CRÔNICAS DA SÓ-OM-ZEIRA - O dia em que minha avó incorporou Janis Joplin (sem saber quem era)

CRÔNICAS DA SÓ-OM-ZEIRA – O dia em que minha avó incorporou Janis Joplin (sem saber quem era)

Minha avó nunca curtiu rock.
Ela era do tempo da valsa e do terço.
Mas tinha um ouvido afiado e um coração largo,
capaz de ouvir o mundo além do rádio.

Certo dia, me viu chegando cabisbaixo.
“Problemas espirituais ou sentimentais?”, ela perguntou.
“Os dois”, respondi, tentando disfarçar com um riff mental de Hendrix.¹

Ela colocou a mão na testa, baixou os olhos e disse:
— “Sente aqui, menino. Vou cantar uma oração que me veio agora.”

E foi.
De olhos fechados, começou um canto rouco, rasgado,
cheio de dor e êxtase,
como se o útero da Terra soltasse um grito.

Eu, pasmo.
Parecia… Janis Joplin em versão benzedeira.²
E sem nunca tê-la ouvido.

Quando terminou, abriu os olhos como quem volta de um transe,
coçou o queixo e disse:
— “Sei lá o que foi isso. Mas foi bom.”

Naquela noite, sonhei com Janis num campo de girassóis,
fumando incenso de arruda e cantando “Piece of My Heart”
com sotaque de Minas Gerais.³

Acordei com uma certeza:
o Espírito se manifesta onde há entrega.
E a música é o cavalo das almas livres.

Chorei.
Não de tristeza.
Mas daquela emoção que a gente sente quando entende
que o sagrado não segue rótulo de estilo musical.


Notas de rodapé:

  1. Hendrix: Jimi Hendrix foi um dos maiores guitarristas da história do rock. Seu estilo psicodélico, criativo e profundamente intuitivo influenciou gerações. Falar que alguém pensa com um “riff de Hendrix” é como dizer que os pensamentos vêm em espirais sonoras carregadas de alma e improviso.

  2. Janis Joplin: Cantora norte-americana com voz intensa e emocional, símbolo da contracultura dos anos 60. Morreu jovem (aos 27 anos), mas sua força vocal e autenticidade deixaram marcas profundas. Ela cantava como quem exorciza dores ancestrais com cada nota.

  3. Piece of My Heart: Uma das músicas mais icônicas de Janis Joplin. O título significa “Pedaço do meu coração” – e é exatamente isso que ela entregava ao cantar.

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Dalton Campos Roque
Engenheiro por destino, editor por teimosia, escritor por vocação, poeta por emoção, pesquisador da consciência por dharma, em busca de redenção.

Autor de dezenas de obras independentes — cinco sobre informática, uma sobre autopublicação e o restante sobre espiritualidade e consciência, sem religião.

Engenheiro Civil, pós-graduado em Educação em Valores Humanos (Sathya Sai Baba) e em Estudos da Consciência com ênfase em Parapsicologia. “Me ame quando eu menos merecer, pois é quando mais preciso.”

E um lembrete: todo texto, crítica ou alerta que escrevo serve, antes de tudo, para mim mesmo.

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