Reginaldo Lima – https://www.facebook.com/reginaldo.lima.52019
O Espiritismo nasceu como uma filosofia de liberdade, investigação e diálogo com o mundo espiritual, livre de dogmas e aberta ao questionamento. No entanto, com o passar das décadas, o movimento espírita foi gradualmente assumindo formas e práticas cada vez mais semelhantes às igrejas tradicionais, especialmente à Igreja Católica, contra a qual se pretendia ser um contraponto. O que era para ser campo de reflexão e experiência viva acabou, em muitos lugares, se transformando em repetição de rituais, culto a personalidades e rigidez institucional. Vejamos alguns dos principais exemplos:
A obra de Kardec virou uma espécie de Bíblia
O Livro dos Espíritos e as demais obras básicas, que nasceram como uma proposta de investigação livre, se tornaram quase textos sagrados, intocáveis. Em muitos centros, questionar ou propor novas interpretações é visto como desvio doutrinário. Assim, em vez de inspirar pesquisa e renovação, os livros passaram a ser repetidos como fórmulas prontas, como se fossem mandamentos imutáveis.
Chico Xavier, Kardec e Divaldo foram elevados a “santos”
Em muitos centros, a figura de Chico Xavier, Allan Kardec e Divaldo Franco ultrapassou o reconhecimento natural por suas contribuições e se transformou em verdadeiro culto. Quadros, bustos e até altares improvisados os apresentam como símbolos sagrados. Objetos que lhes pertenceram ganham status de relíquias, quase intocáveis, repetindo o modelo católico de veneração aos santos e às suas possessões. Esse movimento acaba por contradizer a postura desses próprios homens, que sempre se declararam servidores humildes, sem pretensão de serem considerados acima do comum. A consequência é que o fiel, em vez de aprender com seus exemplos e seguir com autonomia, cria dependência emocional e espiritual desses personagens, como se fossem intermediários indispensáveis entre ele e o divino.
Reuniões públicas se tornaram “missas espíritas”
As reuniões abertas ao público, que deveriam ser espaço de encontro fraterno, muitas vezes seguem um roteiro rígido: prece inicial, leitura, palestra, passe, prece final. Esse esquema raramente é alterado, e qualquer tentativa de inovação costuma ser vista com desconfiança. O que poderia ser um momento de partilha, diálogo e vivência espiritual se transforma em ritual repetitivo, semelhante à liturgia da missa católica. Não há espaço para que os participantes tragam suas dúvidas, compartilhem experiências ou colaborem ativamente. A reunião vira cerimônia formal, onde todos sabem de antemão o que vai acontecer, esvaziando-se de espontaneidade e vitalidade. Essa uniformização acaba afastando muitos, sobretudo jovens, que buscam uma espiritualidade mais viva e interativa.
Palestrantes assumem o papel de pregadores
O expositor espírita, em vez de ser um facilitador do diálogo e da reflexão, frequentemente assume a posição de pregador. Ele se coloca em um púlpito, fala por longos minutos ou horas, e transmite suas interpretações como verdades estabelecidas. Quase nunca há abertura para perguntas, questionamentos ou debates. O público, por sua vez, permanece em silêncio, limitado a ouvir e absorver, como fiéis diante de um sermão religioso. Dessa forma, a palavra que deveria ser viva, interativa e provocadora de reflexão se cristaliza em discurso unidirecional. O expositor, em vez de estimular o senso crítico e a autonomia do ouvinte, acaba reforçando a passividade e o consumo passivo de ideias, exatamente como acontece nas igrejas tradicionais.
Estudos se transformaram em catecismo
O que era para ser um caminho de estudo livre e reflexivo se transformou, em muitos centros, em um processo de “adestramento intelectual”. Os alunos decoram respostas prontas para as perguntas mais comuns, mas não aprendem a pensar com autonomia. A dúvida, que deveria ser motor da investigação, passa a ser vista como falta de fé ou desvio da “cartilha”. Dessa forma, o estudo, em vez de abrir horizontes, fecha as portas da consciência.
Cursos de formação mediúnica viraram teologia
Há cursos que duram quatro, cinco, até dez anos, antes que o médium possa se sentar à mesa para servir. Nesse tempo, ele é mais preparado para defender a ortodoxia da casa do que para lidar com a própria sensibilidade mediúnica. Muitos desanimam e vão embora, pois percebem que a prática está sempre sendo adiada. O dom espiritual, que deveria florescer naturalmente, acaba se atrofiando pela demora e pelo excesso de teoria.
