QUANDO O PÚBLICO EXIGE PERFEIÇÃO QUE NÃO PRATICA

QUANDO O PÚBLICO EXIGE PERFEIÇÃO QUE NÃO PRATICA

Entre todas as distorções do meio espiritualista, poucas são tão corrosivas quanto a idealização patológica do emissor de conteúdo espiritual. Ao observarmos a interação entre médiuns, projetores, palestrantes e seus públicos, percebemos uma tendência silenciosa e doentia: a expectativa de que quem comunica espiritualidade seja impecável, inatingível, ascético, imaculado — um “ser perfeito” em contraste com a própria humanidade de quem o admira.

Essa exigência irracional não nasce da lucidez, nasce da sombra coletiva. É produto de carências afetivas, infantilização espiritual e fuga da responsabilidade íntima.
É uma distorção que se infiltra em ambientes sérios e nocivamente contamina a percepção da assistência.

A massa espiritualista, movida mais por emocionalidade do que por discernimento, cria inconscientemente seus próprios “santos informais”. Não importa se o emissor nunca reivindicou santidade; o público constrói o pedestal.
E, uma vez construído, passa a querer quebrá-lo.

Essa dinâmica é tão previsível quanto repetitiva:
— o emissor espiritualista apresenta ideias lúcidas;
— o público projeta nele pureza, ausência de ego, superioridade moral;
— o emissor comete um erro humano trivial;
— o público reage com indignação moralista, teatraliza decepção, abandona totalmente o discernimento.

Não se trata de crítica legítima, mas de histeria espiritualista.
É a psicodinâmica da idealização e da destruição, igual em todas as tradições religiosas e neoespiritualistas.

O mais grave é a contradição íntima:
A mesma pessoa que exige impecabilidade do emissor permite a si mesma incoerências, obsessões por consumo, omissões kármicas, escapismos, pornografia, desonestidades diárias, sentimentos rancorosos e julgamentos apressados.
A distorção é evidente:
— Eu posso errar.
— Você não pode.

É um moralismo seletivo travestido de “zelo espiritual”.
E esse moralismo é um dos elementos mais tóxicos para qualquer comunidade espiritualista.

Além disso, exige-se do emissor espiritual aquilo que não se exige de professores, médicos, pais, autoridades, cientistas ou religiosos comuns.
O emissor espiritualista vira objeto de fetiche moral e fantoche psíquico de um público que terceiriza nele sua própria incapacidade de amadurecer.

O fenômeno agrava-se quando entra em cena a narrativa das “histórias de redenção”.
O público aceita o passado pecaminoso do santo — mas só depois que ele já virou santo.
Chico Xavier, Bezerra, grandes xamãs, figuras de diversas tradições… Só são aceitos porque o público acredita que já transcenderam sua humanidade.
Mas rejeita qualquer trabalhador consciencial que esteja hoje no meio da própria reforma íntima.
É como se a redenção só fosse bonita quando passada; jamais durante o processo.

Essa é uma das mais perigosas distorções conscienciais porque impede o amadurecimento do público, sufoca trabalhadores espirituais sérios e alimenta ciclos de idolatria e destruição.
O público espiritualista precisa compreender:
• ninguém que trabalha com espiritualidade está pronto;
• funções não significam evolução;
• o emissor espiritual é um trabalhador em correção kármica, não um arcanjo em missão terrena;
• buscar perfeição em outro é negar a própria sombra.

Trabalhadores espirituais erram, caem, levantam, compensam débitos, fazem besteiras, aprendem como qualquer ser humano. O que os distingue não é a pureza, mas o compromisso contínuo de se tornarem melhores.
Se o público deseja realmente evoluir, precisa abandonar urgentemente essa distorção infantil e substituir projeção por discernimento, idolatria por análise, julgamento por cosmoética.

Maturidade consciencial exige um novo contrato: menos santos imaginários, mais humanidade lúcida.

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