O TEMPLO DA CONSCIÊNCIA

O TEMPLO DA CONSCIÊNCIA

PARTE 1- Não preciso de templos erguidos por mãos humanas.
Minha igreja se abre no próprio mundo: sem teto, sem muros, sem trancas.
O altar é a linha do horizonte tingida pelo sol nascente, e a iluminação não vem de lâmpadas, mas do clarão puro do céu.

O chão é terra pulsante, coberta por folhas que se agitam no sopro do vento.
As janelas coloridas não são de vidro, mas das asas de borboletas que cintilam em tons que nenhum artista ousaria imitar.
O coral não ensaia, apenas flui: é o rumor das águas correndo, o canto dos pássaros, a música invisível da brisa.

Neste templo não há horários fixos, pois todo instante é sagrado.
Quando a noite chega, o teto se converte num manto infinito cravejado de estrelas, e a lua, como lâmpada do Criador, acende caminhos e corações.
Não existem bancos alinhados, mas cada pedra, raiz ou sombra oferece repouso e acolhimento.

Aqui o incenso não se compra: é o perfume das flores que se abrem ao amanhecer e o aroma da terra molhada após a chuva.
As preces não se repetem — brotam do olhar, do silêncio, da presença.
E todos cabem, porque essa igreja é a própria vida.

Cada amanhecer é celebração, cada pôr do sol é louvor, cada noite estrelada é convite à contemplação.
E em cada respiração, o milagre se renova.


PARTE 2 – E quando fecho os olhos no coração da mata,
ouço o tambor ressoar como pulsar da Terra.
O vento sopra cânticos antigos,
as pedras guardam memórias de milênios,
os animais são meus irmãos de jornada,
e cada pena, cada casco, cada rugido,
é um conselho dos espíritos guardiões.

A fumaça do rapé sobe em espiral,
conectando o sopro da vida ao Grande Mistério.
A medicina das plantas abre portais,
o jaguar desperta na sombra,
a águia rasga os céus com a visão do infinito.
Eu danço com a lua,
canto com o trovão,
bebo da fonte que a floresta oferece,
e nela, meu corpo é templo,
minha alma, oração viva.


PARTE 3 – Eis que o ponto riscado se acende no chão,
a gira começa, os atabaques chamam,
e a força da corrente se espalha como luz.
Os Pretos-Velhos sopram sabedoria na brisa mansa,
com o cheiro do café fresco e do fumo que acalma.
As Crianças brincam entre as flores,
rindo como o som cristalino dos riachos.

Caboclos chegam com a força da mata,
abrindo caminhos, curando feridas,
trazendo a firmeza do arco e da flecha.
E os Orixás dançam no céu e na terra:
Oxalá no alvorecer,
Iemanjá nas ondas do mar,
Ogum nas estradas de ferro e de luta,
Xangô na justiça das pedreiras,
Oxum no ouro das águas doces.

Aqui, cada estrela é guia,
cada vela acesa é ponte,
cada canto é oferenda de amor.
Na Umbanda, a igreja é o mundo,
e o mundo inteiro é terreiro sagrado.


PARTE 4 – E quando o tambor da Terra se une ao toque do atabaque,
quando o sopro do jaguar encontra o ponto riscado no chão,
a floresta e o terreiro se tornam um só coração.

Os espíritos antigos, vestidos de penas ou de branco,
dançam lado a lado no círculo sagrado.
Caboclos e pajés se reconhecem no mesmo arco-íris,
Pretos-Velhos e anciãos da montanha trocam rezas,
as Crianças e os elementais brincam sob a mesma lua.

As folhas da mata se curvam diante de Oxóssi,
as ondas do mar cantam com Iemanjá,
o fogo do trovão reverbera com Xangô,
e o silêncio profundo do céu é o trono de Oxalá.

Então, o mundo inteiro é templo,
o corpo inteiro é altar,
e cada respiração se ergue como oferenda.
Não há separação entre selva e cidade,
entre pajelança e terreiro,
porque o Grande Mistério e o Criador são o mesmo sopro.

E neste instante supremo,
a humanidade recorda:
somos todos filhos da mesma luz,
somos todos guardiões da mesma Terra,
somos todos cântico da mesma eternidade.

Dalton, escritor compulsivo, poeta eterno, “guerreiro” ingênuo da alma…

Livros recomendados – Amazon:
Terra | Parte | Mundo | Sopro | Mesma | Igreja | Canto | Templo | Sagrado | Inteiro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.