A caridade virou ação formal
Ajudar deixou de ser expressão espontânea de amor e passou a ser “projeto” ou “campanha institucional”. A doação de cestas básicas, roupas ou remédios se tornou um ato burocrático, cercado de relatórios e normas. Em alguns casos, a caridade virou vitrine para mostrar serviço, esquecendo que o verdadeiro gesto de amor é aquele feito no silêncio, sem precisar de reconhecimento.
Psicografias ganharam status de revelações absolutas
Ao receber uma mensagem, muitos já a tratam como se fosse palavra definitiva do alto, sem análise crítica. O conselho dos próprios espíritos, de que tudo deve ser confrontado com a razão e com o bom senso, foi deixado de lado. Surge então um novo “livro sagrado”, com frases repetidas mecanicamente em palestras e cursos, como se fossem verdades eternas. A psicografia deixa de ser diálogo vivo e vira dogma cristalizado.
“Doutrina espírita” virou “dogma espírita”
Em vez de “doutrina” no sentido de caminho de aprendizado, a palavra passou a significar “corpo fechado de regras imutáveis”. Ideias novas, aproximações com o budismo, o hinduísmo ou tradições indígenas, por exemplo, são vistas com desconfiança. Quem ousa pensar fora da cartilha é tachado de “desviacionista”. Assim, a riqueza de uma filosofia aberta ao infinito se perde na estreiteza de um dogma.
O culto à personalidade cresceu
A palavra de médiuns famosos é tratada como verdade incontestável, mesmo quando falam de temas pessoais. Citam frases de Chico, Divaldo ou Kardec como se fossem versículos bíblicos, sem reflexão crítica. Essa idolatria transforma homens comuns, que se declararam apenas instrumentos, em novas autoridades espirituais absolutas. O perigo é substituir a busca interior pela repetição de frases de efeito.
Reuniões mediúnicas exclusivas
A mediunidade, que deveria ser escola aberta de aprendizado e fraternidade, virou espaço reservado a poucos eleitos. Critérios rígidos de seleção impedem que médiuns sinceros possam participar, criando uma barreira semelhante ao “sacramento reservado aos iniciados” nas igrejas. O resultado é que muitos ficam do lado de fora, apenas como espectadores, sem oportunidade de crescer espiritualmente. A experiência que deveria ser vivida por todos se torna privilégio de alguns.
O centro espírita assumiu a função de “igreja”
Em muitos lugares, a simplicidade original dos encontros foi substituída por uma estrutura litúrgica. O palestrante ocupa um púlpito elevado, fala como pregador, enquanto a plateia ouve passivamente, em silêncio, como fiéis numa missa. A reunião segue um roteiro rígido, cânticos, prece inicial, leitura, palestra, passe, encerramento, de modo que pouco sobra de espontaneidade.
A disciplina virou obediência cega
O dirigente do centro, que deveria ser apenas um orientador fraterno, muitas vezes é visto como sacerdote com autoridade inquestionável. Suas decisões não podem ser discutidas, e questionar é tratado como rebeldia ou desrespeito. Assim, o movimento, que nasceu para ser horizontal e fraterno, se torna piramidal, com chefes no topo e obediência cega na base.
Vocabulário de culpa e redenção
As palavras usadas nas palestras e cursos lembram fortemente a linguagem católica: dívida, expiação, resgate, castigo, pecado de vidas passadas. O fiel passa a se ver constantemente como devedor, carregando culpas que parecem não ter fim. Essa lógica aprisiona em vez de libertar, reforçando medo e submissão em vez de crescimento espiritual.
O passe como sacramento
O passe, que deveria ser visto como recurso natural de transmissão de energias, muitas vezes é tratado como indispensável à salvação. Frequentadores vão ao centro não para estudar, refletir ou se transformar, mas apenas para “receber o passe”, como quem recebe a hóstia na missa. A prática se converte em ritual fixo e obrigatório, reforçando a dependência em vez da autonomia espiritual.
Conceitos espíritas se tornaram rígidos e imutáveis
O que deveria ser campo aberto de investigação e diálogo se fechou em interpretações únicas. Muitos dirigentes afirmam, por exemplo, que lei de causa e efeito não tem relação com o karma oriental, ou que emancipação da alma não pode ser comparada à projeção astral. Em vez de buscar conexões que ampliem a compreensão, prefere-se erguer muros que isolam o Espiritismo das demais tradições espirituais.
