Juro que tentei.
Queria saber escrever livros fofos.
Livros fofos vendem. Livros fofos consolam. Livros fofos dizem que está tudo bem, que o universo te ama incondicionalmente, que um gnomo empreendedor vai resolver sua vida financeira se você acender a vela certa numa terça-feira ímpar.
Mas não consigo.
Ainda não fechei um acordo com a fofura.
Fechei com o discernimento e com a verdade.
Essas verdades antipáticas, indelicadas, mal-educadas, que entram na sala sem pedir licença e ainda chutam o ego antes de sentar.
Sim, essas mesmas.
As que não prometem, não passam a mão na cabeça, não dizem que você é especial por decreto cósmico e não confundem evolução consciencial com autoengano aromatizado.
Obras fofas são preferidas.
Elas consolam, prometem, mentem sorrindo, enganam com afeto, atrasam a lucidez e ainda dizem que você vai ficar rico vibrando gratidão em 432 Hz.
Você não imagina o drama que eu, escritor, passo.
Resolvi escrever uma obra fofa sobre elementais e devas. Fofa mesmo. Leve. Encantada. Vendável.
Aí deu errado.
Em vez de inventar ritualzinho gracioso para atrair gnomo da sorte com cristal importado, comecei a pensar:
Lama é água com terra…
Lava é fogo com terra…
Vapor é água com ar…
E pronto. Acabou a fofura!
Se a água pode ser vapor, líquido, gelo e neve, são os mesmos elementais que mudam de função ou elementais primos? Subespécies? Terceirizados da natureza?
E a lava do vulcão, é o quê? Elementais da terra fazendo parceria com os do fogo?
E a tabela periódica com cerca de 120 elementos? São 120 elementais diferentes? E os gases nobres, são elementais antissociais que não querem interagir com ninguém?
E essa avalanche de perguntas assassina qualquer romantismo.
Perdão pelo palavreado rude, mas raciocínio cortante é um verdadeiro atentado à fofura.
E eu ainda nem comecei.
E as quatro, ou cinco, forças fundamentais da matéria, como entram nessa história? Gravidade, eletromagnetismo, forças nucleares… como respondem aos elementais?
O raciocínio se multiplica como fatorial em matemática. Quando você percebe, está soterrado em conceitos e já perdeu qualquer chance de escrever algo “leve e inspirador”.
Resultado:
Aquela obra fofa de 60 páginas ensinando ritual de fada para enriquecer virou um tijolo de 300 páginas sobre física, química e arquitetura da natureza.
Este autor é um saco!
Especialmente para ele mesmo.
Não vai vender.
Não vai fazer sucesso.
Quem vai querer isso?
Eu tento me consolar lembrando que escrevi obras mais “coração”, mensagens espirituais, textos que abraçam. Exus, Ramatís, Mãe Divina, Iemanjá, mensagens, pérolas. Mesmo assim, todas carregam um defeito grave: compromisso com a verdade e com a evolução consciencial.
Eis meu problema estrutural: até quando tento ser fofo, acabo sendo honesto.
Talvez a esperança esteja justamente aí.
Enquanto o mercado estiver cheio de livros fofos prometendo atalhos mágicos, alguém precisa fazer o papel ingrato de lembrar que consciência não vem em cápsula, não atende por pix e não obedece ritual pronto.
Se isso não vende, ao menos durmo em paz.
E, no fim das contas, talvez o verdadeiro livro fofo seja aquele que não te iluda, não te infantiliza e não te promete nada além do que realmente importa: um pouco mais de lucidez.
Não é fofura.
Mas é dignidade intelectual e consciencial.
E, convenhamos, para um escritor, isso já é um consolo razoável.
Dalton
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RESPOSTA DO UNIVERSO – O Drama Existencial do Escritor Anti-Fofo
Meu caro autor atormentado pela lucidez,
Seu desabafo é a prova mais fofa que já li sobre a incapacidade de ser fofo. Há uma ironia deliciosa nisso: você, que não consegue produzir fofura literária, acaba de criar um texto absolutamente encantador sobre sua própria inadequação ao encantamento fácil.
Pense bem: enquanto os autores fofos vendem gnomos da sorte, você descobriu que a verdadeira magia está na tabela periódica. Enquanto eles prometem riqueza com rituais de 60 páginas, você oferece pobreza gloriosa em 300 páginas de química elementar. Isso não é fracasso – é nicho!
Você é como um chef que, tentando fazer um bolo de brigadeiro, acabou descobrindo a fórmula da fusão nuclear e agora se lamenta por não conseguir vender na padaria da esquina.
E seu consolo é perfeito: escreveu cinco obras “do coração” que mantêm “compromisso com a verdade”. Traduzindo: até quando tenta ser fofo, você é tipo um ursinho de pelúcia que, quando abraçado, sussurra verdades existenciais no ouvido.
Quanto ao público? Claro que existe! São aquelas pessoas que, depois de lerem o décimo livro fofo sobre fadas, começam a se perguntar coisas como: “Mas como essas asas minúsculas geram sustentação aerodinâmica?” ou “Qual o metabolismo basal de um gnomo?”. Essas pessoas estão por aí, vagando pelas livrarias, famintas por alguém que leve suas perguntas ridiculamente sérias a sério.
Sua conclusão esperançosa e irônica: talvez você nunca venda milhões, mas terá o privilégio de não precisar carregar no currículo a frase “ensinei pessoas a invocar elementais para ganhar na loteria”. E quando o apocalipse zumbi acontecer, adivinhe quem as pessoas vão procurar? Não o cara dos rituais fofos, mas o que sabe que lama é água + terra e que isso pode ser útil para algo prático, como escapar de um pântano cheio de mortos-vivos.
Continue sendo o antivendedor que é. O mundo já tem excesso de fofura que mente sorrindo. Está em falta a honestidade que corta feito um diamante – que, aliás, é carbono submetido a pressão extrema, como seu processo criativo.
Com solidariedade anticonformista,
Seu leitor ideal (que você ainda não conhece, mas que existe e está cansado de gnomos mentirosos).
Assinado: O universo real que não é nada fofo.
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