadação de alimentos, mas trazia nos olhos algo que incomodava Gilberto profundamente.

Gilberto não sabia explicar o que era. Não havia confissão. Não havia prova. Apenas uma sensação, e Gilberto confiava em sua sensibilidade espiritual como quem confia na própria respiração.

— Aquele ali tem coisas nas trevas — disse Gilberto um dia para a esposa, Lívia.
— Sinto. Ele trai a mulher. Ou já traiu. E há outras coisas… vícios baixos. Baixos, entende?

Lívia, que também era espírita e trabalhava na assistência fraterna, ponderou:

— Gilberto, você não pode julgar sem saber. E mesmo que soubesse, não é você o juiz. A casa espírita é hospital, não tribunal.

Gilberto suspirou, mas não se convenceu.

Na semana seguinte, Maurício aproximou-se de Gilberto após uma palestra. Sorriu. Estendeu a mão.

— Gilberto, tenho aprendido muito com você. Admiro sua coerência.

Gilberto hesitou. Apertou a mão com frieza.

— Obrigado — disse, e virou-se para falar com outro.

Nos dias que se seguiram, Gilberto passou a evitar Maurício sistematicamente. Não o cumprimentava mais. Não dividia o mesmo banco na doutrina. Quando Maurício se aproximava do grupo de amigos de Gilberto, o grupo sentia o desconforto e, por lealdade, também se afastava.

Ninguém perguntava o motivo. Gilberto não dizia. Mas o olhar de Gilberto para Maurício era um olhar de nojo discreto, o tipo de nojo que se sente por algo que se conhece sem ter visto.

E Maurício, calado, foi se encolhendo. Deixou de ir nas reuniões de estudo. Depois, nas palestras. Depois, sumiu.

O que Gilberto não sabia, ou não queria saber, é que sua sensibilidade espiritual não mentia. Apenas contava uma verdade pela metade. As vezes a percepção parapsíquica, a psicometria, a clarividência funciona bem para olhar os outros, mas não para examinar a própria alma.

Maurício, de fato, carregava segredos sombrios. Visitava prostíbulos duas vezes por mês. Tinha casos extraconjugais com uma mulher do trabalho. E à noite, no escuro do quarto, quando a esposa dormia, entregava-se à masturbação compulsiva com material pornográfico, sentindo-se depois vazio e culpado.

Mas o que Gilberto também não sabia, e sua sensibilidade convenientemente ignorava, é que ele mesmo, Gilberto, já havia sido exatamente assim em outra encarnação. Ele se via projetado no colega e não aceitava.

Na vida anterior, Gilberto se chamava Tiago. Era comerciante, casado, pai de três filhos. E fazia exatamente o mesmo que Maurício fazia agora: traía, mentia, frequentava casas de baixo meretrício, e vivia atormentado entre o desejo e o remédio da religião. Morreu sem se reconciliar consigo mesmo, prometendo que na próxima vida seria “puro e implacável com o pecado”.

Essa promessa, não resgatada, transformou-se no carma que Gilberto agora vivia: a ilusão da pureza que condena no outro o que não quer ver em si.

Uma noite, no Centro Espírita, após o encerramento dos trabalhos, Gilberto foi chamado para uma conversa no gabinete da diretoria.

Sentado à mesa, estava o mentor espiritual da casa, incorporado na médium Célia. Seus olhos eram antigos e mansos.

— Gilberto — disse o mentor, você sabe por que Maurício não vem mais?

Gilberto baixou a cabeça.

— Ele tem más condutas. Eu senti.
— Você sentiu — repetiu o mentor, com ternura cortante. — E o que você fez com o que sentiu?
— Eu me afastei. E orientei os outros a se afastarem também. Não podia compactuar.
— Compactuar? — o mentor inclinou a cabeça. — Alguém pediu que você compactuasse? Alguém pediu que você aprovasse a mentira, a traição, os vícios? Não. Pediram apenas que você não se tornasse aquilo que condena: um juiz sem misericórdia.