Proibição da fala dos espíritos ao público
Muitos centros não permitem que os espíritos se comuniquem livremente em reuniões abertas, restringindo sua fala a círculos fechados. Isso repete exatamente o gesto das igrejas, que proibiam revelações fora do controle do clero. O resultado é uma mediunidade engessada, sem frescor, que sufoca a espontaneidade e transforma o Espiritismo em instituição de censura espiritual.
Hierarquia rígida
Os dirigentes, que deveriam ser irmãos de caminhada, assumem a posição de sacerdotes com autoridade absoluta. Suas orientações não podem ser questionadas, e quem discorda acaba isolado ou afastado. Assim, em vez de espaço de fraternidade horizontal, o centro espírita se torna uma pirâmide de poder.
Uniformização das práticas
Preces idênticas, posturas corporais padronizadas e até o tom de voz durante os trabalhos são exigidos em muitas casas. Essa liturgia oficial cria um ambiente rígido, onde todos devem se comportar da mesma forma. A diversidade de expressão espiritual é sufocada, e o centro espírita acaba funcionando como uma missa repetida semanalmente.
Exclusão dos leigos
O público que frequenta palestras e reuniões é tratado apenas como ouvinte passivo, sem direito à palavra ou à partilha. Essa postura reforça a separação entre um “clero” que detém o saber e os fiéis que apenas escutam. A participação ativa, que poderia enriquecer a vivência coletiva, é substituída pela passividade e pelo silêncio.
Culto ao lugar físico
Em várias casas espíritas, o espaço do centro passa a ser tratado como se fosse sagrado em si mesmo, quase como um templo consagrado. O salão principal, o púlpito e até os móveis ganham um valor simbólico que vai além da simples funcionalidade. Essa visão se aproxima da lógica das igrejas tradicionais, que atribuem santidade ao templo e o consideram indispensável à vivência da fé. No entanto, na origem, o Espiritismo não precisava de altares, estátuas ou prédios especiais: bastava a reunião de pessoas dispostas a aprender e servir.
Moral rígida
A vida pessoal dos frequentadores é muitas vezes fiscalizada de maneira velada, criando um ambiente de vigilância constante. Há centros onde hábitos cotidianos, como roupas, lazer ou escolhas pessoais, se tornam objeto de julgamento moral. Esse controle lembra as antigas confissões e penitências da Igreja Católica, onde os fiéis viviam sob o medo de pecar e ser punidos. Assim, a liberdade espiritual vai cedendo lugar a um moralismo que aprisiona.
Catequese infantil
A chamada “evangelização infantil” em muitos centros é conduzida de forma semelhante às catequeses católicas. Crianças são ensinadas a decorar conceitos e repetir respostas prontas, em vez de aprender a pensar, sentir e refletir sobre o mundo espiritual. O processo de memorização substitui o despertar da consciência, e a infância é usada como etapa para moldar futuros “fiéis” dentro da ortodoxia doutrinária.
Canonização de obras
Além das obras de Kardec e Chico Xavier, muitos outros livros psicografados acabaram sendo tratados como revelações definitivas, intocáveis. Qualquer crítica ou tentativa de releitura é vista como heresia ou falta de respeito com o espírito comunicante. Esse processo repete a canonização dos evangelhos, que no cristianismo se tornaram textos sagrados imutáveis. O problema é que o Espiritismo, que nasceu aberto ao diálogo e ao progresso das ideias, se fecha em torno de um “cânon” que não pode ser tocado.
Exclusivismo do local de culto
No início do cristianismo, as reuniões eram feitas nas casas, mas a Igreja Católica proibiu o culto doméstico e centralizou tudo nos templos. O mesmo acontece em muitos centros espíritas, que desencorajam ou proíbem o trabalho mediúnico nos lares. A justificativa é de segurança espiritual, mas o efeito é o mesmo: só a instituição teria autoridade para permitir a prática. Assim, o Espiritismo acaba repetindo o modelo de controle clerical que pretendia superar.
Proibição de livros
Muitos centros espíritas só vendem livros de autores que concordam com a cartilha da casa ou da federação. Obras que trazem visões diferentes ou dialogam com outras tradições acabam excluídas das prateleiras. Isso lembra o “índice de livros proibidos” da Igreja Católica, que censurava o que não se enquadrava na ortodoxia. Assim, o livre-pensar, que foi a base do Espiritismo de Kardec, vai sendo sufocado pela seleção rígida de ideias.
