Por Lázaro Freire <http://voadores.com.br/site/geral.php?txt_funcao=colunas&view=4&id=396>
KARMA é uma palavra em sânscrito que significa, simplesmente, AÇÃO. Para um hindu, a reação já faz parte da própria ação, as coisas são uma só. Não há, portanto, contexto de pecado, punição ou recompensa, como um ocidental traduz. A causa e sua consequência são o mesmo ato, o karma. Se você semeia vento, colhe tempestade, não porque Deus castiga, não por expiação e provas, não por moralismo divino, mas apenas porque não se colhe morangos dos espinheiros. Se fiz o “mal”, colho o “mal”, não por haver códigos divinos de certo e errado, mas por simples causa e consequência. E tudo isso é KARMA. Mas se recebo presentes bacanas no meu aniversário, por ter sido uma pessoa bacana também, isso também é KARMA, no sentido hindu. Se alguém busca a Deus através do serviço filantrópico desinteressado, se sua espiritualidade e “união” com o divino (yoga, em sânscrito) se faz através mais de AÇÕES do que de conhecimento ou devoção, isto é chamado de KARMA YOGA, ou seja união através das AÇÕES (karma). Note que a maneira com que o senso-comum ocidental se apropria da palavra é completamente diferente – e equivocado.
Já o DHARMA tem dois sentidos principais, no hinduismo e no budismo. Dharma pode ser sua missão no mundo, o papel que ocupa, a proéxis da conscienciologia, o “sonho de morte” de Winnicott, o seu papel sócio-existencial, a sua possibilidade de auto-realização, o que seu inconsciente deve cumprir para se individuar. Para cumprir seu dharma, é preciso karma (o que não parece nem um pouco com o uso equivocado da palavra).
Não precisa ser algo estereotipadamente espiritual; para muitos, cumprir seu dharma é ser uma boa mãe e avó. Para outros, ser um bom policial, mesmo se cético, evangélico ou ateu! Meu dharma tem sido divulgar a espiritualidade e discernimento, levar senso crítico às pessoas, eu ficaria sem ar se não fizesse isso. Meu dharma hoje é dar aulas de filosofia (inclusive em escolas do estado, que não pagam nada) e atender pessoas na clínica, não faço isso por “profissão” ou dinheiro, ao contrário, mudei minha vida para poder fazer isso, porque faz sentido para mim, e me DÁ sentido também. Às vezes, após fazer os olhos de adolescentes pobres brilharem por perceberem que podem pensar e questionar, ou após uma sessão de psicanálise em que REALMENTE fiz diferença na vida de uma pessoa, costumo pensar, em silêncio, sem reconhecimento ou publicidade alguma por isso (já tive mais em outros dharmas), que se eu tivesse nascido naquele dia pela manhã e morrido no final da noite, AINDA ASSIM minha passagem pelo planeta teria feito sentido – e mudança – por ter levado evolução e transformação. O mundo não será mais o mesmo após aquele meu dia. Isso é cumprir o dharma. O que o Donald Winnicott chama de “sonhar o sonho que nos permite morrer”.
O conceito de dharma no hinduismo nos remete a Arjuna, o arqueiro do Baghavad Gitá, que interpela Krishna com suas dúvidas existenciais, uma vez que para cumprir seu papel de guerreiro na sociedade precisará matar pessoas que antes eram amigas, em uma guerra que não é necessariamente sua. Como conciliar a espiritualidade com o assassinato? Naquela bela metáfora, Krishna lhe explica sobre o cumprimento de seu dharma, o de ser guerreiro (a sociedade hindu era dividida em castas rígidas), e de como qualquer trabalhador, poder oferecer o fruto de seu trabalho a Deus. Nenhuma flecha mataria o espírito imortal daquelas pessoas, e as mortes não viriam da maldade de Arjuna (o que lhe geraria o karma disso, ação e reação). Por outro lado, Arjuna tinha um DHARMA nessa vida, por mais estranho que pareça: o de ser guerreiro. Então que fosse um bom guerreiro, executasse o seu papel na sociedade, oferecendo o fruto de seu trabalho para Deus. Se isso soa estranho para os valores ocidentais (um avatar divino aconselhando um discípulo a matar as pessoas como sendo a coisa mais espiritual a fazer), ilustra de maneira intensa a necessidade de se cumprir o dharma, seja qual for. A situação extrema é proposital, para dizer que, por mais difícil que pareça, não podemos / devemos nos furtar a cumprir o nosso dharma – e que o façamos bem, oferecendo o fruto desse trabalho para o criador. Belíssimo.
Já em alguns contextos budistas, a palavra DHARMA é usada como sinônimo de uma benção do Buda. Fala-se mais em “receber” o dharma (benção) do que em “cumprir” o dharma (missão de vida). Embora seja uma apropriação linguística, uma evolução e extensão metafórica da palavra em outro contexto, como ocorre em qualquer idioma, AINDA ASSIM é coerente. Ora, como alguém poderia receber o dharma, a benção, em um contexto espiritual? Simples, cumprindo sua missão de vida (dharma), e executando boas ações (karma). No fundo, os três conceitos estão completamente interligados, embora tenham significados diferentes. Não há dharma sem karma, e a benção ou sintonia que encontramos é produto direto de nossos pensamentos, sentimentos, energias e ações.
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Dalton Campos Roque
Artífice de palavras e desvelador de abismos. Médium das letras que transita entre o ácido e o sublime.
Engenheiro de "pontes" que ligam o visível ao inefável. Projetor e pesquisador do astral, cultiva um jardim
de paradoxos, onde florescem humor e transcendência. Meus livros são portais — alguns levam ao sótão da alma,
outros às catacumbas do riso. Costumo dizer que “escrever é o último exorcismo antes do amanhecer”.
Autor de dezenas de obras independentes — cinco sobre informática, uma sobre autopublicação e o restante sobre espiritualidade e consciência, sem religião.
Engenheiro Civil, pós-graduado em Educação em Valores Humanos (Sathya Sai Baba) e em Estudos da Consciência com ênfase em Parapsicologia. “Me ame quando eu menos merecer, pois é quando mais preciso.”
E um lembrete: todo texto, crítica ou alerta que escrevo serve, antes de tudo, para mim mesmo.
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