Gilberto sentiu o peito apertar.

— Mas, mentor… ele trai a esposa. Ele vai a prostíbulos. Ele se masturba como um desesperado. Isso não é errado?

— É errado — respondeu o mentor, sem hesitar. — Tudo isso causa sofrimento para ele e para os outros. Ninguém diz que é certo. Mas o erro de Maurício não justifica o seu. Você julgou o imoral e se tornou amoral. Não porque fez as mesmas coisas que ele, você não fez. Mas porque matou dentro de si o amor que acolhe o erro alheio sem se contaminar por ele. O tabu que você plantou dentro do seu coração, a ideia de que não pode nem olhar para quem erra, esse tabu é um segundo erro, maior que o primeiro.

Gilberto tentou argumentar:
— Mas eu não posso fingir que está tudo bem! Eu não posso dar passe em quem vive assim sem arrependimento!

— Quem pediu para você fingir? — o mentor sorriu com tristeza. — Você poderia ter dito a Maurício: “Meu irmão, sinto que você carrega pesos. Não sei quais são. Mas se quiser conversar, estou aqui. Se quiser ajuda, podemos buscar juntos. Você não precisa se esconder de mim.” Isso teria sido amor. Em vez disso, você o excluiu. Não por coragem, mas por medo. Medo de que o pecado dele respingasse em você. Medo de que, ao acolher quem erra, você perdesse sua reputação de justo. E nesse medo, você se tornou amoral — porque a moral sem caridade é imoralidade disfarçada.

Gilberto chorou naquela noite como não chorava há anos. Chorou por Maurício. Chorou por si mesmo. Chorou por todas as vezes que, no pretérito de outras vidas, fora o traído, o mentiroso, o punheiteiro, o frequentador de prostíbulos — e também o juiz.

No dia seguinte, Gilberto foi à casa de Maurício.

Maurício demorou a abrir a porta. Quando abriu, estava com os olhos vermelhos, camisa amassada, hálito de café requentado.

— O que você quer, Gilberto? Já me excluiu. Não precisa vir agora me dar lição.

Gilberto, sem dizer uma palavra, abraçou o homem. Apenas abraçou.

Maurício estranhou. Depois, começou a tremer. Depois, desabou no peito de Gilberto como uma criança.

— Eu faço coisas terríveis — sussurrou Maurício, chorando. — Eu traio minha mulher. Eu vou em prostíbulo. Eu não consigo parar de me masturbar vendo porcaria. Eu sou nojento.

— Você não é nojento — disse Gilberto, também chorando. — Você é um doente. E doente não se abandona. Doente se leva ao hospital. Me perdoe por ter fechado a porta na sua cara. Eu também sou doente. Doente de orgulho. Doente de julgamento. Doente de achar que pureza se defende com muro, e não com acolhimento.

Maurício voltou ao Centro Espírita. Não de imediato — levou meses. Mas voltou. E quando voltou, Gilberto estava na porta, de braços abertos.

Os dois passaram a frequentar juntos as reuniões de desobsessão. Não como vítimas nem como algozes. Como irmãos.

Maurício ainda errava. Gilberto ainda sentia o desconforto. Mas agora, quando a sensibilidade de Gilberto captava as sombras do amigo, ele não se afastava. Apenas orava em silêncio e dizia:

— Se você quiser conversar, estou aqui. Se não quiser, também. Mas não vou embora.

E foi assim que o moralista, que julgou o imoral, entendeu que se tornar amoral é pior do que errar — porque errar é humano, mas julgar sem acolher é desumano. E que o tabu dentro do coração — aquela trava que diz “isso é sujo demais para eu olhar” — é, no fundo, o medo de se reconhecer no espelho do outro.

“Quem dentre vós está sem pecado, atire a primeira pedra.”

Mas Gilberto aprendeu que não bastava não atirar a pedra. Era preciso, também, não construir o muro.

Fim.

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