Exclusão de quem pensa diferente
Médiuns e estudiosos que pensam diferente muitas vezes sofrem isolamento e críticas dentro dos centros. Alguns chegam a ser expulsos ou perseguidos por não seguirem a cartilha oficial. Essa prática lembra a Inquisição, que condenava quem ousava questionar os dogmas da Igreja. Assim, o Espiritismo acaba afastando justamente aqueles que poderiam trazer renovação e vida ao movimento.
Vaticano espírita
A Federação Espírita Brasileira (FEB), criada para organizar e difundir a doutrina, aos poucos se transformou, para muitos, em uma espécie de “Vaticano espírita”. Centraliza poder, dita normas e procura uniformizar a prática em todos os centros do país, como se houvesse apenas uma forma legítima de vivenciar o Espiritismo. Essa centralização cria manuais de conduta, apostilas e orientações que, na prática, funcionam como dogmas oficiais, restringindo a liberdade das casas independentes. Em vez de incentivar a pluralidade, a experimentação e o livre-pensar, tão valorizados por Kardec, a FEB busca padronizar tudo: desde a linguagem usada nas palestras até a maneira de aplicar passes e conduzir reuniões. O resultado é que muitos centros passam a repetir mecanicamente as mesmas fórmulas, e qualquer grupo que ouse pensar diferente é visto como “desviante”. Assim, o Espiritismo, que nasceu para ser campo de investigação e liberdade espiritual, vai se aproximando cada vez mais do modelo hierárquico da Igreja Católica, com sua figura central de autoridade e sua imposição de ortodoxia.
Controle do modo de vestir
Em muitos centros espíritas existe a proibição de roupas mais curtas ou consideradas “inadequadas”. A mediunidade, que deveria ser medida pela sintonia espiritual e pela conduta íntima, passa a ser julgada pela aparência externa. Essa postura lembra o moralismo das igrejas, que controlam o vestuário dos fiéis como sinal de pureza. Assim, o Espiritismo troca a essência da espiritualidade pela vigilância do corpo, repetindo padrões de censura do passado.
Busca por milagres em médiuns
Muitos frequentadores procuram médiuns famosos em busca de curas imediatas, revelações pessoais ou soluções rápidas para seus problemas. Essa expectativa cria uma espécie de “milagreira espírita”, onde o médium é visto quase como um santo capaz de interceder e operar prodígios. O fenômeno é semelhante à devoção católica aos santos, nos quais fiéis depositam esperanças de milagres e graças especiais. Dessa forma, em vez de encarar o médium como um simples instrumento, as pessoas acabam colocando nele uma aura de poder sobrenatural, transformando a mediunidade em palco de idolatria.
Dependência dos espíritos como intermediários da verdade
Assim como na Igreja, o fiel depende do padre ou do pastor para ouvir “a verdade” sobre o certo e o errado, muitos espíritas passaram a depender das mensagens dos espíritos para guiar suas vidas. Qualquer orientação mediúnica é tomada como lei, e a consciência individual é colocada em segundo plano. O risco é transformar os espíritos em novos “sacerdotes do invisível”, cuja palavra substitui o discernimento íntimo e a autonomia da razão, exatamente como antes acontecia com a autoridade clerical.
Exclusivismo da salvação pela doutrina
Em muitos centros espíritas, consolidou-se a ideia de que apenas o Espiritismo é o caminho seguro para a evolução espiritual. Assim como a Igreja Católica afirmava no passado que “fora da Igreja não há salvação”, alguns dirigentes e frequentadores acreditam que fora da doutrina espírita não há progresso verdadeiro da alma. Essa visão contradiz o próprio Kardec, que defendia que toda verdade deveria ser acolhida, viesse de onde viesse, e que nenhuma doutrina humana poderia se declarar única dona da verdade. O exclusivismo cria uma barreira contra o diálogo com outras tradições e sufoca o espírito universalista que deu origem ao Espiritismo.
Valorização excessiva da forma sobre a essência
Muitos centros dão mais importância ao protocolo do que à vivência interior. Importa mais seguir a ordem da reunião, respeitar o tempo da palestra, aplicar o passe de determinada maneira, repetir a mesma prece no mesmo tom, do que cultivar a profundidade do sentimento e a sinceridade do coração. Esse formalismo é um reflexo da Igreja medieval, que fazia da liturgia e do rito exterior a principal expressão da fé, mesmo quando o coração estava vazio. O perigo é transformar o Espiritismo em um teatro de práticas repetitivas, onde a forma é cumprida, mas a essência espiritual vai se perdendo.
