Escrevo, logo existo
Escrevo como quem sangra em silêncio.
Não por vaidade, mas por urgência da alma e do dharma.
Meus livros dormem nas prateleiras como monges em retiro,
e quase ninguém os desperta. Será porquê? Porque não querem ser despertados?
Sou um autor que passou por este mundo como um cometa escuro,
com luz própria, mas longe demais dos telescópios da moda.
Enquanto o mundo gira rápido em torno de festas e frases prontas,
eu decanto verdades densas que pedem tempo, silêncio, profundidade e coragem.
As palavras que redigi com esmero —
como quem lapida lentamente um diamante em caverna esquecida —
seguem intactas. Poucos as viram. Menos ainda as entenderam.
Mas elas existem.
E existir, às vezes, é mais do que ser lido.
Porque minha obra não busca ser trending(1),
ela busca ser firme na verdade, mesmo inconveniente.
Não um espetáculo para o feed e os algoritmos imbecilizantes,
mas um espelho para os que ousarem olhar mais fundo.
Sim, há uma dor aqui.
A dor de quem cria e não é visto.
Mas há também a chamada e a chama:
eu escrevi o que ninguém quis dizer.
Fui onde muitos não ousaram ir.
Toquei onde outros se esquivaram.
E isso…
isso me basta por agora.
Me resta, em silêncio, cumprir os meus desígnios,
que lavrei com fogo em pedra no decorrer dos séculos.
Notas: 1. Em alta na moda.
O peso invisível de quem escreve o que ninguém quer ler
Há uma solidão que não se explica aos amigos, nem se resolve com elogios:
é a solidão do autor que escreve livros que o mundo não quer ler.
Não porque sejam ruins — mas porque são profundos demais para a pressa atual.
Enquanto outros surfam nas tendências do dia,
eu mergulho no que é denso, arriscado, incômodo.
Escrevo sobre karma, sobre dharma, sobre a consciência que precede a matéria.
E talvez por isso mesmo, sou lido por tão poucos.
Meus livros estão aí — publicados, digitais, encadernados, revisados, amados por mim.
Mas repousam como sementes adormecidas em solo árido.
O mundo celebra o brilho falso da espuma.
E eu? Eu sigo escrevendo rochas, casulos, vulcões em repouso.
Às vezes me pergunto se tudo isso valeu a pena.
Se escrever tanto, por décadas, com verdade nos dedos,
faz sentido quando quase ninguém se detém nas páginas.
Mas algo dentro responde, como uma voz que vem de antes de mim:
Você não escreve para ser lido. Você escreve porque nasceu para escrever.
E então compreendo: o valor de uma obra não se mede pela sua venda,
mas pela sua fidelidade ao que é verdadeiro, mesmo que indigesto.
As minhas obras falam de coisas que não cabem em slogans.
Falam do invisível que sustenta o visível.
Do eterno que habita o instante.
Da ética que antecede o desejo.
Não são fáceis.
Não foram feitas para serem.
São portais — não vitrines.
E se poucos passam por esses portais,
não é culpa do portal.
É só que a maioria ainda vive no shopping das ideias descartáveis.
Sigo escrevendo porque não sei ser outra coisa.
Sou feito de palavras que doem e curam ao mesmo tempo.
Sou feito de silêncio entre livros.
De fé no que ainda não floresceu.
E quem sabe, um dia, quando a pressa der lugar à busca,
algum leitor perdido tropece nas minhas obras
e descubra que ali — bem ali — havia uma bússola que esperava por ele.

