Minha avó nunca curtiu rock.
Ela era do tempo da valsa e do terço.
Mas tinha um ouvido afiado e um coração largo,
capaz de ouvir o mundo além do rádio.
Certo dia, me viu chegando cabisbaixo.
“Problemas espirituais ou sentimentais?”, ela perguntou.
“Os dois”, respondi, tentando disfarçar com um riff mental de Hendrix.¹
Ela colocou a mão na testa, baixou os olhos e disse:
— “Sente aqui, menino. Vou cantar uma oração que me veio agora.”
E foi.
De olhos fechados, começou um canto rouco, rasgado,
cheio de dor e êxtase,
como se o útero da Terra soltasse um grito.
Eu, pasmo.
Parecia… Janis Joplin em versão benzedeira.²
E sem nunca tê-la ouvido.
Quando terminou, abriu os olhos como quem volta de um transe,
coçou o queixo e disse:
— “Sei lá o que foi isso. Mas foi bom.”
Naquela noite, sonhei com Janis num campo de girassóis,
fumando incenso de arruda e cantando “Piece of My Heart”
com sotaque de Minas Gerais.³
Acordei com uma certeza:
o Espírito se manifesta onde há entrega.
E a música é o cavalo das almas livres.
Chorei.
Não de tristeza.
Mas daquela emoção que a gente sente quando entende
que o sagrado não segue rótulo de estilo musical.
Notas de rodapé:
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Hendrix: Jimi Hendrix foi um dos maiores guitarristas da história do rock. Seu estilo psicodélico, criativo e profundamente intuitivo influenciou gerações. Falar que alguém pensa com um “riff de Hendrix” é como dizer que os pensamentos vêm em espirais sonoras carregadas de alma e improviso.
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Janis Joplin: Cantora norte-americana com voz intensa e emocional, símbolo da contracultura dos anos 60. Morreu jovem (aos 27 anos), mas sua força vocal e autenticidade deixaram marcas profundas. Ela cantava como quem exorciza dores ancestrais com cada nota.
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Piece of My Heart: Uma das músicas mais icônicas de Janis Joplin. O título significa “Pedaço do meu coração” – e é exatamente isso que ela entregava ao cantar.