Separação entre “leigos” e “iniciados”
O Espiritismo nasceu como espaço aberto, onde todos poderiam investigar os fenômenos e participar da busca pela verdade espiritual. Mas, em muitos centros, criou-se uma divisão clara: os “leigos”, que apenas assistem palestras e recebem passes, e os “iniciados”, que participam de reuniões fechadas, inacessíveis ao público. Essa distinção repete a lógica do clero e dos fiéis na Igreja, reforçando hierarquias em vez de fraternidade. A mediunidade, que deveria ser escola de aprendizado coletivo, se torna um privilégio reservado a poucos escolhidos, gerando exclusão e reforçando a ideia de que apenas alguns têm acesso direto ao mundo espiritual.
Regras de pureza externa
Em alguns centros, a espiritualidade passou a ser medida pela obediência a normas exteriores: não comer carne, evitar café ou álcool, usar roupas discretas, limitar certos lazeres. Embora possam ter boas intenções, essas regras acabam transmitindo a ideia de que a evolução espiritual depende da aparência e do comportamento visível. Isso lembra as práticas ascéticas da Igreja antiga, em que a santidade era definida pelo jejum, pelo celibato ou pelo sacrifício do corpo. O risco é transformar a fé em disciplina externa, quando a verdadeira transformação deveria acontecer no íntimo do coração e da consciência.
Criação de títulos e cargos
Alguns centros criaram estruturas administrativas que se parecem com um verdadeiro organograma corporativo: coordenadores, supervisores, diretores doutrinários e presidentes. Aos poucos, a fraternidade simples entre trabalhadores se transforma em uma hierarquia formal, em que cargos dão status e poder. Essa tendência repete o modelo da Igreja, que construiu toda uma escala de posições, diáconos, padres, bispos, cardeais, papa, como se a espiritualidade fosse questão de carreira. Em vez de irmãos de caminhada, os dirigentes acabam se tornando autoridades, e a casa espiritual, um escritório religioso.
Controle sobre a interpretação
A leitura das obras básicas ou das psicografias, que deveria ser um convite à reflexão, passou em muitos lugares a ser vigiada e controlada. Questionamentos são vistos como falta de fé ou até como ameaça ao centro. Só a interpretação oficial é aceita, e novas leituras ou comparações com outras tradições são rejeitadas de imediato. Criou-se uma espécie de patrulhamento doutrinário, que é a prática de vigiar e corrigir constantemente o que os outros dizem ou fazem, repetindo frases como “isso é Espiritismo” e “isso não é Espiritismo”. Ele aparece como desdobramento do controle sobre a interpretação e da transformação da doutrina em dogma, criando um clima de policiamento ideológico nos centros. Em vez de favorecer o diálogo e a reflexão, sufoca a liberdade de pensamento e reforça a rigidez institucional. Esse comportamento é semelhante ao da Igreja na Idade Média, quando a Bíblia não podia ser lida livremente, sendo reservada ao clero a tarefa de interpretar. Assim, o Espiritismo, que nasceu para ser livre e investigativo, corre o risco de repetir o mesmo erro da religião que dizia querer superar.
Substituição da experiência pela tradição
Em alguns centros espíritas, a vivência direta com os espíritos e a reflexão pessoal deram lugar a uma confiança cega no que já está estabelecido. As reuniões, palestras e até mesmo os cursos se repetem da mesma forma, ano após ano, como se a tradição fosse suficiente para manter a chama acesa. O argumento “sempre foi feito assim” substitui a busca pelo novo, pelo vivo, pelo espontâneo. Esse comportamento lembra a Igreja quando, ao longo dos séculos, transformou-se em guardiã de costumes, ritos e dogmas, priorizando a manutenção da forma em vez de estimular experiências espirituais autênticas. Assim, a riqueza da investigação e da abertura ao inesperado se perde, e o movimento vai se tornando cada vez mais previsível e estagnado.
