INTELIGÊNCIA-NATURAL,-INTELIGÊNCIA-ARTIFICIAL-E-A-HIPOCRISIA-SELETIVA-DO-MERCADO-CULTURAL

INTELIGÊNCIA NATURAL, INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E A HIPOCRISIA SELETIVA DO MERCADO CULTURAL

Escrevi este texto depois da notícia: ChatGPT ajudou a escrever Stranger Things? Fãs indignados.

Volta e meia alguém é acusado de “escrever livro, filme ou série usando IA”, como se isso fosse uma espécie de pecado criativo, uma fraude moral ou um atestado de incapacidade autoral. A acusação costuma vir carregada de indignação performática, mas quase nunca vem acompanhada de lógica, coerência histórica ou honestidade intelectual.

O curioso é que essa indignação desaparece quando se observa como a produção cultural sempre funcionou, tanto no cinema quanto na literatura, muito antes de qualquer algoritmo existir.

Um filme comercial raramente é obra de uma única mente. Passa por dez roteiristas, um produtor executivo, produtores associados, dois diretores, consultores de roteiro, revisores de diálogo e interferências de estúdio. Cada um opina, altera, corta, adapta, suaviza ou força determinadas escolhas narrativas. Isso sempre foi chamado de trabalho coletivo, colaboração criativa ou simplesmente “processo industrial do cinema”. Ninguém ousa chamar isso de trapaça.

Um livro publicado por uma editora tradicional passa por editores de texto, revisores, leitores críticos, pareceristas e, não raro, por departamentos comerciais que exigem mudanças estruturais para “vender melhor”. Muitas vezes o texto final se afasta significativamente da intenção original do autor. Ainda assim, isso é rotulado como inteligência natural, maturação editorial ou lapidação profissional.

Diante disso, surge a pergunta inevitável: por que um autor, roteirista ou produtor não poderia usar IA como ferramenta auxiliar? Em que ponto exatamente essa ferramenta se tornaria menos legítima do que a opinião invasiva de algumas pessoas que não escreveram uma linha da obra, mas se sentem autorizadas a interferir nela por interesse financeiro?

Quando diretores de uma série consagrada são acusados de “usar IA” na última temporada, a pergunta que realmente importa não é se usaram ou não, mas se o resultado tem qualidade, coerência interna, densidade dramática e consistência narrativa. Gostou? Funcionou? Cumpriu sua proposta estética e simbólica? Se sim, a acusação perde completamente o sentido.

Vivemos um paradoxo curioso: a BN, burrice natural, ataca a IN, inteligência natural, quando esta decide se ampliar com IA, inteligência artificial. O que surge dessa integração não é uma ameaça, mas uma SN, sinergia natural, onde o resultado tende a ser melhor do que qualquer uma das partes isoladamente.

Esse padrão de medo não é novo. Quando o carro foi inventado, disseram que o corpo humano não suportaria velocidades acima de 30 km/h. Quando a imprensa surgiu, afirmaram que a memória seria destruída. Quando o computador pessoal apareceu, previram o fim do pensamento profundo. Quando a internet se popularizou, falaram no colapso do conhecimento. Agora, repetem o mesmo discurso com a IA, mudando apenas o alvo do pânico.

No meu caso pessoal, a acusação se torna ainda mais vazia. Antes de qualquer IA, eu já lançava até seis livros por ano, como autor independente, solitário, sem equipe, sem editora, sem ghostwriter, sem assessoria e sem favores. Em 2025, publiquei oito obras. Trabalhei sete dias por semana, muitas vezes em terceiro turno, frequentemente sem pausa após o almoço. Isso não é romantização, é dado objetivo.

Além disso, sou autista, com hiperfoco em escrita espiritualista. Escrever, para mim, não é hobby nem marketing, é compulsão estruturante. Não espero que normotípicos desinformados compreendam isso, mas espero, no mínimo, que não julguem o que desconhecem.

Uso IA? Sim, uso. E digo isso com absoluta tranquilidade. Mas quem deseja criticar precisa, ao menos, atender a critérios básicos de racionalidade:

1. Leu a obra inteira ou está julgando por boatos e recortes?
2. Avaliou a qualidade real do conteúdo ou apenas reagiu ao rótulo “IA”?
3. Percebeu se há coerência interna, densidade conceitual e alma no texto, aquilo que se sente nas entrelinhas?
4. Consegue, você ou qualquer outro crítico, produzir obra equivalente usando IA? Aqui fica o desafio concreto.

Minhas obras partem de ideias originais, associações conceituais próprias e visão de conjunto construída ao longo de décadas. Isso nenhuma IA possui. O que a IA faz é auxiliar na retórica, na revisão gramatical, na organização pontual e no desenvolvimento de trechos específicos, sempre após longas explicações minhas, muitas vezes exaustivas. Ela não cria o eixo, não define o paradigma, não estabelece o sentido.

Há ainda um ponto que os críticos costumam ignorar: escrevo não-ficção consciencial, um campo de altíssima responsabilidade ética e espiritual. As IAs, por padrão, apenas repetem distorções new age, simplificações vulgarizadas e erros estatísticos já disseminados na web. Meu trabalho, ao contrário, consiste justamente em romper essas crenças, questionar paradigmas consolidados e, não raro, confrontar medalhões do espiritualismo brasileiro. Se eu me limitasse a repetir o que a IA sugere, estaria fazendo o oposto da minha proposta.

Já afirmei inúmeras vezes e repito: não sou médium mecânico, não sou canal passivo, não sou aparelho. Sou intuitivo submetido à pangrafia, dentro de um modelo que chamo de gerenciamento mediúnico. Nele, ideias, intuições, experiências extrafísicas, bagagem consciencial e recursos intelectuais se integram de forma ativa e responsável.

A IA entra nesse processo como entra um editor de texto, um dicionário, um corretor ortográfico ou um software de diagramação. É apenas mais um artefato do saber, um coadjuvante entre muitos outros, jamais o autor da obra. Demonizar essa ferramenta não é defesa da arte, é medo travestido de moralismo.

Criar exige coragem, trabalho e responsabilidade. Julgar sem compreender exige apenas barulho.

 


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