Há livros que se escrevem com palavras, e há livros que nascem do intervalo entre elas. Encontros com o Inefável – Poemas sobre o silêncio e o retorno da consciência pertence a essa segunda linhagem: a dos gestos sutis, das pausas que não se apagam quando o leitor fecha o volume. É menos uma obra literária e mais um espaço de lembrança — um território onde o verbo volta a ser respiração.
Encontros com o Inefável, por Dalton Campos Roque – Clube de Autores
Desde o primeiro poema, o autor não busca convencer, mas recolher o leitor dentro de si.
“Há um silêncio que não nasce do mundo, / um intervalo entre dois pensamentos / onde o tempo se ajoelha.”
Esse é o tom inaugural de Encontros com o Inefável: uma meditação que escolheu a forma da poesia para se expressar. A linguagem, ora mínima, ora ascendente, atravessa o humano e o transcendente sem anunciar fronteira. Cada verso é um degrau, não de subida, mas de desapego.
O livro está organizado em três movimentos — Ascensão, Cume e Descida — que ecoam uma trajetória interior. A Ascensão é o impulso da alma que se recorda; o Cume é a experiência da unidade; a Descida é o retorno lúcido ao mundo, quando o sagrado já habita o cotidiano. A jornada não se encerra na luz, mas na integração.
“Quem sobe a montanha busca Deus.
Quem desce, o encontra em tudo.”
Aqui, a poesia abandona a retórica espiritualista e se torna experiência viva. A cada poema, a consciência se refina — não pela moral, mas pela atenção. O autor escreve como quem não quer explicar o mistério, apenas testemunhar sua presença. Há ecos de misticismo oriental, filosofia estoica e parapsicologia, mas filtrados por uma voz própria, brasileira, enraizada no chão da experiência humana.
No Cume, a linguagem se rarefaz até tocar a pura vibração:
“O Fogo Branco não queima, dissolve.
Não consome a forma, a liberta do contorno.”
Nesses versos, a metafísica se converte em gesto sensorial. O leitor sente a página como quem respira junto ao poema. Nada de dogmas, nada de doutrina — apenas o espanto lúcido de existir.
E então vem a Descida. O sagrado, agora, anda de sandálias. A divindade experimenta o pó das ruas, bebe água em copos lascados, aprende a tropeçar.
“Deus calçou sandálias e entrou nas ruas.”
A espiritualidade, antes cósmica, torna-se ética e cotidiana: é o amor que se faz ato, o silêncio que aprende sotaque humano. Essa parte do livro devolve o leitor ao real com outro olhar — mais sereno, mais compassivo, mais inteiro.
O fechamento, com O Portão Invisível, dissolve a noção de caminho. A travessia foi apenas a consciência reconhecendo a si mesma:
“O portão não se abre nem se fecha.
Ele respira.”
Essa respiração é o eixo da obra — o mesmo fôlego que une criação e retorno, vida e consciência. Em Encontros com o Inefável, o autor não fala sobre espiritualidade; ele escreve a partir dela, num ponto onde filosofia, poesia e autoconhecimento se confundem.
Mais do que um livro, o leitor encontrará uma frequência. Quem o percorre não sai “convertido”, mas despertado. A estética aqui não busca aplauso — busca silêncio. E, talvez, seja exatamente esse o milagre: a poesia voltando a cumprir seu papel original, o de recordar o ser humano de sua origem imaterial.
Disponível no Clube de Autores, Encontros com o Inefável é convite e espelho. Um livro que não se lê de uma vez, mas se visita — como quem retorna, pouco a pouco, à própria essência.
“Nada a provar.
Nada a buscar.
Só o simples milagre
de existir conscientemente.”