Espiritismo folclórico: frases e histórias apócrifas
Após a morte de Chico Xavier, multiplicaram-se relatos de frases, opiniões e histórias supostamente ditas por ele, sem qualquer registro ou confirmação. Pessoas afirmam: “Chico me disse isso” ou “Chico defendia tal ideia”, mas na maioria das vezes não há gravações, cartas, entrevistas ou livros que sustentem essas alegações. Assim, qualquer frase, mesmo sem fundamento, ganha peso de revelação apenas por ser atribuída a Chico. O fenômeno criou uma verdadeira “indústria de frases” em redes sociais, grupos de WhatsApp, vídeos e até livros, onde Chico é usado como autoridade para validar ideias que muitas vezes não têm ligação com sua obra. Esse processo é semelhante ao que ocorreu nas igrejas tradicionais, sobretudo na Igreja Católica, onde santos foram cercados de lendas, histórias milagrosas e frases de efeito que nunca foram comprovadas. Basta um relato popular para que se crie um mito: a devoção se alimenta mais de tradições orais do que do Evangelho em si. No Espiritismo, o risco é o mesmo: a doutrina se torna folclore, baseada em frases apócrifas e anedotas, em vez de estudo sério, análise crítica e fidelidade ao que realmente foi escrito e vivido.
Preconceitos diversos
Assim como ocorreu nas igrejas tradicionais, também no movimento espírita surgiram preconceitos que vão contra o espírito de universalidade pregado por Kardec. Há preconceito contra outras religiões, como Umbanda e Candomblé, vistas por muitos espíritas como inferiores ou atrasadas. Há preconceito contra médiuns espontâneos, tachados de irresponsáveis por não seguirem cursos longos e oficiais, lembrando a proibição da Igreja de cultos domésticos. Há ainda preconceito moral, quando se julgam roupas, tatuagens ou estilos pessoais como sinais de falta de evolução. Também existe preconceito contra ideias novas, rejeitando diálogos com tradições orientais ou com a ciência contemporânea, repetindo o fechamento dogmático da Igreja medieval. Até mesmo preconceito social aparece em alguns centros. Embora o Espiritismo pregue fraternidade, alguns centros ainda cultivam preconceito contra os pobres. Muitos os chamam de “vagabundos” ou os consideram menos evoluídos espiritualmente, confundindo condição material com valor moral. Essa visão, além de cruel, contradiz a essência da doutrina e transforma a caridade em exclusão.
É claro que este texto pode soar duro para alguns leitores espíritas mais ortodoxos. Muitos dirão que estou exagerando, que não se pode generalizar e que existem casas sérias, abertas e acolhedoras e é verdade. Existem centros que preservam o espírito livre de Kardec, onde a mediunidade é exercida com simplicidade e o estudo é fonte de reflexão viva. Mas não podemos fechar os olhos para uma tendência maior, cada vez mais presente, que transforma o Espiritismo em uma estrutura rígida, semelhante àquela que um dia quis superar. Outros poderão argumentar que a disciplina, os cursos e a padronização são necessários para evitar mistificações e garantir segurança nas práticas mediúnicas. De fato, organização e cuidado são importantes. Mas organização não pode virar engessamento, e disciplina não deve significar obediência cega. É possível manter critérios sem sufocar a espontaneidade e sem afastar os que desejam servir.
Quero também deixar claro que a crítica não é contra o Espiritismo em si, mas contra os desvios que o transformam em algo que ele nunca deveria ser. O que precisa ser questionado não é a doutrina original de Kardec, mas as interpretações que a engessam, repetindo velhos padrões das igrejas. Não pretendemos destruir nada, mas suscitar reflexões importantes para os espíritas não caírem em alguns desses erros de “igrejização”. Destruir significaria jogar fora a filosofia, negar sua contribuição e romper com seu legado e não é isso que se busca.
O que se propõe é resgatar a essência… o Espiritismo como caminho de investigação, liberdade de consciência, diálogo com os espíritos e cultivo da fraternidade sem imposições. É lembrar que a doutrina nasceu para libertar o homem do medo do inferno, do peso do pecado e da submissão cega à autoridade religiosa. Se hoje ela mesma começa a reproduzir essas prisões, é necessário retomar o fio original e devolver ao movimento seu caráter de filosofia livre e universalista.
O Espiritismo nasceu livre…. Kardec disse que se uma verdade nova se apresentasse, deveríamos preferi-la ao que ele mesmo havia escrito. Portanto, não há nada mais fiel a Kardec do que questionar, refletir e renovar. Se a ortodoxia teme que essa liberdade leve ao erro, lembremos que é a liberdade que nos permite aprender, e que o verdadeiro erro é o medo de pensar. O Espiritismo só terá futuro se for capaz de unir estudo sério com vivência prática, respeito à disciplina com abertura ao espírito crítico, valorização da tradição com coragem de se renovar.
Reginal do Lima
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